A ÁRVORE DA VIDA, DE TERRENCE MALICK

O tamanho da ambição de um filme dá a medida das alturas que ele pode atingir, mas é também ela que dá o tamanho da queda que pode ocorrer. “A árvore da vida”  tenta ligar o tempo contemporâneo, a história de uma família da década de 1950, o início do mundo e um plano metafísico em uma obra que se constrói como um embate entre natureza e graça e que é dirigida por Terrence Malick, professor de filosofia no M.I.T., especialista em Heidegger e que fez apenas cinco filmes em 38 anos. Ou seja, a ambição escorre por todos os lado. E a queda é estrondosa.

Não existe uma trama linear. Na verdade, nem existe propriamente uma trama. Vemos uma família dirigida por um pai rígido -Brad Pitt, nome que levou muitos incautos para ver o filme- e uma mãe amorosa -Jessica Chastain, talvez o único ponto não negativo-,e que será marcada pela tragédia da morte de um dos filhos. Em um tempo contemporâneo, Sean Penn interpreta um dos irmãos adultos daquela família, e que se encontra em estado de profunda crise. No meio, Malick encaixa uma espécie de poema visual sobre momentos imemoriais do universo e do planeta terra, e tudo se encerra em um final metafísico. Logo, o filme é muito mais uma alegoria do que uma história com começo. E logo no começo, a mãe já diz sobre o que é a obra: existem dois caminhos, o da natureza e o da graça. É um embate que se procura estabelecer entre a violência do mundo e algum tipo de salvação, de graça. O tom religioso se impõe de cara. A alegoria, no entanto, não consegue nunca se estabelecer plenamente. É como se houvesse um problema de comunicação.

Há um tom solene que vai afogando o filme. As narrativas em off -mais resmungos, na verdade- são a  mostra de o quanto a obra vai se perdendo. Aqui, fala-se muito, mas para ninguém. São exortações constantes, sussurros íntimos que servem mais ainda para imprimir espiritualidade, mas que provam que mais importante do que falar é ter o que dizer.

A outra parte da comunicação cinematográfica, a visual, é também falha. Malick, que sempre primou por uma fotografia exuberante, aqui abusa do velhíssimo e manjado truque da luz estourada, um dos recursos mais vagabundos que se pode usar quando se quer dar um tom de beleza e de arte a uma imagem. Hoje, estourar luz é algo que qualquer pré-adolescente com um mínimo de habilidade faz com uma câmera de telefone celular. A beleza imagética acaba surgindo como um grande clichê.

Quando Malick faz sua incursão aos confins do tempo o filme adquire um tom cômico não intencional. A música , a construção das imagens, tudo é feito para dar uma sensação de arrebatamento, mas só nos faz lembrar que a mesma coisa pode ser vista em um programa da Discovery Channel. É mais uma das construções vazias que o filme nos proporciona.

A alegoria que a obra pretende encenar, por sua vez, acaba destruída por todos esses problemas. As partes não se ligam em um todo e a mensagem nunca chega. Some-se a isso momentos realmente constrangedores -o “poema visual”, o final metafísico, o personagem meio comatoso de Sean Penn- e “A árvore da vida” transforma-se em um grandioso desapontamento cinematográfico, principalmente em vista das alturas que poderia alcançar. Até mesmo por isso deve ter sido escolhido para ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 2011. Pois essa premiação só pode ter sido uma forma de punir com rigor as infelizes colocações nazistas que Lars Von Trier fez no festival, no qual, por sinal, apresentou o infinitamente superior “Melancolia”, essa sim uma obra de arte digna do nome.

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