DIÁRIO DA QUEDA, DE MICHEL LAUB

Auschwitz, Alzheimer -inesquecível, esquecimento. Entre essas fronteiras é que se desenvolve o intenso e delicado “Diário da queda”, do escritor gaúcho Michel Laub, um livro capaz de colocar as histórias mais íntimas contra o fundo da História, com “H”, que aparece com todo seu peso, mas sem funcionar como como um instrumento narrativo determinista que explique toda e qualquer ação dos personagens.

A tal queda ocorre numa festa, na qual o narrador e seus colegas de uma escola judaica arremessam um outro estudante -que não é judeu- para cima, mas não o pegam quando ele cai para se estatelar no chão. Esta, no entanto, é apenas uma das quedas, a real, que desencadeiam um fluxo narrativo em primeira pessoa, no formato, claro, de um diário escrito em blocos de textos numerados.

Há outras quedas, mas simbólicas. A do avô do narrador, que sobrevive a Auschwitz, vem para o Brasil no Brasil e passa o resto da vida negando-se a falar sobre a experiência no campo de concentração. Mas não falar não significa não lembrar, e ele se lembra, supõe o narrador, o tempo todo sobre a experiência traumática já tão tratada em outras obras artísticas, notadamente em “É isto um homem?”, no qual Primo Levi também conta sua experiência num campo de concentração.

O livro de Levi, por sinal, reaparece o tempo todo durante “Diário da queda”, quase como uma espécie de apoio usado para que o narrador não precise ficar relembrando o tempo todo a profundidade do trauma do Holocausto. Mas não é apenas o livro que serve de apoio -Primo Levi também surge como um espelho do avô do narrador, homens que sobrevivem a umas das experiências mais horrorosas da humanidade apenas para tirarem sua vida décadas depois.

Outra queda é também a do pai do narrador, que, cedo, passou pelo trauma do suicídio do pai. Mais velho, vive uma relação algo fria com o filho, na qual se destaca um momento em que este renega o judaísmo e o peso do Holocausto, provocando uma reação extremada no pai, que, mais velho, será diagnosticado com Alzheimer.

O próprio narrador, por sua vez, passa por uma queda, uma crise, uma encruzilhada. Ao mesmo tempo em que se depara com a doença do pai, reflete sobre a vida do avô, e se confronta com um presente no qual parece estar num beco sem saída, perdido.

Assim, “Diário da queda” é um belo livro sobre este narrador que vasculha as vidas dos homens que lhe precederam na família como uma tentativa de entender a própria vida e, de alguma maneira, dar sentido e continuidade a ela.

A escrita em blocos, por sua vez, mostra-se uma eficiente ferramenta para manter o leitor preso ao texto. Por não ter a mesma obrigação de coerência de parágrafos que se seguem num texto corrido, a surpresa aparece como uma das marcas inconfundíveis da estratégia narrativa de Laub. Um bloco de ação é seguido por um de reflexão. Um bloco sobre o pai é sucedido por um sobre o avô. E, dessa maneira, o leitor acaba focando a atenção em um bloco ao mesmo tempo em que anseia pelo próximo.

Talvez por isso o livro perca sua força justamente em seus momentos finais, nos quais a surpresa vai sendo  substituída pela certeza de saber o que virá a seguir -um fim que acabamos antecipando antes de a ele chegarmos, um fim que tem lá seu caráter redentor e que amarra a experiência do pai, do filho e do neto em um porvir que banha a carga dramática do passado num rio de esperança -a queda não se completa. Mas vale ser acompanhada.

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