RELATOS SELVAGENS, DE DAMIÁN SZIFRON

Depois de fazer três milhões de espectadores na Argentina, “Relatos selvagens”, de Damián Szifron, aterrissou no Brasil e já vendeu, até agora, 385 mil ingressos, cifra nada desprezível e que deve aumentar mais um pouco com a indicação ao Oscar de filme estrangeiro. A obra tira sua força de episódios tragicômicos de explosão emocional que muitos de nós gostariam de ter. Sua fraqueza, no entanto, é exatamente esta estrutura episódica. Há esquetes, mas não há um filme.

Os temas, tons e estilos são muitos, e, em vários momentos, sente-se um ar meio Pedro Almodóvar, não por acaso um dos produtores do filmes.

Já de cara temos a estranha de um músico fracassado, que embarca em um avião todos os seus desafetos. Depois, a oportunidade de revanche de uma mulher que teve a vida arruinada por um agiota. Corta, e estamos em um embate francamente social, no meio de uma estrada deserta, entre um homem rico e um pobre -quase um faroeste motorizado. Logo, o onipresente Ricardo Darín toma a tela como um engenheiro que se envolve num imbróglio com o poder público que o leva a perder o emprego e a mulher. (Nota: afora o humor, este episódio, o mais fraco do filme, é demasiadamente parecido com “Um dia de fúria”, de Joel Schumacher) O drama e a seriedade tomam a tela na história do jovem rico que atropela e mata uma grávida, iniciando uma espiral de corrupção, acobertamentos e malandragens. Por fim, na melhor história, temos a noiva que descobre, durante o casamento, ter sido traída, desencadeando um hilário turbilhão de vingança.

A risada acaba sendo a reação mais sentida na sala. E dá para entender. Muitas das cenas tratam de fatos que todos vivem cotidianamente. O achincalhe do micropoderoso funcionário público. O fracasso do pretendente a artista. A humilhação do mais pobre pelo mais rico. Toda uma série de pequenos fatos está lá. Só que, ao contrário do que fazemos -e que, de certa forma, garante certos níveis de civilidade social em alguns casos, ou de franco conformismo, em outros-, os personagens na tela reagem. E reagem com muita força, muita fúria. Ultrapassam os limites que muitas vezes desejamos ultrapassar. Nesse sentido, o filme acaba sendo libertador para quem assiste. A experiência é de quase sublimação coletiva, nesse sentido, muito parecida com aquela que se tinha ao assistir a “Bastardos inglórios“, do Quentin Tarantino.

Mas o filme não consegue -ou não quer- ser mais do que isso: um apanhado de situações. Está no cinema, mas poderia ser visto fatiado na internet. Ainda assim, é uma comédia de inteligência acima da média quando comparadas àquelas nacionais meio sorvete na testa que abarrotam cinemas no Brasil. E, mesmo não sendo uma grande obra, fica a velha pergunta de quase todo mundo que vê um filme argentino. Por que não conseguimos fazer algo desse tipo por aqui?

 

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