BIRDMAN, DE ALEJANDRO GONZÁLEZ IÑÁRRITU

http://www.youtube.com/watch?v=uJfLoE6hanc

“Birdman ou a inesperada virtude da ignorância”, do mexicano Alejandro González Iñárritu, é um engenhoso jogo de espelhos nos quais se refletem algumas discussões bem interessantes sobre arte, uma obra que tira sua força do estado de graça de seus intérpretes e do malabarismo formalístico de sua narrativa. É um filme tão bom que consegue até sobreviver a seu principal problema: a hipermetaforização.

Na tela, vemos a história de Riggan (Michael Keaton), um veterano ator algo decadente que um dia fez muito sucesso ao protagonizar uma série de filmes sobre um personagem chamado justamente Birdman. Ao se recusar a fazer mais uma sequência sobre o super-herói, Riggan acaba sendo renegado ao ostracismo algo reconhecível daqueles que lideraram bilheterias apenas para nunca mais chegar aos picos de popularidade um dia atingidos. Riggan foi Birdman e ainda é Birdman para o grande público, ainda que não o seja há mais de uma década. Assim, temos o primeiro jogo de espelhos.

Keaton alcançou ele mesmo o topo da popularidade ao interpretar os dois filmes sobre o Batman dirigidos por Tim Burton entre o final da década de 1980 e começo da de 1990. Keaton, pode-se dizer, era o então Johnny Depp de Burton. A série, no entanto, não continuou pela recusa do ator, e sim porque os estúdios cortaram as asinhas criativas do diretor. Desde então, Keaton nunca mais acertou uma, e a sombra de Batman ainda paira sobre ele.

Keaton achou no consagrado Iñárritu seu caminho de volta aos holofotes. O diretor empresta ao ator a seriedade crítica -ainda que em uma comédia, mesmo que dramática- da qual Keaton não desfrutava justamente desde o fim de sua parceria com Burton. Da mesma forma, Riggan vai procurar no escritor Raymond Carver, consagrado contista norte-americano, o caminho para a respeitabilidade. Mais um espelho. Mas um espelho paradoxal.

Ainda que extraordinário escritor, Carver alcançou sucesso de crítica apenas no fim de sua carreira. Passou grande parte da vida dividindo a produção literária com trabalhos manuais, enxaguando seu talento em litros de álcool. Carver era um escritor comum que escrevia sobre pessoas comuns. Nada parecido, portanto, com Riggan, uma celebridade, ainda que decadente. Curioso, então, que o ator vá procurar em Carver e em seus personagens o caminho para voltar a ser extraordinário, amado pelo público e pela crítica.

Riggan adapta para o teatro e interpreta o conto “Do que falamos quando falamos de amor”. E aqui temos mais um jogo de espelho. Assistimos a um filme, mas que se desenvolve como uma peça de teatro sobre uma peça de teatro. O recurso, por sinal, é muito parecido com o utilizado por Louis Malle em “Tio Vania em Nova Iorque”, no qual os atores entram e saem do texto encenado sem muito aviso. Para tornar ainda mais viva a oposição teatro/cinema, Iñárritu usa sua grande sacada: uma obra construída em um aparente único grande plano sequência. Mais do que uma firula formal, a opção mostra-se central para este filme/teatro, quase todo passado, por sinal, dentro de um teatro. O problema começa, no entanto, justamente quando o cinema tenta se impor, e ele se impõe pelos efeitos visuais.

Muito antenado com seu tempo, Iñárritu coloca uma crítica nada velada ao sistema de Hollywood, atualmente viciado em sequências de filmes de heróis. Ao ter um de seus atores feridos, Riggan recorre a Mike (Edward Norton), que, mais do que um ator, pretende-se um artista. Por isso, não está comprometido com filmes de aventura, como outros nomes aventados. Por outro lado, com seu talento, vem junto uma imensa pretensão disfarçada de desprezo pelo público, mas que explode em sua sujeição à crítica de teatro do The New York Times. São opostos, Riggan e Mike. Este quer a consagração crítica; àquele, interessa, acima de tudo, voltar aos braços do público, não ser esquecido. Ainda assim, ambos não deixam de ser frutos do mesmo sistema que, no fundo, quer produzir apenas uma coisa: sucesso.

E não deixa de ser curioso que Iñárritu, constante sucesso de crítica, mas nunca um querido do grande público, tenha justamente navegado tão longe de sua obra até então para juntar em um filme só tanto a aclamação pública quanto a crítica. Ou seja, de certa forma, “Birdman” é uma espelho também para o diretor.

Voltando à intromissão quase fatal do cinema, ela se impõe na metaforização visual da história que vemos na tela -ou em cena. Se o teatro é o domínio da palavra, o cinema é -também- o domínio do visual. E Iñárritu acaba cometendo o mesmo excesso que vitimou seu colega de profissão Darren Aronofsky em “Cisne negro“: a hipermetaforização. O pecado é quase capital, considerando-se que o roteiro é de fato impressionante e agil, e que os planos sequências e a movimentação de câmera são virtuosos. Então, por que colocar coisas voando, um Birdman perseguindo Riggan, que flutua logo na primeira cena?

Sabemos a pressão a que o ator está submetido. Sabemos que aquela é sua última chance, que ele apostou todo seu dinheiro e mesmo sua relação familiar -sua problemática e negligenciada filha Sam (Emma Stone) é sua assistente- na montagem. Mais ainda, no plano das palavras, sabemos que a cena que encerra a peça não existe no conto, ainda que o suicídio ocorra, mas logo no começo da história, o que nos leva a crer que Riggan propositadamente colocou a morte de seu personagem, bem como seu monólogo clamando para ser amado, no fim, quase como um apelo ao público. Tanto no conto quanto no final, o suicídio também é mal sucedido. Por que não deixar apenas a inteligência das palavras falar e não deixar a mediocridade das imagens se impor?

Ainda assim, é um filme marcante, que atrai pela urgência com que os personagens se movimentam em cena, embalados por improvisos de bateria que remetem diretamente aos improvisos teatrais que ocorrem no duplo plano do filme e da peça dentro do filme. “Birdman” tem algo a dizer sobre o sistema criativo atual.

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