O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS, DE LEONARDO PADURA

Existem pessoas que fazem a História. Existem pessoas que interferem na História. Existem pessoas que sofrem os efeitos da História. E existem aqueles que escrevem a história da História. Trotsky, Rámon Mercader, Iván. Todos ganhando cores vivas nas mãos do escritor cubano Leonardo Padura, que navega magistralmente por tempos e nomes para produzir em “O homem que amava os cachorros” mais do que um romance histórico -um balanço do caminho que o comunismo soviético trilhou da efervescência ideológica à ressaca autoritária.

O romance se desdobra entre as décadas de 1930, de 1970 e 1990. No primeiro tempo, acompanhamos um Trotsky exilado, sempre fugindo das ameaças de seu arquirrival Stálin, defendendo-se das acusações de traição enquanto tenta ao mesmo tempo questionar e justificar suas próprias ações durante seus tempos de herói revolucionário e chamar a atenção para o mergulho autoritário da experiência comunista.

É na década de 1930 também que vemos Rámon Mercader, combatente comunista republicano que combate as forças franquistas, ao mesmo tempo em que tenta fugir da e é ao mesmo tempo atraído pela força de sua mãe, de quem herdou o penhor revolucionário.

Rámon é o homem que será convocado para dar um fim a Trotsky, o espantalho ideológico que Stálin sacode para eliminar qualquer tipo de dissidência interna. Mas Rámon será muitos outros antes de chegar ao antigo e exilado revolucionário. E é da construção paralela de Rámon enquanto agente soviético e de Trotsky enquanto exilado cada vez mais isolado e peregrinando mundo afora que se faz essa década de 1930.

Já em 1970 temos Iván, uma promessa da literatura que foi esmagado pela máquina burocrática cubana, que conhece, numa praia, um estranho e doente homem que lhe conta uma história apagada para Cuba: a de que um dia houve um dissidente comunista, Trotsky, que foi assassinado a mando de Stálin. É apenas na década de 1990, já numa Cuba em estado de miséria sem a ajuda financeira da extinta União Soviética, que Iván irá conseguir ligar todos os pontos da história que ouviu décadas antes.

E temos Padura, o escritor cubano, que vive em Cuba e que consegue escrever, dentro do regime, um livro francamente crítico aos rumos que o regime cubano tomou -sua falta de transparência, o autoritarismo de sua burocracia, a pauperização que iguala a todos na miséria.

Por todo o lado, o livro transparece uma pesquisa histórica profunda por parte de Padura, que consegue dar vida a alguns dos grandes embates ideológicos que dominaram a esquerda durante o século XX. Paradoxalmente, o autor se sai melhor quando fala do tempo longe do que quando fala da época mais próxima. Ali, as descrições são vívidas, permeadas da realidade dos julgamentos forjados do regime comunista e das movimentações pré-Segunda Guerra Mundial. Em comparação, suas descrições das décadas de 1970 e 1990 são bem menos vibrantes.

Talvez uma explicação para isso esteja nos grandes ausentes do livro: Fidel, Che Guevara e todos aqueles que fizeram a um dia heroica Revolução Cubana que depois se deteriorou no mesmo autoritarismo da um dia heroica Revolução Russa. Se lá temos os nomes e as movimentações de xadrez de diversos personagens da história, aqui, há apenas uma espécie de fantasma autoritário, inominado, o que provavelmente é apenas uma concessão de um escritor capaz de produzir crítica ao regime de dentro do próprio regime.

Sim, porque apesar de tudo, o livro se encerra com uma crítica brutal e melancólico do ponto de chegada da revolução que um dia prometeu liberar as pessoas do julgo da opressão econômica. Curiosamente, no fim, é justamente o ramo da história distante que perde sua cor, num longo capítulo demasiado didático. Concomitantemente, o tempo próximo é que ganha as cores vivas de um lamento profundo por todo o potencial revolucionário desperdiçado em uma experiência que se tornou apenas autoritária.

“O homem que amava os cachorros” é, assim, um livro verdadeiramente impressionante ao combinar ficção com realidade, ideologia com crítica. E, se a forma não tem nada de revolucionaria, é uma obra eletrizante que nos faz esquecer seu peso físico ao nos mergulhar no peso da História.

 

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