AMSTERDAM, DE IAN McEWAN

O autor inglês Ian McEwan e o prêmio Booker Prize são duas das mais valorizadas marcas da literatura mundial, quase um selo de garantia de qualidade. “Amsterdam” carrega as duas marcas em sua capa. Como o livro, então, pode, apesar de alguns pontos altos, ser uma obra tão fraca, com um final tão ruim, quase constrangedor de tão óbvio?

O livro começa com um encontro entre o jornalista Vernon Halliday e o compositor Clive Linley. Longe de ser um momento alegre, os dois estão ali para o funeral do elo que um dia os uniu: a artista Molly Lane, da qual, em tempos diferentes, ambos foram amantes. Completam os homens que giram em torno da falecida seu então marido, o magnata George, e o ministro das relações exteriores do Reino Unido -e provável amante de Molly-, Julian Garmony.

Por sinal, o funeral é justamente um dos pontos altos do livro. Cheio de diálogos mordazes, observações agudas, banhados de um humor tipicamente inglês -pois só esse tipo de humor conseguiria aparecer em uma situação tão triste quanto um funeral, ainda mais o de uma mulher que, quando viva, foi uma força da natureza. O fato de Molly ter morrido vítima de uma doença degenerativa que corroeu sua memória apenas ressalta o horror do destino de uma pessoa que fora tão energética e cintilante. E, justiça seja feita, conseguimos sentir muito bem toda a força de Molly nos relatos que McEwan coloca na boca e nas lembranças de seus personagens.

Sob o efeito da morte de Molly, Vernon e Clive decidem fazer um pacto: caso algum deles desenvolva uma doença degenerativa, o outro deveria matá-lo para que o doente não decaísse como a mulher decaíra.   Mas não se engane, pois não há qualquer discussão ou problematização sobre a eutanásia no livro. Bem distante disso, “Amsterdam” se foca em discussões sobre a ética jornalística e sobre a produção artística desengajada do mundo que o cerca e capaz de existir ao lado dos piores horrores.

Justiça seja feita mais uma vez, McEwan consegue com brilhantismo descrever o fazer musical de Linley e o lugar de sua produção no contexto da música sinfônica moderna. O compositor é popular, mas não goza de grande apreciação crítica. Ainda assim, a ele foi encomendada uma sinfonia para o milênio, um concerto para celebrar a chegada do novo século e que, mais do que uma composição, também deveria ter um tema inescapável, capaz de marcar para sempre na cabeça das pessoas, algo como a 9ª sinfonia de Beethoven. Não é pouco, e o autor consegue nos colocar muito bem nos devaneios e dúvidas artísticas de Linley, que busca uma espécie de melodia definitiva.

Curiosamente, McEwan tem bem menos sucesso ao retratar o mundo do jornalismo vivido por Halliday, editor de um jornal cujas vendas minguam. Em dado momento, George, o viúvo e também acionista minoritário da publicação, entrega a Halliday algumas fotos comprometedoras que encontrou entre as coisas de Molly. São imagens de Garmony usando roupas femininas. É a chance de alavancar as vendas do jornal, mas sob o preço de o transformar em mais um tabloide sensacionalista.

Tem até algum valor os diálogos travados entre Halliday e Linley sobre se a publicação das fotos não seria uma traição à memória de Molly. Mas o pior é a maneira inocente com que McEwan leva seu personagem editor a conduzir o processo de publicação das imagens. Halliday, rato velho da imprensa, age como um verdadeiro iniciante, pois só assim o escritor conseguiria armar a parte da trama em que Halliday é passado para trás por um jornalista mais jovem e ambicioso. E é então que o livro começa a desmoronar.

Afora outra discussão interessante sobre como o fazer artístico pode por vezes estar completamente dissociados dos dramas da vida real, “Amsterdam” entra numa queda vertiginosa em sua segunda metade, toda ela construída para se chegar a um final previsível e -ainda pior- pretensamente cômico, mas que somente consegue ser anticlimático.

McEwan, que conseguiu até lidar com alguns temas interessantes ao longo do livro, falha terrivelmente ao tratar de seu último, e talvez mais polêmico, assunto -a eutanásia. Até por isso, no fim não temos uma obra sistematicamente coerente em sua construção, mas sim um apanhado de acontecimentos que servem para o autor discutir paulatinamente alguns assuntos que se sucedem de maneira artificial, e não com a sincronicidade com que as questões na verdade se apresentam na vida real, que é, afinal, aquela retratada numa obra de toada naturalista, como “Amsterdam”.

Livro ruim, não deve, no entanto, servir de desestímulo para quem quer conhecer McEwan, pois o autor tem, de fato, obras muito melhores, como “Na praia” e “Reparação”.

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