NA PRAIA, DE IAN McEWAN

“Eles eram jovens, educados e ambos virgens nisso, sua noite de núpcias, e eles viviam em um tempo em que uma conversa sobre dificuldades sexuais era praticamente impossível.” Com essa oração exata e afiada começa “Na praia”, com o qual o britânico Ian McEwan me desvirginou. Tenho em casa aquele que é considerado seu grande livro, “Reparação”, mas decidi começar com esse, bem menor em termos de páginas, até porque eu sempre lia o começo e ficava bem curioso sobre o que viria a seguir. E o que vem a seguir é a história de Florence e Edward, sua noite de núpcias, os caminhos que os levaram até ali e os caminhos que seguirão dali em diante.

A estrutura do livro é basicamente o detalhamento profundo dessa noite, incluindo os pensamentos de ambos. Ela, uma mulher que tem verdadeira ojeriza ao sexo, apesar de nunca tê-lo praticado; ele, um rapaz ansioso por sexo, apesar da insegurança de ter fracassado em uma primeira tentativa. A isso, McEwan vai colando cenas do passado de ambos, de forma que vamos, aos poucos, construindo os personagens. Ela, tão frágil, surge como uma violinista de talento, membro de um grupo de câmara, no qual exerce uma liderança que em nada condiz com a hesitação naquele quarto feito para o sexo. Ele, por sua vez, surge como um bacharel em história, que acredita que esta é feita pelos grandes homens, ao mesmo tempo em que é fascinado por movimentos milenaristas. Fundamental: ela é rica, ele é de classe baixa.

A história que McEwan conta é mais do que a de um casal: é a de pessoas que estão no momento errado da HAistória, pois essa se passa em 1962, pré-revolução sexual, pré-1968. Por isso, a impossibilidade de se conversar sobre sexo; por isso, a noite de núpcias deles vai caminhando para aquilo que pode ser um desastre -desastre esse que vamos vendo surgir no horizonte com profunda agonia, pois o escritor consegue envolver o leitor de tal maneira que não nos sentimos meros espectadores de uma cena que se desenvolve entre patética e trágica.

Além do detalhamento barroco da noite de núpcias, com direito ao pensamento de ambos narrado em terceira pessoa, o artifício definitivo que McEwan usa para nos colocar na história é o desenvolvimento de narrativas paralelas que vão, como dito, desvendando passagens da vida de ambos. Assim, sabemos que Florence é filha de uma mãe professora de filosofia, que transpira confiança e certa afetação de classe, vemos como ela encontra seu lugar no mundo ao estudar música e formar seu quarteto, descobrimos como ela nunca nutriu entusiasmo por sexo, ainda que isso não signifique repulsa à maternidade. Ele, por sua vez, surge como o garoto pobre que conseguiu um lugar ao sol por meio dos estudos, o que não o afastou de ser um sujeito estourado, às vezes propenso a brigas, mas que vive dentro de casa um teatro feito para ignorar o fato de que sua mãe é doente mental. O encontro deles é no melhor estilo amor à primeira vista, mas sem pieguice, até porque sabemos como as eventuais investidas sexuais dele são prontamente rechaçadas por ela, ou como ela, após algum avanço, promove um retrocesso de intimidade ao menor erro dele.

É melancólico ver o que acontece com eles, e McEwan parece colocar nos ombros de Edward uma certa culpa que não sei se considero justa. O personagem masculino sai mal do livro. Ok, devo admitir que a repressão sexual era muito mais forte em cima das mulheres, tanto que ele teve a oportunidade de uma primeira experiência sexual, que fracassou, mas, da forma como a narrativa é construída, parece-me que ambos são igualmente vítimas do tempo em que vivem. A cena na praia pode parecer absurda, mas é o que resta para aqueles dois, naqueles tempos. A parte final, um espécie de epílogo, é focado nele, e, de certa forma, mostra como seu futuro acabou não sendo nada parecido com o que haviam planejado, ao mesmo tempo em que ela aparece, indiretamente, bem sucedida. É como se McEwan punisse Edward por algo de que ele não tem culpa, pois esse sujeito que acreditava na História feita pelos grandes homens ainda não havia passado por 1968, quando os homens comuns tomaram os rumos da História, modificando-a para sempre, uma mudança que veio tarde demais para eles.

Apesar desse porém que eu faço ao livro, é inegavelmente uma grande obra, e cria enormes expectativas em relação a “Reparação”, ainda que o primeiro Ian McEwan a gente nunca esqueça.

Anúncios

  1. Quem bom ter sido desvirginado com Na Praia. Reparação é uma obra-prima, mas não deixe de ler Sábado e o último, Solar, que acabou de ser lançado. Mc Ewan é um dos maiores escritores da atualidade. Gostei do seu texto.

    • Eu estou com o “Reparação” engatilhado para ler.
      Por via das dúvidas, resolvi começar por um livro, digamos, menor. Fiquei ansioso pelos próximos!
      Na verdade, eu sempre lia o começo do “Na praia”, e achava aquilo sensacional, certeiro, fiquei fascinado!
      Volte sempre! Estou tentando ficar mais regular por aqui…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s