A Romênia parece ter se tornado a última grande coqueluche do cinema internacional. Filmes como “A leste de Bucareste”, de Corneliu Porumboiu, e “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de Cristian Mugiu, tem alcançado grande repercussão de crítica e algum público -o primeiro ganhou o Camera d´or em Cannes, dado a cineastas estreantes, e o segundo levou a Palma de Ouro no mesmo festival ano passado. Ambos os filmes tratam, principalmente, da questão da autoridade e do quanto ela interfere na vida dos cidadãos comuns. Porumboiu continua sua exploração da questão da autoridade com “Polícia, adjetivo”.
O filme basicamente acompanha o policial Cristi (Dragos Bucur) em uma tocaia de alguns dias para pegar o usuário adolescente de drogas Victor (Radu Costin). Cristi, durante sua missão, questiona se deve ou não prender o jovem, pois a Romênia pós-comunista e ligada à Europa logo deve também adotar o abrandamento das leis sobre drogas, liberalizando o uso. Cristi sabe que a prisão de Victor vai marcá-lo por toda a vida. Mais ainda, Cristi questiona a intenção de seu informante, um outro jovem rapaz, usuário de droga com Victor e outra menina. Estaria o informante interessado em tirar Victor do caminho para ficar com a garota?
Porumboiu faz um casamento perfeito entre estética e roteiro, pois usa de longos planos sequências para mostrar a tocaia de Cristi a Victor, ressaltando o caráter burocrático do trabalho do policial. A câmera está sempre notavelmente estática, fugindo das facilidades da câmera tremida tão em voga hoje em dia, e a adoção radical do plano sequência pode causar certo estranhamento em espectadores mais desavisados, pois os tempos são esticados ao máximo -as vezes, mais do que o necessário.
Pela escolha estética, não é só o trabalho de Cristi que é burocrático; sua vida também é. Recém casado, as cenas domésticas também abusam do plano sequência, mostrando a banalidade da existência do jovem casal, mas introduzindo uma questão que será fundamental para a resolução do filme: a linguagem.
Não à toa, a obra se chama “polícia, adjetivo”, como se estivessemos lendo um dicionário. Cristi é o policial cuja consciência pesa na hora de cumprir seu serviço, pois ele sabe da inutilidade do que está prestes a fazer. Ele sabe das consequências devastadora que seus atos, amparados na seca legalidade, causará àquele jovem. Um longo plano sequência, o penúltimo do filme -e talvez um dos momentos mais geniais do cinema nessa década-, desmonta toda a argumentação de Cristi.
Nele, seu superior pega um dicionário e vai, palavra por palavra, destruindo as ideias de Cristi. O jovem policial tem noção da inutilidade e dos resultados de sua ação, mas não tem o discurso suficiente para expor seu ponto de vista. O dicionário, por sua vez, reduz as palavras -assim como alguns reduzem as leis- às letras secas do que está escrito, destituindo-as de ética e historicidade. O superior arrasa o discurso do subordinado, discurso esse que a platéia do cinema também sabe correto, ainda que confuso, mas que não se sustenta na insuficiência argumentativa de Cristi.
O plano final é outro achado genial. A câmera, que sempre focalizou pessoas, agora focaliza uma lousa, com um mapa desenhado, no qual vários Xs vão marcando as posições dos policiais que irão fazer o quixotesco cerco ao adolescente. A autoridade consegue impor sua lógica vazia ao ser humano, destituindo-o de razão.
É um filme difícil, por vezes bem arrastado, mas trás uma discussão fundamental sobre a autoridade, ainda mais para quem vive em um país como o nosso, tão ansioso por leis que resolvam o mundo, mas que não entende que essa resolução não se dá no âmbito das normas, mas no âmbito do convívio humano. Difícil, mas importante.



