FORÇA MAIOR, DE RUBEN ÖSTLUND

Há uma cena de avalanche impressionante no começo de “Força maior”, do sueco Ruben Östland. Uma família -pai, mãe e dois filhos- toma café na varanda de um hotel nos Alpes quando a montanha de neve começa a descer com velocidade e som aterrorizador. Logo, o que era apenas um espetáculo, torna-se a iminência de um desastre. O pai foge com o celular. Mãe e filhos ficam e gritam. Mas é apenas um susto e, quando a poeira da neve abaixa, eles retornam a suas refeições. No entanto, as coisas não serão como antes. Mais do que uma metáfora para a derrocada sentimental que se abate sobre o casal, a cena é um grande resumo do que é este ótimo filme: um embate entre as forças da natureza e a artificialidade social, contado de maneira por vezes -literalmente- fria, mas temperada com um estranho humor e algumas emoções incontidas.

Não precisa muito para percebermos que as coisas não andam muito bem entre o casal formado por Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli). A cada vez em que o celular dele toca, ela dá um olhar reprovador. Estão de férias para aproveitarem o tempo com o casal de filhos, e não para que ele fique -ou continue- refém de seu trabalho.

A beleza selvagem e quase opressora dos Alpes é contrastada com os ambientes modernos, minimalistas e quase assépticos no interior do hotel. À grandiosidade da montanha, opõe-se a pequenez da vida humana, retratada em atos prosaicos como dormir ou escovar os dentes.

A natureza, no entanto, deve ser domesticada em seus mínimos detalhes, e o silêncio nevado é volta e meia interrompido por explosões, que ajudam a causar avalanches controladas e a evitar acidentes graves. A avalanche que desestabiliza tudo é uma dessas controladas. A força da natureza, a força maior que ameaça engolir a família é, na verdade, uma criação artificial, mas que faz aflorar os instintos mais primitivos e naturais do casal.

Assim como a família é uma construção artificial, também o são os papeis que cada um cumpre dentro dela. O pai, o protetor, tem seu papel colocado em cheque ao sair correndo, deixando sua mulher e seus filhos para trás. Prevaleceu o instinto de sobrevivência. Por outro lado, a mulher fica decepcionada pelo marido não ter cumprido a parte que lhe cabe, e faz questão de expor a amigos o que aconteceu. Já os filhos percebem que há algo errado, que algo se rompeu, que um equilíbrio delicado foi rompido. Por isso, começam a temer pela relação dos pais.

O desequilíbrio é tão intenso que acaba até mesmo contaminando outras pessoas, como o casal formado por Mats (Kristofer Hivju), irmão de Tomas, e sua amante Fanni (Fanni Metelius). Enquanto estão todos reunidos no quarto da família, bebendo e conversando, Ebba traz, mais uma vez, a história, e uma grande discussão começa. O cunhado até tentar criar um argumento para justificar a reação de Tomas: ele teria saído para se salvar e, então, poder voltar e ajudar sua família, assim como falam para o adulto colocar a máscara em um avião e depois ajudar a criança. Depois, Fanni também questiona Mats sobre o que ele faria, e o homem se atrapalha todo em sua resposta. Por mais que o óbvio fosse pintar um ato heroico, ele sabe que também poderia agir como Tomas.

Considerando-se que está em jogo a artificialidade daquilo que se considera uma família tradicional -pai, mãe, filhos-, não é por acaso que Tomas e Ebba se deparem com outras maneiras de se relacionar. Ela, ao encontrar uma amiga solteira no hotel, e que parece estar lá apenas para procurar os homens que estiverem mais disponíveis no momento. O olhar de estranhamento e curiosidade de Ebba é impagável.

Já Tomas e Mats, depois de fazerem o único passeio realmente natural de todo o filme -uma longa caminhada pela neve, sem nenhum tipo de pista artificial ou teleférico-, voltam para o hotel e são cortejados por uma mulher, apenas para descobrirem que ela se enganou e achou que eles fossem outras pessoas. O olhar de ambos é patético.

O abalo no núcleo familiar poderia, no entanto, servir de oportunidade para se construir algo diferente no lugar, para se definirem novos papéis. Mas Ebba e Tomas fazem exatamente o contrário. Na mesma névoa gelada em que o impulso natural começou a dissolver a família, eles criam um teatro invisível para que a família possa ser recriada não em novos moldes, mas da maneira como era antes: Tomas retomando seu papel de guardião da segurança familiar. Ele, que nem mesmo chorar consegue direito -pois não é isso que “homens” fazem.

A artificialidade da construção fica ainda mais ridícula quando, ao final, frente a um novo perigo -esse real e muito visível-, apenas Ebba reage, quase histericamente. E é interessante que o filme faça a mulher ter um comportamento histérico -de certa forma, reforçando o papel de fragilidade que ela deve ter na família conservadora, e que é reforçado no teatro que reconstitui o núcleo familiar- justamente diante do único perigo de fato real que existe em todo este ótimo filme, que consegue, com habilidade, escapar da frieza no qual poderia ter facilmente caído.

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