O REGRESSO, DE ALEJANDRO GONZÁLEZ IÑÁRRITU

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Poucas coisas são tão empolgantes quanto um épico bem realizado. Consequentemente, poucas coisas são tão enfadonhas quanto um épico fracassado. Sempre construídos com altas doses de pretensão, o bem realizado é um casamento perfeito entre forma e tema. O fracassado quase sempre é um triunfo formal sem matéria a preenchê-lo. “O regresso”, do mexicano Alejandro González Iñárritu é, infelizmente, um épico do último tipo.

O filme baseia-se em uma história incrível e real. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) faz parte de um grupo de vendedores de pele. Encurralados por uma tribo indígena que procura a filha sequestrada do chefe, acabam fugindo e deixando para trás sua valiosíssima carga. Em dado momento, Glass é atacado por um urso, que quase o mata. Como se não bastasse o perigo da perseguição dos indígenas, o grupo ainda tem de lidar com o quase falecido. Ele, então, é deixado aos cuidados de seu filho meio indígena Hawk (Forrest Googluck), do jovem Bridger (Will Pouter) e do ambicioso e rústico John Fiztgerald (Tom Hardy). Esse último decide matar Hawk, deixar Glass para morrer e buscar a recompensa oferecida pelo chefe do grupo, o capitão Andrew Henry (Domhall Gleeson) aos que se candidataram para cuidar de Glass -que consegue milagrosamente sobreviver.

O ataque quase mortal, por sinal, oferece uma espécie de paralelo com o resto do filme. O urso ataca Glass quando esse estava apontando suas armas para seus filhotes. Ao ter as crias ameaçadas, o urso -a natureza, ou a Natureza- reage para matar. Assim também é Glass, que tira suas forças da dor de ter tido seu filho assassinado por Fitzgerald. Ou não?

O grande problema do filme é esse: não conseguir fixar um tema. É sobre vingança? Um pouco. É sobre sobrevivência? Também. É sobre a vida em um Estados Unidos violentamente em formação? Sim. É sobre o massacre contra os indígenas em nome de um pretenso processo civilizatório? Em parte. É sobre a força descomunal da natureza? Em parte. Mas “O regresso”, no fim, não aborda com profundidade nenhuma dessas questões. Fica num limbo indefinido. Sabe apenas que quer ser um épico, mas sem saber um épico sobre o quê.

Se não define seu tema, “O regresso” é um espetáculo visual. A fotografia do também mexicano Emmanuel Lubezki é de cair o queixo. A maneira como ele contrapõe closes fechados dos personagens com imagens abertas da paisagem dão bem a dimensão do espaço natural em que a história se desenvolve. Mais ainda, ao posicionar muitas vezes a câmera numa altura abaixo da cintura dos personagens, Lubezki consegue ressaltar de uma só vez tanto a grandeza épica das figuras humanas quanto a grandeza quase opressiva da natureza.

Paradoxalmente, a beleza das imagens acaba perdendo o efeito justamente por ser tão utilizada. O primeiro grande plano da natureza enche os olhos. No centésimo primeiro já estamos anestesiados, parece apenas que assistimos a um comercial da National Geographic entre os momentos de ação do filme. É a falha em conectar natureza e história. Lubezki faz seu papel -é Iñárritu quem falha. Fica a impressão que parte do tempo gasto em impressionar nossos olhos poderia ter sido mais bem utilizado impressionando nossa mente.

Basta ver a rapidez com que o filme se resolve em seus trinta minutos finais, depois de assistirmos a um verdadeiro purgatório de Glass, praticamente um morto-vivo de tanto sofrimento -o que inclui até cair de um penhasco em cima de uma árvore. O que nos traz a questão que todos querem saber: e DiCaprio? Bem, seguindo o histórico do Oscar de premiar grandes nomes por seus filmes menores, ele deve levar.

DiCaprio basicamente grunhe, geme e cospe durante o filme inteiro. Muito pouco para se dizer se sua performance é de fato boa. É como se ele pegasse a cena de “O lobo de Wall Street” em que fica chumbado de drogas no country club, arrastando-se pelo chão e grunhindo, e estende-se a interpretação por mais de duas horas. Por outro lado, Tom Hardy mostra-se muito mais consistente no papel de um homem ignóbil, mas cujas intenções conseguimos compreender -pois é uma figura dura forjada em um tempo e espaço igualmente duros.

O resumo do fracasso de “O regresso” é que o filme falha em conectar a dimensão natural com a dimensão humana. Curiosamente, o mesmo fracasso que fez sucumbir outro épico caído -e igualmente premiado-: “A árvore da vida”, de Terrence Malick. Assemelham-se até mesmo nos monólogos murmurados. Duas obras que se igualam enquanto experiências estéticas, mas que não convencem enquanto conteúdo cinematográfico.

 

 

 

 

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