LIBERDADE, DE JONATHAN FRANZEN

Em 2008, Horace Engdahl, então secretário da Academia Sueca -instituição responsável por atribuir o prêmio Nobel-, jogou um balde de água fria na pretensão dos norte-americanos ao acusar a literatura do país de ser insular, desconectada do resto do mundo. O fato de “Liberdade”, de Jonathan Franzen, ter sido tão ostensivamente aclamado nos Estados Unidos quando lançado, em 2010, parece dar razão à crítica de Engdahl: trata-se de um livro escrito por um norte-americano e que, pelo conteúdo, bate fundo justamente no peito dos norte-americanos. Isso para não falar que carrega um problema formal grotesco em seu centro.

O livro narra a trajetória da família Berglund -Walter, Patty e seus filhos Joey e Jessica. Orbitando em torno deles está o músico Richard Katz, colega de faculdade de Walter. Já a história se estende, entre idas e vindas, por algumas décadas, narrando desde o período universitário dos personagens, na década de 1970, chegando até a crise econômica de 2008.

Atribui-se a Liev Tolstoi o “mandamento” de que se um escritor quer ser universal, deve começar a escrever sobre sua vila. E é curioso que essa frase descreva tão bem “Liberdade” -cuja história está profundamente encravada nos Estados Unidos-, pois seu autor também é invocado por Franzen, que faz Patty descobrir a literatura lendo “Guerra e paz”, do autor russo. De certa forma, Franzen também quer marcar sua filiação literária ao realismo típico do século XIX, notadamente aquele praticado por Tolstoi. Alta pretensão.

O problema é que ao falar sobre sua vila -os Estados Unidos-, Franzen foi tão fundo no intricamento entre fatos históricos e emoções que o livro acaba falhando justamente em se comunicar com o universal. Isso mesmo podendo-se tomar os Estados Unidos hoje como uma espécie de vila universal, conhecida em todo o mundo. Mas Franzen não parece interessado em escrever sobre o universal. O que lhe importa são as emoções geradas pelos grandes lances da história dos Estados Unidos. Ele escreve para os norte-americanos, e não para o mundo.

A divisão política dos Estados Unidos, entre republicanos e democratas, tem, por exemplo, um papel fundamental no andamento da história. Patty é filha de uma militante democrata, seu pai é um grande advogado que também se dedica ao trabalho pro bono; Walter é um ambientalista também democrata, um “sef made man” de origem humilde, no melhor estilo yankee. Já o filho deles acaba se tornando republicano sob influência da disfuncional família vizinha. Joey, ainda adolescente, se envolve com Connie, garota um pouco mais velha filha da vizinha Carol, que vive com Blake, uma encarnação para lá de caricata do típico caipira ignorante republicano. Quem não conhece um pouco das sutilezas das divisões políticas norte-americanas, portanto, acaba perdendo acesso a uma parte considerável das emoções envolvidas na história.

Da mesma forma, a vida do outro personagem que não é da família Berglund, o músico Richard Katz, só é inteligível sob o pano de fundo da produção musical norte-americana. É apenas nesse sistema que se pode entender Katz e suas emoções. Mais uma vez, Franzen não está criando um músico, mas sim um músico norte-americano.

Já a bomba formal no centro do livo fica por conta das duas longas partes formadas por um diário escrito por Patty, e que são fundamentais para o andamento da história. Como ela mesma diz, sempre foi uma estranha em sua família por preferir os esportes à cultura. Ler e estudar não eram suas prioridades. Jogar basquete era. No entanto, ela escreve mais de 200 páginas em estilo francamente literário, como apenas uma escritora -e uma muito bem experimentada- poderia fazer. Ela, no entanto, é alguém cujo interesse -vago- por literatura só é despertado na maturidade. Lê “Guerra e paz”, e consegue fazer analogias profundas entre o livro e sua vida. Impossível.

Curiosamente, isso apenas reforça certa filiação de Franzen ao realismo do século XIX, quando os experimentos formais ainda não haviam avançado tanto a ponto de dar vozes ousadas a seus personagens. Tudo era literário, portanto.

O paradoxo é que, mesmo com todos estes problemas, “Liberdade” ainda é livro de leitura incrivelmente fluente. É daquelas obras que, quando se abre, leem-se no mínimo uma boa dezena de páginas. Franzen sabe prender seu leitor, isso é inegável. E o faz como o faz até mesmo o mais ordinário dos best sellers que frequentam a ponta de qualquer lista dos mais vendidos. É um produto de consumo muito bem realizado, mas longe da pretensão artística de seu autor -e mais longe ainda dos elogios que lhe deram certos críticos.

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Um Comentário

  1. Engraçado você escrever só agora sobre o Liberdade pois descobri o livro, logo que foi lançado (há uns três anos?), por um comentário seu – no twitter, se não me engano. Sobre os experimentos formais, sempre lembro do Visita Cruel do Tempo, que também conheci por indicação sua, é tão americano quanto, mas bem mais ousado. E eu gostei mais.


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