WHAT HAPPENED, MISS SIMONE, DE LIZ GARBUS

Nina Simone atingiu a aclamação de público e crítica com sua música que transitava pelo blues, jazz e R&B. Conquistou fama e fortuna. Apesar de tudo o que conseguiu, o peso do lamento sobre o que nunca foi -a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos- sempre esteve presente, ainda mais pela barreira que a impediu de realizar seu sonho: o racismo. É das consequências do paradoxo embebido no racismo de uma mulher que conquistou um sucesso que não buscava ao mesmo tempo em que não foi o que desejava que Liz Garbus tira toda a força de seu documentário “What happened, Miss Simone”.

Nina Simone emerge do filme como uma verdadeira força da natureza, em tudo o que isso tem de bom e de ruim. Ao mesmo tempo em que faz as estações do ano com seus dedos passeando pelo piano e com sua voz marcante, é também o vulcão sempre prestes a explodir, o que fez contra a própria filha, por sinal, em quem chegou a bater. Impressiona sabermos da violência contra a filha, pois Nina Simone foi ela mesma vítima da violência de seu marido e agente.

Daí a coragem do filme em abandonar qualquer resquício de uma abordagem meramente celebratória para adotar o caminho mais espinhoso de revelar sua personagem em todas as suas contradições, doçuras e violências. Por isso, surpreende ver que a filha de Nina é produtora-executiva do filme, e ainda assim não deixou de tratar todos os assuntos que precisavam ser tratados.

Assim, vemos a própria Nina Simone, logo no começo do filme, contando seu sonho de se tornar a primeira pianista negra dos Estados Unidos. Ela chegou a frequentar escolas muito prestigiadas de música, mas teve sua ascensão barrada pela recusa de uma bolsa de estudos. Ela conta que apenas depois percebeu que foi o racismo que lhe negou a continuação do caminho. Com todas as esperanças da família depositadas nela, só lhe restou começar a tocar piano e a cantar em pequenos clubes de Nova Iorque.

Logo começou a chamar a atenção pelo domínio técnico e pela voz única. Conheceu então o homem que se tornaria seu marido e agente, e que a colocou para gravar e se apresentar sem parar. Ela era uma estrela pop em franca ascensão, num momento em que várias outras estrelas negras começavam a ganhar espaços maiores no show business norte-americano. Mas também eram os anos 1960, época de fortalecimento do movimento pelos direitos civis dos negros, e que tinham em Martin Luther King e em Malcolm X suas faces respectivamente pacificadora e de enfrentamento. E Nina, assombrada pelo fantasma do racismo passado e presente, começou a flertar com a política.

Na medida em que se embrenhava mais no movimento pelos direitos civis, mais política também se tornava sua música -um desvio no caminho de musa pop que seu marido traçara. E ele logo começou a demonstrar sua frustração surrando a mulher, que, ainda assim, permanecia com ele. Ao mesmo tempo, Nina ia enveredando para as vertentes mais combativas do movimento, pregando o conflito aberto com os brancos -mesmo que um de seus amigos mais próximos fosse um guitarrista branco que estava com ela desde o princípio da carreira.

O filme consegue passar com perfeição a mudança pela qual Nina vai passando. Sorridente no princípio, vai se tornando cada vez mais carrancuda. O ápice é um show no qual ela para de tocar para passar um pito em uma pessoa da plateia.

Talvez a parte mais contestável é aquela que amarra toda a complexidade da personalidade de Nina Simone sob o diagnóstico de bipolaridade, ainda mais considerando uma sociedade tão apaixonada pela medicalização quanto a norte-americana. Não seria Nina Simone apenas a vítima daquele paradoxo inicial, que recorrentemente volta no documentário pela voz da própria Nina: ser quem era ao mesmo tempo em que lamentava não ter sido o que queria? Viver de música ao mesmo tempo em que lhe doía tanto tocá-la?

No fim, “What happened, Miss Simone” consegue atingir um objetivo que não sei dizer se existia em sua concepção. O filme simplesmente faz com que jamais alguém consiga ouvir novamente uma música de Nina Simone sem pensar na vida dela, no que o documentário mostrou, na complexidade de sua personalidade. E isso é um sinal inequívoco de sucesso.

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