STAR WARS: O DESPERTAR DA FORÇA, DE J.J. ABRAMS

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É curioso o caso de J.J. Abrams. Considerado um dos mais inventivos criadores da televisão, sob sua batuta nasceram séries como “Alias” e “Lost”. No cinema, no entanto, mostra-se por vezes reverencial aos mestres do passado que pairam sobre ele. Foi assim com “Super 8”, que, produzido por Steven Spielberg, é uma espécie de divertido pastiche de vários filmes do diretor de “E.T.”. É assim com o novo “Star Wars”, uma franca releitura do primeiro filme da série criada por George Lucas. Se em ambos os casos o resultado é ótimo, fica a pergunta: o que virá depois para a Guerra nas Estrelas?

Mais do que se aventurar em uma das franquias mais rentáveis e amadas da história do cinema, Abrams também tinha de lidar com o fracasso retumbante de crítica -ainda que não de público- da segunda trilogia de “Star Wars”, que começou em 1999. O caminho escolhido foi o mais seguro: trabalhar com um espelho do primeiro filme da série. Mas aqui há algo mais, pitadas muito interessantes de humor, interpretações convincentes -um dos pontos mais baixos da segunda trilogia, encabeçada pelo horrível Hayden Christensen- e personagens que estimulam nossa empatia.

O novo filme se passa trinta anos depois do fim da primeira trilogia. O império foi derrotado, a República está viva, mas existe uma Primeira Ordem, comandada por um misterioso vilão. Das aventuras originais, restaram escombros de naves espalhadas por diversos lugares. E isso é uma das grandes sacadas do filme. Os restos do passado estão por todos os lados. O passado passou, mas não foi superado.

É nesse ambiente que Abrams apresenta sua primeira personagem, Rey (Daisy Ridley), uma jovem que vive sozinha num planeta igualmente desértico como aquele em que viveu Luke Skywalker, o Jedi da trilogia original que está sumido. Mas, ao contrário de Skywalker, criado pelos tios, Rey esta à espera de alguém que não sabemos quem é. É uma personagem que ao mesmo tempo exala uma força intensa e uma fragilidade tocante. E sempre que nos aproximamos dela por causa dessa fragilidade, ela nos mostra que não precisa de ninguém, que sempre se virou sozinha em um ambiente hostil.

O outro herói da série, Finn, também caminha entre a fragilidade e a força. É um soldado que deserda ao se defrontar com a brutalidade do lado ao qual serve. Não tem nome, nem sabe quem é. Ele, que sempre obedeceu, agora é livre para fazer o que quiser. E a união de Finn com Rey rende alguns momentos hilários, e outros, românticos. Mas quem são eles?

Trabalhar com atores desconhecidos sempre foi uma marca da franquia “Star Wars”. A opção, no entanto, é arriscada, pois muitas vezes os atores são…ruins. Mark Hamill (Luke Skywalker) e Carrie Fisher (Princesa Leia), por exemplo, nunca fizeram nada digno de nota depois de “Star Wars”. Hayden Christensen, para felicidade do cinema, sumiu. Apelar para os desconhecidos Daisy Ridley e John Boyega, no entanto, mostrou-se uma ótima opção. Desconhecidos, geram empatia no momento em que aparecem na tela. São convincentes, encantam os espectadores.

De certa forma, a escalação de Ridley e Boyega também ancora a nova trilogia num presente muito mais aberto a personagens femininas e afrodescendentes do que a época dos primeiros filmes. Basta lembrar que o único negro na primeira trilogia era o vilão -aqui, é um dos heróis. A escolha, por sinal, gerou os habituais chiados de cabeças de vento que não conseguem ver que os tempos mudaram.

Curiosamente, o mais bem sucedido ator da franquia, Harrison Ford, é também o que tem a aparição mais festejada na nova série. Quando Han Solo aparece na tela, Abrams faz a definitiva conexão entre o passado e o presente. É assim também quando o vilão Kylo Ren (Adam Driver, mais conhecido do que seus colegas de tela, mas menos convincente), filho de Solo e da Princesa Leia, aparece reverenciando o capacete destruído de Darth Vader, um dos vilões mais icônicos do cinema. O passado está sempre vivo.

Mas, assim como o destino do passado Han Solo, superado pelo vilão do presente, projeta um futuro desconhecido, também ficamos com a dúvida: poderá agora Abrams nos apresentar algo de fato original na nova trilogia depois de um primeiro e ótimo filme demasiado reverencial ao passado? Só resta esperar e apostar na inventividade já demonstrada pelo produtor, diretor e escritor.

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