NOSTALGIA DA LUZ, DE PATRICIO GUZMÁN

O deserto do Atacama, no Chile, é um portal para o passado, que alguns buscam olhando para cima, e outros, para baixo. Aqueles observam as luzes das estrelas com os mais potentes telescópios que existem, atrás de respostas para a origem da humanidade; estes usam pequenas pás para escavar a areia, atrás de restos dos corpos de seus parentes assassinados por uma desumana ditadura. É entre ambos que se desenvolve “Nostalgia da luz”, o lindo documentário do chileno Patrício Guzmán que consegue tratar ao mesmo tempo daquilo que temos de mais maravilhoso e de mais monstruoso.

Tudo é passado, diz um astrônomo, pois mesmo a luz dos objetos mais próximos chega com algum atraso a nossos olhos. Olhar para o espaço é, portanto, olhar para o passado, mas sempre buscando respostas para algumas das perguntas mais fundamentais da humanidade. E o deserto do Atacama é um local privilegiado para se olhar para cima. Seu clima seco -o mais seco do mundo- permite uma visibilidade quase perfeita do céu. Por isso, ali foram construídos os mais potentes telescópios que existem.

Mas não é apenas para um passado absurdamente remoto que o Atacama se abre. Seu clima seco também impede a decomposição de materiais orgânicos, e o deserto, rota de travessia de povos pré-colombianos, ainda guarda os vestígios desses antiquíssimos viajantes, bem como preservou mumificados os corpos daqueles que ali pereceram. Memória resguardada.

Porém, quanto mais próximo, mais o passado se turva no deserto. No século XIX, ali se instalou a rica indústria do salitre, que empregava -e massacrava- seus trabalhadores, uma história que os chilenos preferem não lembrar. No mesmo lugar que servia de alojamento a esses trabalhadores -quase escravos- do passado, bastou à ditadura de Augusto Pinochet passar arame farpado para criar um campo de concentração aos pés da montanha onde está um telescópio. Este, um passado que os chilenos preferem enterrar literalmente -no deserto, foram enterrados os corpos de dissidentes políticos mortos e, depois, foram removidos e levados para um lugar desconhecido. Mas restaram fragmentos, ossos, que seus familiares hoje procuram, escavando o imenso deserto com pequenas pás.

Para contar a história sobre todos esses passados que se revelam e se escondem, Guzmán conta apenas com um punhado de muito bem selecionados personagens, imagens de tirar o fôlego e uma narrativa que se sobressai pelo tom sóbrio e, principalmente, pela força de suas palavras.

Ainda que olhem para o céu, os astrônomos não estão alheios ao que se passa no chão. Assim, um dos personagens, lá para o meio do filme, trata de afastar a fácil aproximação entre quem mira as estrelas e quem mira o chão. Para aqueles, diz o cientista, um dia sem descobrir algo sobre o passado não tem peso nenhum, ao contrário do que acontece com as mulheres -e são todas mulheres as pessoas que escavam há anos o deserto- que buscam os rastros de seus familiares.

Da mesma maneira, também é diferente como cada mulher vive sua busca. Uma delas, por exemplo, consegue encontrar parte do crânio e um pé ainda calçado de seu irmão. É comovente ouvi-la falar como passou toda uma manhã com as mãos naquele pé calçado, decepado, único vestígio de um ente que se foi, e como esse processo foi uma espécie de reencontro com o irmão. Já outra das mulheres não se contenta com os poucos restos que encontrou de seu marido. Para ela, não importam pedaços: ela o quer inteiro, como o levaram. A dor é diferente para cada uma delas.

Ainda que passada, a violência da ditadura continua a ter seus efeitos no presente, como bem mostram a história de dois jovens astrônomos. Ele, filho de pais exilados, cresceu em outro país e sente-se num limbo, nem chileno, nem estrangeiro, apesar de trabalhar pela ciência chilena. Ela, filha de pais desaparecidos e criada pelos avós, parece reconciliada com a memória de seus pais e consciente do peso da história sobre sua vida.

Céu e deserto, por sua vez, tornam muito fácil criar imagens de grande beleza. Guzmán, no entanto, não se contenta em ser um fotógrafo da beleza fácil -ele efetivamente conta uma história com o que filma. Nada é gratuito e somente belo. É, sim, lindo observar um punhado de mulheres escavando a terra contra a luz do sol. Mais do que bela, no entanto, a imagem é profundamente triste pela imensidão que revela comparada com a pequenez e fragilidade que é a vida humana. Há filosofia aqui, o que nos leva à narrativa.

O maior risco em uma obra com a ambição de “Nostalgia da luz” é escorregar na pretensão e cair na filosofia barata, rasa ou propagandística. Há um narrador em off, e sua maneira de falar é pausada, monocórdica, quase burocrática. Se o efeito pode resultar sonolento, aqui, pelo contrário, só faz ressaltar a beleza poética das palavras faladas. Ao despir a voz de emoções, Guzmán deixa que apenas o texto fale, e isso só pode ser feito com um material de extrema qualidade, que, sem dúvida nenhuma, esbarra em momentos de grande literatura, como na parte final do documentário.

A grande e paradoxal força de “Nostalgia da luz”, no fim, é que o filme se constrói em cima de uma contenção extrema das emoções em suas diferentes formas de expressão, que, no entanto, quando reunidas, transformam-se em algo muito maior do que um mero documentário: é uma experiência emocional.

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