DOIS DIAS, UMA NOITE, DE JEAN PIERRE E LUC DARDENNE

“Dois dias, uma noite”, dos irmãos belgas Dardenne, é a história de uma guerra, e, como todas as guerras, essa também é feita de batalhas. Num primeiro momento, podemos achar que a guerra é aquela lutada por Sandra (Marion Cotillard) para convencer seus colegas a recusarem um bônus, mantendo-a, assim, empregada. Mas não. Essa é apenas uma batalha. A guerra mesmo é pela reconstrução de uma mulher dilacerada pela depressão.

O filme começa com Sandra, que está de licença médica, recebendo a notícia de que seus colegas foram colocados diante de um dilema: ou recebiam um bônus ou mantinham o emprego dela. Decidem pelo dinheiro, afinal nem mesmo se sabe se Sandra ainda está apta para trabalhar. Com a ajuda de uma amiga, ela consegue que se faça outra votação, e tem um fim de semana inteiro para convencer seus colegas a desistirem do dinheiro para que ela mantenha seu emprego.

O problema é que Sandra é uma mulher depressiva, o que torna a simples tarefa de falar com outras pessoas um pesadelo, um fardo quase impossível de se carregar. Ela duvida de si, não se crê à altura do desafio ou merecedora de seu emprego. Acredita ainda ser um fardo para seus filhos e marido (Fabrizio Rongione), e nem mesmo o apoio deste e de alguns colegas, bem como o fantasma da queda social, parecem ter o poder de tirá-la do marasmo. Mas ela precisa lutar. E a luta não é pelo emprego, mas sim pela reconstrução de si. O resto é consequência desse encontro dela com ela mesma.

Mais uma vez, os irmãos Dardenne partem de uma premissa e uma forma de filmar acética -história simples, câmera na mão, ausência de música-, mas por baixo das quais transitam rios e maios rios de significados. A temática social é óbvia. Sandra recebe apoio de alguns, negativas de outros. Percebe que os colegas são tão ferrados quanto ela. O pequeno bônus lhes é fundamental para sobreviver. Ainda assim, os cineastas belgas conseguem passar longe de qualquer discurso panfletário ou esquemático. Não lhes interessam as grandes estruturas socioeconômicas, mas sim essas pequenas vidas que nelas vivem. Mas está tudo ali, a geopolítica, a Europa em crise, a mão-de-obra imigrante, o desemprego, o embate entre solidariedade e individualidade.

Da mesma forma, o filme também consegue escapar à tentação do sentimentalismo. É uma história de superação, mas sem nunca levar a momentos de ascensão e queda. Não há um ápice vibrante, e nem um fundo dolorido. A redenção passa longe. As emoções são contidas. E o filme só funciona porque conta com uma atriz em estado de graça, que dá uma aula de interpretação.

Na primeira vez em que vai falar com um de seus colegas, Sandra traz na voz trêmula a dúvida sobre sua força, a hesitação, a tentação de simplesmente deixar tudo como está e se entregar de vez ao fantasma da depressão e a todas as consequências terríveis dessa. Está tudo ali, naquele quase imperceptível tremor na voz. Mas não é só isso. Cotillard dá um corpo -magérrimo- a Sandra, cria para ela um olhar expressivamente cansado, bota em seu rosto uma boca que desaprendeu a sorrir -e que, por isso mesmo, quando sorri é tão belo e tão verdadeiro. Não basta, nos mostra a atriz francesa, dar uma composição física a uma personagem: é preciso dotá-la de alma.

A transformação de Sandra durante sua guerra particular é sutil. Precisamos estar atentos para perceber, mas ela existe. A mulher que termina o filme é diferente daquela que começa, isso mesmo tendo-se passado tão pouco tempo entre o princípio e o fim. E é a oportunidade de acompanhar essa pequena odisseia cotidiana que torna “Dois dias, uma noite” um filme tão belo em sua contenção. É a obra de autores que se compadecem da humanidade de seus personagens, mas sem serem condescendentes com eles. Acompanhando Sandra de uma maneira tão próxima, levados por uma câmera trêmula, mas sempre atenta, tendemos a concordar com ela por fim: a beleza está em como se luta a batalha, e não em seu resultado.

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