VISÕES DA FLIP

Julho 7, 2009 by fredericokling

A Flip já foi. Vi algumas mesas, umas boas, outras nem tanto. Desde o interessantíssimo debate na mesa “Verdades inventadas” até o show um tanto quanto questionável da mesa com Milton Hatoum e Chico Buarque, essa é a minha visão pessoal do que ali se passou.

 

1- CONFERÊNCIA DE ABERTURA

O professor Davi Arrigucci Jr. abriu a Flip com uma palestra sobre o homenageado desta edição: o poeta pernambucano Manuel Bandeira.

A palestra de Arrigucci foi muito boa e esclarecedora. Conseguiu dar um ótimo panorama sobre a obra e a vida do poeta, sem cair no óbvio, mas também sem beirar o excessivo academicismo. Foi na medida para um público de iniciados, mas não de especialistas.

Entre os momentos mais interessantes da palestra, houve a análise de Arrigucci sobre uma série de antagonismos muto importantes na obra de Bandeira, como as oposições dentro/fora, alto/baixo, antagonismos esses cuja origem Arrigucci encontra em passagens da vida do poeta. A palavra de ordem, para Arrigucci, é alumbramento. É essa palavra, presente em alguns poemas de Bandeira, que representaria o fazer literário do poeta. Uma demonstração da capacidade que Bandeira teve de transformar uma vida de doenças e privações em produção literária de extrema qualidade.

 

2- VERDADES INVENTADAS

Essa mesa reuniu três escritores cujas obras beiram o limite entre realidade e ficção. Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues fizeram breves apresentações de suas obras. Cada uma tem diferentes porções de realidade e ficção. O livro de Tatiana, por exemplo (As chaves de casa) tem claros elementos biográficos, como tratar de uma família que, como a dela, é judia de origem turca, ou a história das chaves da casa turca guardadas por seu avó. Já Arnaldo Bloch ecsreveu “Os irmãos Karamabloch”, que conta a história dos irmãos Bloch que, na década de 1960, criaram um império da comunicação comparável ao de Roberto Marinho. A obra de Rodrigues (Elza, a garota), por sua vez, foi fruto de uma encomenda, e usa ampla pesquisa histórica e construção ficcional para contar a história verdadeira de uma jovem que foi assassinada a mando da direção do Partido Comunista Brasileiro, acusada de traição.

Cada um deu seus motivos para escrever seus livros. Tatiana, por exemplo, negou que seu livro tenha uma carga tão autobiográfica assim. Visivelmente retraída, conseguiu, no entanto, uma nova legião de fãs com a leitura de parte de seu livro, feito que levou uma pequena multidão à sessão de autógrafos, tendo principalmente seu livro em mãos, inclusive esse que vos escreve.

Já Bloch citou a necessidade de desvencilhar-se da pesada herança familiar, ainda mais para alguém que escolheu a carreira de jornalista. Rodrigues, por sua vez, como já dito, atendeu a uma encomenda.

A questão sobre a fronteira entre realidade e ficção fez parte das melhores falas da mesa. Tatiana negava a pesada carga, mas quem deu a palavra final sobre a questão foi mesmo Rodrigues, talvez por não carregar o peso de sua vida em seu livro: “O inseto de Kafka não é uma mentira – é só uma verdade monstruosa”. Disse tudo sobre essa questão que anda tumultuando debates teóricos não só na literatura, mas no cinema também. O problema é: será que essa discussão faz sentido?

No fim, essa foi uma das melhores mesas, com todos os três saindo-se muito bem nas suas falas, atraindo muita gente para a mesa de autógrafos, o que, de certa forma, serve como um termômetro da recepção da platéia ao debate.

3- DEUS, UM DELÍRIO

Richard Dawkins frequentou por um bom tempo a lista de mais vendidos no Brasil com sua obra “Deus, um delírio”, um poderoso panfleto contra o obscurantismo religioso.

Curiosamente, em edição anterior, a Flip já havia dado abrigo a outro escritor, o polemista Cristopher Hitchens, que igualmente passeou pela seara do obscurantismo religioso, mas, ao contrário das falas furiosas e irônicas deste, Dawkins usou de toda a clareza que um reconhecido cientista como ele dispõe.

O mediador Silio Boccanera não se furtou a apenas levantar a bola para Dawkins panfletar. O jornalista brasileiro apresentou questões um tanto quanto incomodas, como ao perguntar a Dawkins o que ele diria se morresse e se visse em presença de Deus. Dawkins: “Qual Deus é você”? Espirituoso.

Pode-se objetar que Dawkins estava jogando para uma torcida só, de pessoas, digamos, esclarecidas, o que pode ter tirado um pouco do poder de combustão de suas palavras. Ainda assim, o cientista não se furtou aos ataques vigorosos contra o obscurantismo religioso, e alguma de suas falas são para pensar, como quando insistiu na não existência de crianças cristãs, ou judias, ou muçulmanas ou de qualquer religião. O que há, disse ele, são crianças com pais religiosos. Essa fala representa todo o seu pensamento contra o doutrinarismo excessivo e perigoso da religião.

Acabou muito aplaudido pelo público, provavelmente pela clareza de pensamento, ainda que sem o tom explosivo de Hitchens.

 

4- MILTON HATOUM + CHICO BUARQUE

Essa era “A” palestra da Flip. A reunião entre aquele que deve ser o melhor escritor brasileiro da atualidade com o autor de um dos lançamentos mais comentados do ano e grande sucesso de público, tudo isso mediado por Samuel Titan Jr. um dos principais teóricos brasileiros de literatura.

Mais um jogo para a platéia. Tenda lotada, as laterais tambem. Parecia mais um show de rock do que uma palestra sobre literatura. A impressão era de que, não importa o que se falasse ali, todos gostariam e aplaudiriam. E foi mais ou menos isso o que aconteceu.

A leitura das obras pelos escritores já demonstrava a diferença do trabalho de ambos. Hatoum leu trechos de seu “Orfãos do eldorado”, obra que, ainda que encomendada, só veio acrescentar a sua pequena, mas incrível, produção literária. Já Chico leu um trecho de seu “Leite derramado”, obra que alguns apressados insistem em classificar como machadiana, colocando Chico como herdeiro do legado de Machado. Exagero que Hatoum, em uma ou outra palestra em universidades pelo Brasil, tratou de retificar, ao fazer algumas críticas duras à produção de Chico. Mas lá eram todos amigos.

A palestra, por sua vez, foi lenta, demorou para engrenar, e prendeu-se demasiado às filigranas do fazer literário de cada obra. Sinceramente, quem não leu os livros, ficou boiando.

Hatoum parecia visivelmente constrangido, pois sabia que aquele enxame de gente não estava todo ali para vê-lo. Uma legião de chicólatras invadiu Paraty. Como Chico é sim uma grande artista, mas com um ego devidamente controlado, ele igualmente mostrou-se um tanto retraído.

No final, o que se viu foi uma palestra que não empolgou, não entregou o que prometia. Mas o público não se importou. À mera fala de que seriam distribuídas senhas para a sessão de autógrafos, uma massa de espectadores levantou-se e correu para a tenda onde ocorreria a sessão, proporcionando deprimentes cenas de furação de fila. Foi o momento baixo da Flip, pelo menos entre os que eu vi.

 

5- GAY TALESE

Talese é um dos papas do jornalismo norte-americanos -e, por que não, mundial. Sua palestra foi muito esperada. Com moderação do jornalista Mario Sérgio Conti, o que se viu foi um pequeno espetáculo de verborragia desenfreada. Por parte tanto de Talese quanto de Conti.

Para se ter uma idéia, foram feitas apenas três perguntas durante toda a palestra. Todas elas longas perguntas, demasiado longas, por sinal, às quais se seguiram ainda mais longas respostas. Sinceramente, não era preciso um moderador. Bastava colocar uma cadeira e falar: Talese, conta aí sua vida.

Talese falou sobre sua família, ítalo-americanos que, durante o dia, torciam pelos Estados Unidos na Segunda Guerra, mas que, durante a noite, acompanhavam com muito interesse os destinos da Itália durante o conflito. Essa história, disse Talese, ensinou-o que há sempre mais por trás do que as pessoas falam. Para ele, isso justificaria seu processo de manufatura de matérias, mundialmente famoso, que consiste em uma imersão radical no assunto a ser tratado.

Isso, por sinal, rendeu o melhor momento da pelstra. Conti, em mais uma longa pergunta, questionou Talese sobre a obra que ele está escrevendo, sobre sua vida com sua esposa, na qual aborda 50 anos de casamento, devidamente registrados em cartas guardadas desde sempre. Conti questionou a visão que o público teria dele e de sua esposa, pois há histórias de traição de ambos os lados, sendo que Talese frequentou, inclusive, casas de massagem e orgias para escrever seu famoso livro “A mulher do vizinho”, um retrato da vida sexual norte-americana na década de 1970.

Talese ficou visivelmente desconcertado. Ele, que destilou com extrema segurança uma metralhadora de palavras, tornou-se errante, hesitante, medindo meticulosamente cada frase. No final, fez a defesa desse seu método de imersão, dizendo, inclusive, que uma pessoa pode efetivamente se cansar de fazer orgias, como uma maneira não só de aliviar o peso de suas ações, mas de aliviar o peso que elas tinham para sua mulher.

Para um homem que durante toda a palestra fez questão de ressaltar suas raízes cristãs, foi interessante ver Talese se enrolando todo para justificar seu passeio com o diabo.

 

6- ANTONIO LOBO ANTUNES

Quando o mediador Humberto Wernek começou a palestra com uma longa e muito veneradora fala, pensei comigo: isso não vai bem. Quando, após a chatíssima introdução, Lobo Antunes começou, a pedidos de Wernek, a divagar sobre suas origens familiares, que remontam a um avó nascido no Brasil, aí pensei: putz, lá se vai pelo ralo a oportunidade de ver o que dizem ser um grande escritor indo pelo ralo. Besteira. No final, estavam todos maravilhados, inclusive a imensa massa -na qual me incluo- de pessoas que nunca leram uma palavra escrita por Lobo Antunes.

Reconhecidamente um autor hermético, Lobo Antunes apresentou-se um homem de fala mansa, controlada, destilando grandes gotas de inteligência e ironia, um exímio contador de histórias, admirador de obscuros poetas brasileiros do século XIX.

Fez troça de seu alvorecer literário, quando, na tenra idade, seu avó millitar o chamou e perguntou: “Ouvi falar que fazes versos. Mas você é veado”? Daí em diante, Lobo Antunes empilhou uma grande frase atrás da outra, uma grande observação atrás da outra.

Falou sobre o fazer literário, discorreu -sem nenhuma modéstia- sobre as ambições que deve ter qualquer escritor, contou o problemático início de carreira, quando não encontrava ninguém disposto a publicá-lo. Esses foram, resumidamente, os pontos-chave de sua palestra. Mas que domínio da palavra!

O público percebeu que ali não estava um simples homem. Foi aplaudido de pé por uma legião de novos fâs, que logo correram à livraria para comprar uma obra sua. Apenas alguns sortudos, no entanto, conseguiram seu autógrafo. Eu sou um deles. Agora só me resta lê-lo. Hehehe.

 

No balanço final, a Flip foi muita boa. Em comparação com a edição anterior que eu fui, em 2007, houve, a meu ver, um excesso de gente menos interessada em literatura, e mais interessada no alcance midiático do evento. Não sei se esse é um caminho muito seguro pelo qual deva ir a Flip. Não defendo com isso um elitização do evento, mas sim a preservação deste, para que fique mais no literário e menos no festival. Até porque, Paraty é uma cidade linda, fantasticamente aconchegante, mas não sei até que ponto ela aguenta uma invasão de tal proporção nas suas terrivelmente desconfortáveis e charmosas ruas de pedras.

O passado

Junho 23, 2009 by fredericokling

Pode-se dizer que “O passado”, do argentino Alan Pauls, é a anatomia de um amor morto, mas não enterrado. Com uma escrita profundamente incisiva, quase barroca, Pauls narra o fim do relacionamento de doze anos entre Rímini e Sofía e o que se segue a essa pequena catástrofe pessoal.

Quando o casal perfeito se dissolve, a surpresa é geral. Sejam os amigos, os parentes ou mesmo a mentora intelectual de Sofía. Ninguém podia acreditar que aquele relacionamento pudesse um dia acabar. Mais ainda, ninguém poderia suspeitar que aquele fim era uma escolha racional, tomada por uma mulher extremamente forte e por um homem incrivelmente fraco. Se Rímini acha que o fim é uma forma de liberdade, ele só sai da relação para viver um longo e delirante período sob a sombra dessa morta, que parece sempre voltar para atormentá-lo.

Pauls manipula com excelência as idas e vindas do tempo, escreve com uma riqueza de detalhes impressionante os descaminhos percorridos por Rímini -o foco é no homem apesar da presença quase massacrante das mulheres- e nos faz sentir um misto de pena e ódio desse personagem tão fraco e tão dependente do outro.

Logo após o término, Rímini entrega-se a uma torrente delirante de trabalho, uso de cocaína e masturbação. Parece ter atingido a tão sonhada liberdade quando começa a se relacionar com Vera, uma jovem extremamente impulsiva, capaz de falar as maiores barbaridades por ciúmes e eternamente dilacerada pela presença ausente de Sofía. Eternamente porque ela terá um fim trágico antes que Sofia desapareça.

Depois há Carmem, a companheira de profissão, aquela que o acompanha na dramática perda da capacidade de traduzir, ofício que exercia tão bem. Carmem lhe dá um filho, mas nem assim Rímini consegue se livrar de Sofía, cuja presença, mais uma vez, levará ao fim da relação.

Pauls narra assim um espiral que vai do término do relacionamento com Sofía até uma espécie de entrega final de Rímini frente àquela presença sufocante. No meio do caminho, a vida de uma pequena constelação de mulheres maravilhosamente descritas vai sendo mudada por esse casal que não existe mais, tudo pontuado pelas tumultuosas e surpreendentes aparições de Sofía, como um fantasma a atormentar Rímini. A escrita de Pauls é verdadeiramente impressionante e, ainda que nos assustemos com as 478 páginas da edição da Cosac & Naify, é com grande prazer e intensidade que se mergulha nelas.

Há, inclusive, uma espécie de novela dentro do romance, um capítulo que narra a trajetória de uma obra do artista Jeremy Riltse, praticante de uma arte plástica baseada na automultilação e que tem importância crucial na memória afetiva de Rímini e Sofía. Na verdade, tal capítulo poderia ser perfeitamente suprimido, mas serve como uma espécie de exercício virtuosístico. Incrível.

O único ponto que me incomodou -e incomoda- é que, apesar do estilo barrocamente detalhado, no qual os menores lances adquirem crucial importância, um fato tão importante tenha sido deixado para ser revelado apenas na porção final do livro. É impossível não ser tomado de estranheza ao ver o autor sacar tão inusitadamente uma parcela do passado de Rímini para dar continuidade à história e levá-lo ao quarto relacionamento sexual -não amoroso- do livro, com a insatisfeita e casada Nancy. Leiam e confiram.

De qualquer forma, apesar do inusitado dessa situação, a obra é uma composição impressionante de um escritor que demonstra pleno domínio de seu estilo e total controle sobre os descaminhos que traçou para Rímini, levando o personagem a um verdadeiro “tour de force” que não exatamente o leva ao autoconhecimento que tais processos costumam alcançar.

OS FALSÁRIOS

Junho 10, 2009 by fredericokling

 

Há tantos filmes de holocausto que se pode dizer que tal tema tornou-se quase um gênero em si. Talvez porque esse evento tão traumático seja tanto um testemunho sobre a maldade humana quanto um repositório de pequenas histórias maravilhosas em meio ao mais profundo horror. “Os falsários”, de Stefan Ruzowitzky está no segundo tipo, narrando a passagem de Salomon Sorowitsch pelo campo de concentração.

Salomon não é um prisioneiro qualquer. Ainda que judeu, ele foi preso antes de posta em funcionamento a máquina da morte nazista. Salomon era um famoso falsificador de dinheiro -o maior, diziam alguns- e vivia uma vida de excessos antes de ser preso na Berlim pré-guerra. Com o tempo, acaba tendo o destino de todo judeu que estivesse em mãos de nazistas, o campo de concentração. É da vida miserável de um campo que Salomon vai ser retirado para executar uma serviço inusitado -falsificar moedas dos países aliados. Para isso, ele é alojado em uma ala, digamos, mais benevolente do campo, onde os outros judeus participantes do processo de falsificação gozam de privilégios tais quais banhos, comida e música.

O chefe do campo, o homem que pescou Salomon do horror e o colocou no “paraíso”, é o mesmo que o prendeu anos antes. Por isso, ele sabe sobre o talento de Salomon, e logo o cerca de regalias maiores do que as dos outros. A partir daí, o filme desenvolve-se basicamente em duas linhas -as relações entres os judeus “privilegiados” e os sentimentos desses em relação aos judeus que estão fora da área isolada onde trabalham, e que estão sujeitos aos piores horrores que o nazismo poderia proporcionar -e que só aparecem, dramaticamente, uma vez.

Surgem os mais diversos personagens. Temos o idealista que considera uma traição trabalhar para os nazistas e que clama por uma revolta; há o comandante judeu da operação; o jovem artista por quem Salomon desenvolve afeição; o banqueiro que hesita trabalhar com Salomon por esse ser criminoso comum; o médico. Mas é Salomon o personagem mais instigante. A interpretação de Karl Markivics nos entrega um homem desconfiado, de poucas palavras, de olhar arguto e observador. Salomon parece estar sempre indiferente ao destino dos seus colegas, mas ainda assim é capaz de pílulas insuspeitas de companheirismo. Por um lado, é um individualista convicto, preocupando-se apenas em sobreviver; por outro, é capaz de pequenos heroísmos. Enfim, um homem contraditório, nada maniqueísta.

Na verdade, maniqueísmo é o grande ausente do filme, uma qualidade em se tratando do tema do holocausto, no qual é tão fácil apontar monstros e inocentes. Nem os judeus falsários são todos santos, nem o nazista que comanda a operação é todo monstro, ainda que haja um nazista que é a encarnação do diabo. O fato de a história se focar em judeus em condições especiais, sendo homens nutridos, levando uma vida quase normal, já mostra o tratamento diferenciado que a película dá ao tema.

O filme começa com Salomon hospedando-se no cassino de Monte Carlo. Depois desenvolve-se o longo flashback que conta a sua história. O fim é no mesmo cassino. Um fim belíssimo e surpreendente, diga-se de passagem. Assim, esse não é apenas mais um filme de holocausto, mas sim é uma grande e emocionante narrativa sobre homens apanhados pela máquina aniquiladora da história. Talvez isso justifique o Oscar de produção estrangeira que o filme levou em 2008, ainda que se possa desconfiar do gosto dos velhinhos de Hollywood, que adoram uma boa história de holocausto.

Anatomia da ficção

Abril 14, 2009 by fredericokling

agualusa

O Brasil tem aberto relativo espaço à literatura africana de língua portuguesa. O moçambicano Mia Couto é, por enquanto, a face mais reconhecida dessa onda -ou marola. Talvez por sua escrita um tanto etérea e inventiva em termos de linguagem, que nos remete de imediato a Guimarães Rosa, influência assumida de Couto. Seu amigo angolano José Eduardo Agualusa, por outro lado, situa-se em um registro menos inventivo em termos de linguagem, mas não menos interessante enquanto história contada.

Em seu romance “As mulheres de meu pai”, Agualusa conta a busca de Laurentina, filha de imigrantes angolanos, por suas raízes, já que, no leito de morte, sua mãe revelou que ela era adotada. Nessa volta à África, Laurentina leva junto Mandume, seu namorado, também descendente de africanos, mas que rejeita essa influência adotando postura profundamente portuguesa e ocidental. Quando chegam ao continente africano, juntam-se a eles o sobrinho de Laurentina, Bartolomeu, e um misterioso motorista, Pouca Sorte. Juntos, esses quatro personagens saem em busca da história do pai de Laurenita, Faustino Manso, músico angolano famosos, amante das mulheres e que percorreu toda a Àfrica Austral, deixando uma constelação de rebentos pelo caminho.

A grande diferença entre a escrita de Couto e Agualusa é que o angolano mostra uma Àfrica mais urbana. Por suas, palavras visitamos grandes cidades africanas, com suas misérias e seus eventuais luxos, ainda que não estejam excluídas certas mágicas passagens por lugares um tanto quanto misteriosos. Outra coisa interessante da obra de Agualusa é sua constante referência ao cenário cultural da parte sul do continente, colocando, inclusive, o próprio Mia Couto e sua esposa no relato.

A grande sacada do livro, no entanto, é alternar relatos ficcionais com pedaços de uma espécia de diário de Agualusa em uma viagem pela Àfrica Austral. Aos poucos, sabemos que Agualusa fez a viagem, junto com a documentarista inglesa Karen Boswall e o fotógrafo holandês Jordi Burch, buscando as locações para um projeto de filme que os dois primeiros tinham em mente. Ao relatar, em pequenos enxertos em formas de diário, passagens desse processo, Agualusa põe a nu o próprio processo de escrita. As coisas vistas aqui, logo se tornam matéria para ficção mais adiante. Mais ainda, por vezes a realidade mostra-se mais exuberante e misteriosa do que a ficção, lembrando-nos que a vida ainda pode ter sua parcela de mistério e magia.

O livro desenvolve-se, em sua porção ficcional, em um habilidoso mosáico de relatos. Cada personagem narra uma parte, um capítulo, e a obra é composta de pequenos e muitos desses capítulos. Aos poucos vamos vendo a busca de raízes -intencional para Laurentina, ocasional para Mandume-, o triângulo sensual que se forma entre esses dois e Bartolomeu, o desvendamento passo a passo do mistério de Pouca Sorte.

Ao fim, desse grande cenário surgem grandes questões, como a òbvia sobre identidade, a oposição entre Europa e Àfrica, a modernização por vezes perniciosa do continente. É um livro que atravessamos com um pé no maravilhoso e outro na putreda realidade.

Agualusa merece mais espaço entre nós.

Quem quer ser manipulado?

Março 24, 2009 by fredericokling

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Danny Boyle um dia pareceu ser o futuro do cinema. Fez os ótimos “Cova Rasa” e “Trainspotting”, mas depois nunca mais acertou a mão, derrapando feio muitas vezes, acertando quase lá em outras. “Quem quer ser milionário?” pode ser o retorno de Boyle enquanto aposta de bilheteria, mas não é de longe o seu renascimento artístico, conforme dizem alguns.

A premissa é bem interessante. Baseado em um livro de Vikas Swarup, a película conta a história de um rapaz que participa de um popular jogo televisivo de perguntas e respostas. Surpreendentemente, ele vai ultrapassando cada uma das fases, respondendo a perguntas cada vez mais difíceis, burlando mesmo a rasteira do apresentador, até chegar à pergunta final. Só que o jovem é um pobretão, sem escolaridade. Logo, pipocam suspeitas de fraudes.

Na verdade, cada uma das respostas o jovem tinha por causa de fatos ocorridos em sua atribulada vida. Desde as favelas sujíssimas da então Bombaim, passando pelas maravilhas turísticas do Taj Mahal, desembocando finalmente no punjante crescimento da agora Mumbai, Jamal está sempre acompanhado do irmão mais velho -e um pouco mal caráter- Salim. Quando entra na vida deles a menina Latika, Jamal imediatamente se afeiçoa e, por fim, se apaixona por ela. Mas o destino não está a favor deles. E esse é o problema.

Sim, porque, de alguma forma, o destino torna-se o grande tema do filme. Apesar de sobreviver a tantas desventuras, o que conspira para reunir Jamal e Latika, ao mesmo tempo em que leva à redenção de Salim, é o tal do destino. Isso retira parte da força da obra.

A fim de justificar o tal destino, o que se vê é uma sucessão de coincidências que vão partindo do sinceramente dramático até desembocar no manipulavelmente acaso. O roteiro acaba tornando-se mecânico demais nessa sua ânsia de justificar as respostas de Jamal, nessa sua urgência em reunir o jovem a sua antiga paixão.

Celebrado como o encontro inicial entre Hollywwod e a extremamente produtiva Bollywood, o filme até consegue fugir do pastiche de clichês tipicamente indianos. O ponto alto, por sua vez, é o elenco, sobre o qual há unanimidade total. As crianças, todas das favelas de Mumbai -algo que nos remete de cara aos atores não profissionais tão em voga no cinema nacional-, são simplesmente cativantes, assim como o elenco do tempo presente, com destaque para a beleza estonteante de Freida Pinto, que interpreta a Latika jovem.

O filme é bom entretenimento. E nada mais. Não merece a chuva de Oscars que levou, principalmente em um ano com filmes tão mais honestos.

Um passado para Antonio

Março 18, 2009 by fredericokling

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“Antonio” é o terceiro livro de Beatriz Bracher, uma das fundadoras da editora 34. Nele, o personagem Benjamim -às voltas com o nascimento de seu primeiro filho, Antonio- busca conhecer uma parte obscura do seu passado. Assim, a obra é uma reconstrução da memória por meio dos relatos de três personagens -a avó, Isabel; Haroldo, amigo de seu avô; Raul, amigo de seu pai-, que contam, de maneira alternada, as histórias de uma família assombrada por um grande segredo e por relações complicadas.

A história surge, portanto, em pedaços, impedindo-nos de saber a realidade inteira, apenas abrindo espaço para a realidade que cada relatante conta, de acordo com suas lembranças e julgamentos dos fatos, expostas de modo direto, como se fôssemos nós mesmos esse Benjamin a descobrir o passado. O recurso narrativo é o grande destaque do livro, mas, também, sua grande falha.

Rodrigo Lacerda escreve na orelha da obra que a escritora “consegue um ótimo resultado. Ela evita diferenças esquemáticas e traços de fala óbvios demais em cada um de seus personagens”. Pois bem, a diferença de tons e temas é que acaba por enfraquecer o esforço narrativo da obra. Seria possível trabalhar-se com diferentes narradores que utilizam diferentes vozes e diferentes temas para falar sobre um mesmo assunto, sobre pontos de vista diversos. Para usar o exemplo mais agudo de todos, William Faulkner abrilhantou esse recurso com seu “O som e a fúria”, mas nem seria preciso ir tão longe: Milton Hatoum foi igualmente feliz no uso desse recurso em “Relatos de um certo oriente”.

No livro de Beatriz, no entanto, todos os narradores falam igual. As diferenças vêm apenas dos julgamentos que cada um deles faz sobre o mesmo assunto. Mas aquela uniformização da voz acaba por tirar parte da lustrosidade trazida pela diferenciação narrativa. Assim, reconhece-se quem fala não por sua voz, mas por aquilo que fala. A experiência parece incompleta.

A obra, que ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti e em segundo no Portugal Telecom, justifica o interesse levantado pela forma como aborda o tema da memória e das relações familiares, usando um relato fragmentado e direto, falando diretamente ao leitor, tornando-o parte de um experiência quase exasperante. O uso de um certo paralelismo entre a história do pai e do avó de Benjamin apenas acrescentam maior interesse ao escrito. Mas, ao final, parece que o projeto estético do livro ficou incompleto, não alcançando sucesso total. Talvez por isso não ter sido primeiro nos citados prêmios. Quem sabe…

A agonia de Kym.

Março 3, 2009 by fredericokling

rachel

Na década de 1990, Jonathan Demme fez um grande filme que dissecava as entranhas psicológicas dos Estados Unidos. Sim, porque “O silêncio dos inocentes” vai muito além do mero thriller de serial killers, abordando uma América machista, insegura e conservadora. Depois, Demme parece ter perdido a mão -e a relevância na sétima arte. Agora, com “O casamento de Rachel”, o cineasta parece mostrar que ainda tem cartas na manga. 

O filme centra-se na história de Kym, que sai de uma clínica de recuperação diretamente para o centro do turbilhão que é o casamento de sua irmã, Rachel. A casa de seu pai, onde acontecerá a cerimônia, está lotada, a música é constante, há sempre gente falando e indo para todos os lados, e Rachel parece não se encaixar muito bem nauqilo tudo. 

Isso acontece por que há um grande elefante branco no meio da sala da família, sobre o qual poucos querem falar, ou mesmo lembrar, mas que ainda assim está presente, sendo percebido aqui e ali, com notas de muita emoção e rancor -Kym foi a responsável pela morte do irmão mais novo, em uma cidente de carro, enquanto dirigia drogada. 

Há sempre olhares para Kym, que variam entre o acusador, o de pena e o condescendente. Ela, por outro lado, quer passar despercebida, mas, ao memso tempo, chama a atenção, sempre que pode, para o drama que vive. É uma situação muito paradoxal: uma pessoa que não quer ser lembrada por sua tragédia, mas que, a todo momento, lembra a todos sobre o que aconteceu, em uma tentativa desenfreada de buscar uma normalidade. 

O roteiro de Jenny Lumet é brilhante. Não há concessões nem espaço para sentimentalismos. Tudo é tratado com muita crueza, e a verdade parece ser a tônica das palavras ditas por todos os personagens. Isso, associado à direção irriquieta de Demme, criam um clima intenso, no qual tudo parece sempre estar a um centímetro de despencar. Assiste-se ao filme com um constante sentimento de risco, uma quase torcida para que não aconteça o pior. 

O roteiro, por sinal, esscapa da solução fácil de ambientar a história em uma família conservadora, ou, no mínimo, tipicamente americana. Ao invés disso, vemos pessoas muito liberais e educadas, das mais diversas cores e opções sexuais, mas todas sempre com um julgamento nos olhos ou nas palavras. 

Em um filme tão denso, os atores cumprem papel fundamental. Assim, a mais grata surpresa é Anne Hathaway, que, de rostinho bonito em Hollywwod, tornou-se atriz incrível sob a batuta de Demme. Ela encarna Kym com a medida certa de desprendimento e rancor, sem excessos nem faltas. Perfeita. 

As outras interpretações também estão na medida. Rosemarie DeWitt dá o tom certo para uma Rachel que tenta dissimular o rancor pela morte do irmão, ao mesmo tempo em que esbanja a felicidade de uma noiva. Bill Irwin sai-se muito bem como o pai condescendente, que a todo o tempo tenta agradar e fiscalizar Kym, sempre à espera do pior, mas que, aqui e ali, deixa-se dominar pela tristeza. Por fim, Debra Winger está gélida no papel da mãe, dando show nos poucos minutos em que aparece. 

Demme faz uma bela autópsia de uma família em processo acelerado de desagregação, que tenta a todo custo esquecer as tragédias do passado, juntar seus cacos e seguir em frente. Ele é muito feliz no resultado, pois, apesar de “O casamento de Rachel” ser eminentemente um filme de palavra, não é pelo que diz que se destaca, mas sim pelo que não diz. 

Homem deitado

Novembro 19, 2008 by fredericokling

bolano

Faz mais ou menos dois anos desde que ouvi falar pela primeira vez de Roberto Bolaño. Os críticos tinham o chileno na conta de gênio. Fui conferir e li seu livro “Noturno do chile”. Não sei se ele é gênio, mas essa obra realmente é fora de série.

O texto é o longo relato de um padre, Sebastian Urrutia Lacroix, que está a beira da morte, eternamente prostrado em sua cama. A urgência do fim iminente faz com que o velho pároco faça um longo monólogo sobre toda a sua vida, desde a infância até o momento final.

Urrutia, além de padre, acaba entrando de cabeça na vida literária chilena pela mãos de Farewell, o maior crítico literário do país. É preciso dizer: Farewell é uma invenção. Isso porque o padre vai encontrar-se com diversas figuras verdadeiras do cenário cultural do Chile, inclusive com Pablo Neruda, retratado de maneira meio irônica.

Destaca-se o tom da narrativa. Às vezes vacilante, às vezes milimétricamente detalhada, Urrutia usa de artifícios como a irônia e ausência de emoção para contar fatos tão diversos quanto sua passagem pela Europa e o período em que deu aulas de marxismo para a Junta Militar que derrubou o socialista Salvador Allende.

Outra coisa que ressalta nesse relato é a postura passiva de Urrutia, que é incapaz de tomar posições políticas, preso, de certa forma, ao seu amado mudinho literário, mais do que à batina. A passagem em que relata as reuniões na casa de uma chilena, casada com um norte-americano, arrepiam os nervos quando sabemos que os porões daquela mansão guardavam um terrível segredo.

A narrativa é muito hábil, ainda mais quando se sabe que o livro é composto de apenas dois parágrafos, sendo que o primeiro vai da primeira até a última página do livro. Tal recurso só evidencia a urgência do monólogo.

Urrutia vai abrindo camadas e mais camadas de fatos, como se descascasse uma imensa cebola, descrevendo, mais do que analisando, aquilo pelo que passou. Mas o presente faz aparições esparsas durante a narrativa, na forma dos delírios do moribundo e de seus diálogos de surdo-mudo com um certo “jovem envelhecido”, que merece sua repulsa.

O final do livro é amargo e o segundo -e último- parágrafo, composto por apenas oito palavras, é simplesmente fabuloso, certeiro como uma faca afiada, antológico. Um fecho perfeito para um texto que parece neutro, mas que na verdade narra a decadência de um homem e de uma nação que se tinham em alta conta.

O princípio de tudo

Outubro 21, 2008 by fredericokling

Jorge Luis Borges é o mais injustiçado escritor do mundo. Reconhecido mundialmente, só os distintos membros da Academia Sueca lhe negaram o prêmio Nobel. Perde o prêmio, porque Borges é um fantástico escritor, talvez aquele que tenha levado o conto a suas experiências mais radicais. A Companhia das Letras está relançando suas obras completas, e é em nova edição que eu tive acesso a “Ficções”, o livro que colocou Borges no cenário literário mundial.

“Ficções”, lançado em 1944, na verdade é o apanhado de duas obras menores, “O jardim das veredas que se bifurcam” e “Articícios”. Ainda assim, há uma grande coesão temática entre os contos ali reunidos. Destacam-se, logo de início, temas que seriam caros ao resto da obra Borgiana, tais como a identidade, a biblioteca, a memória. O que se tem então é um apanhado de pequenos contos que se inserem no que de melhor a literatura mundial já produziu. Inclusive, logo de saída, Borges já constrói clássicos como “Pierre Menard, autor do quixote” -que discute a autoria literária-, “A biblioteca de Babel” -que usa metaforicamente a biblioteca como significando a vida-, “O jardim das veredas que se bifurcam” e muitos outros.

O que se percebe nessa obra é que Borges é um artífice. Nada em sua escrita é gratuíta. Na verdade, ele já mostra sua genialidade estilística em um conto metalinguístico -”O exame da obra de Herbert Quain”- que trata da produção literária de um escritor, toda ela baseada em surpreendentes jogos de espelhos, pelos quais se avança e retrocede-se conforme as escolhas feitas durante a leitura. Assim é o escritor argentino, conciso, mas sempre parecendo jogar com os leitores um jogo onde tudo parece real, mas no qual reina o artifício.

Borges já tinha uma produção anterior, notadamente sua obra poética e livros escritos a duas mão com seu grande amigo Bioy Casares. “Ficções” situa a temática de toda a produção posterior do argentino e, por isso, serve de excelente porta de entrada para ainda não iniciados que, certamente, não vão se furtar a conhecer o resto deste castelo borgiano.

 

Gosto de maresia

Setembro 25, 2008 by fredericokling

O irlandês Jonh Banville ganhou o prestigioso “Man Booker Prize” em 2005. Se não fosse por isso, dificilmente eu leria um livro dele, afinal, nunca tinha ouvido falar do sujeito, ainda mais nesse oceano interminável de escritores e obras, no qual poucos se salvam. Mas ele ganhou e eu o li.

Li “O mar”, a obra que botou Banville no meu radar. E o livro realmente é uma pequena obra prima, digna de ganhar o prestígio internacional que ganhou (veja só, chegou mesmo a escavar um lugar na nossa indecente lista de mais vendidos, usualmente freqüentada por porcarias…).

Viajando no tempo entre passado distante, passado próximo e presente, vemos Max Morden narrar fatos de sua vida. Do passado distante, o período em que conviveu com casal de gêmeos Grace -a enigmática Chloe e o literalmente calado Myles-; do passado recente, o narrador nos descreve os momentos finais de sua falecida mulher e a convivência problemática com a filha; do presente, temos Max de volta à casa momentaneamente habitada pelos Grace naquele longínqüo verão, agora transformada em pousada e dirigida por Mrs. Vavasour.

Destaca-se no livro a narrativa de Banville, capaz de dar gosto ao escrito. As passagens à beira-mar, na qual Max primeiramente contempla a matriarca da família Grace, o alvo inicial de seu afeto, e aquelas nas quais está com os irmãos, conseguem realmente trazer-nos aquele gosto de sal e o cheiro de pele ao sol. Até a luminosidade, sempre muita branca, quase como uma névoa, Banville consegue nos passar. Outro triunfo narrativo é a crueza das palavras de Max, que consegue nos dizer as coisas mais doces e as mais terríveis sem julgamentos, ou sem pontas de raiva. Ele apenas fala, com uma sinceridade aguda. Assim é, por exemplo, quando ele fala à filha sobre o médico que uma dia o tocou nú, ou quando, de maneira para nós quase insuportável, descreve a mesma filha como feia e fracassada. É muita crueza, mas sem tornar o narrador cruel.

Ao longo do livro, ele descreve os detalhes do verão passado, a trasferência de seu afeto da mãe para a filha, o convívio complicado com Chloe -jovem impetuosa e manipuladora- e com Myles -o irmão mudo e de atitudes agudas- e como tudo isso veio a influir em sua vida.

Em outro registro, Max narra a descoberta da doença da esposa, a única personagem da obra a quem dirige um verdadeiro e doloroso afeto, a forma como se conheceram e viveram. Nesse mesmo passado recente há o encontro com a filha, para mim a melhor passagem do livro. Sem entrar em maiores detalhes, é um primor da descrição de tudo que existe de não-dito entre duas pessoas, entre dois seres que falharam de alguma forma no meio do caminho, e não se tornaram aquilo que deveriam ser. Arrisco dizer que essa passagem valeu o prêmio ao livro.

Finalmente, no presente Max narra a volta ao lar alugado pelos Grace, onde ele vai para sublimar o passado -o recente e o longínqüo- sob o pretexto de escrever uma obra sobre o pintor Bonnard. Ali, ele convive com Mrs. Vavasour (mrs. é a abreviação para senhorita em inglês, o que denota a solteirice da mulher, detalhe importante ao qual só atentei no final) e com um misterioso coronel, que habita o quarto em frente.

A obra é uma viagem memorialística, em busca do detalhes que às vezes perdemos no meio do caminho, mas que são importantes na definição daquilo que somos. Como já dito, a narrativa é primorosa, muitas vezes prendendo o leitor, e capaz de fazê-lo lembrar suas próprias praias passadas. O único porém é que o livro se resolve de forma meio apressada no final. Há revelações que são feitas e que nos eletrizam para descobrí-las, mas o fato de estarem todas muito próximas das outras acaba por tirar-lhes o sabor do impacto, o que de forma alguma diminui o prazer da leitura. É apenas um detalhe que me chamou a atenção, e que pode ser coisa de leitor ranzinza…Ainda assim, fecha-se “O mar” com a impressão de se ter lido algo belo, algo grande, algo que perdurará para além da lista de “best sellers”.