O ANO MAIS VIOLENTO, DE J. C. CHANDOR

“O ano mais violento”, de J. C. Chandor, é um mergulho cheio de nuances naquilo que se costuma chamar de  “o sonho americano” -a ideia do sujeito que, trabalhando muito, consegue enriquecer e vencer na vida. De um lado, o filme mostra que o caminho é bem mais complicado do que parece. De outro, mostra que o caminho também não está aberto a todos. E tudo isso Chandor faz com a ajuda de ótimas narrativas e uma sensibilidade para criar cenas que dizem mais do que qualquer diálogo conseguiria.

Depois de ouvirmos um rádio noticiando uma onda de criminalidade na Nova Iorque de 1981, corta-se para uma cena típica de encontro entre mafiosos, já vista em centenas de outros filmes. Abel Morales (Oscar Isaac, excelente) está sozinho com seu advogado, Andrew Walsh (Albert Brooks), no pátio de uma indústria deserta, aguardando a chegada de alguém. Este alguém chega, são muitas pessoas, o clima de ilegalidade emana da tela. Na verdade, trata-se de um encontro entre Morales -o imigrante latino que se tornou dono de uma empresa de distribuição de combustível para aquecimento, na qual começou como motorista-, com os judeus ortodoxos donos do terreno da indústria que o empresário usa para estocar seu produto. Comprar o espaço é fundamental para que Morales dê um salto no seu empreendimento, e ele faz uma proposta ousada -e legal- para ter o terreno. Nossas expectativas já são desmontadas.

Logo depois, temos outra cena que dará a tônica do filme. Do mesmo terreno, Morales olha para Manhattan e seu imponente skyline, que está lá, do outro lado do rio Hudson, e que vai aparecer em várias outras cenas. O que ele observa não é apenas uma parte de Nova Iorque -é o sonho americano, ao qual ele quer chegar com o salto que o negócio recém fechado pode lhe proporcionar. Isso se tudo der certo, pois, ao mesmo tempo em que faz o negócio ousado, os caminhões de transporte de Morales estão sofrendo constantes roubos. Ao mesmo tempo, ele entra na mira do ambicioso promotor Lawrence (David Oyelowo), que busca irregularidades na empresa de Morales, cujos competidores são justamente marcados por andarem numa tênue fronteira entre a legalidade e o crime.

O paradoxo é que Morales tenta, justamente, fazer seu negócio andar dentro dos limites da legalidade, ao contrário do que acontecia quando ele pertencia justamente ao pai de sua esposa, a ambiciosa Anna Morales -Jessica Chastain, também em grande forma. Mas Morales não busca a legalidade por uma questão de ética, e sim porque entende que fazer negócios fora da lei será cada vez mais difícil. A legalidade, portanto, é mais uma estratégia de sobrevivência do que uma opção neutra por um caminho limpo. A resistência a essa limpeza vem justamente de sua mulher, criada à sombra da ilegalidade e da violência com que seu pai conduzia os negócios.

Morales é, no entanto, apenas a ponta mais vistosa do “sonho americano”. Louis Servidio (Christopher Abbott) é seu contraponto. Assim como Morales, ele é latino, dirige um caminhão de distribuição na empresa do primeiro, e sonha com a ascensão e seu lugar no sonho. Motorista de um dos veículos assaltado, sofre com a violência dos ladrões e, quando volta ao trabalho, carrega uma arma, algo que Morales exige que seus motoristas não façam, apesar da resistência do chefe do sindicato de sua empresa. O filme se torna, então, o percursos dessas duas vidas: uma que ascende com dificuldades, outra que afunda com rapidez.

Chandor faz a opção de contar sua história sem maniqueísmo. Não há nem o mocinho total, nem o bandido pleno. Todo mundo transita justamente no terreno da ambiguidade moral, todos os personagens são humanos, demasiado humanos. E a virada muito real daquele que de certa forma se constrói como o agente da ordem e da lei, o promotor que investiga Morales, é a cartada final que mostra que estamos diante de um filme que entende bem as nuances políticas da vida real.

“O ano mais violento” é um filme rigoroso em sua narrativa e criativo em suas imagens, assim como o foram as duas obras anteriores de Chandor: “Margin Call”, sobre a crise de 2007 e passado quase todo dentro de um escritório, e “Até o fim”, que acompanha um único personagem em seu barco à deriva. Em sua curta carreira, Chandor vai se firmando como um diretor cada vez mais talentoso, uma promessa que se firma como um cineasta já maduro, apesar de um caminho tão curto.


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