O ABUTRE, DE DAN GILROY

 

Um personagem em busca de uma história. O paradoxo de “O abutre”, de Dan Gilroy, é apresentar uma figura fascinante que, no entanto, transita por um roteiro fraco e esburacado. Ainda assim, Louis Bloom (em grande interpretação de Jake Gyllenhaal) consegue sobreviver à travessia para nos perturbar mesmo depois de chegado ao fim o fraco universo pelo qual se movimenta.

Bloom é um sujeito que vive de pequenos roubos em uma Los Angeles bem distante do esteriótipo ensolarado e praiano. Transitando pela noite -em cenas e músicas que transpiram a inspiração de “Drive“, de Nicholas Winding Refn-, logo entendemos que o personagem tem ambição, mas não sabemos -e nunca saberemos- se ele busca dinheiro ou respeito, e esta é uma de suas interessantes ambiguidades. Logo percebe uma oportunidade para fazer algo da vida: sair madrugada adentro, com uma câmera de vídeo, procurando ocorrências que rendam matérias sensacionalistas em telejornais.

Nas ruas, Bloom conhece Joe Loder (Bill Paxton), experiente cinegrafista que o inspira. Já em seu primeiro trabalho, o novato vende um vídeo para a rede em que trabalha Nina Romina (Rene Russo), jornalista que luta para manter, a qualquer custo, a audiência do jornal que dirige. Ela logo incita Bloom a procurar o grotesco e o chocante em suas rondas noturnas.

Mais do que ir atrás de acidentes e crimes violento -o que em si já traz questões éticas-, Bloom passa também a “fabricar” cenas, ajeitando corpos e detalhes para um enquadramento melhor para seus filmes. Com matérias cada vez melhores, cai no gosto de Nina e logo contrata um ajudante -Rick (Riz Ahmed), um drogado que vive mais à margem ainda do que o próprio Bloom.

Aos poucos, vamos entendendo melhor a personalidade do cinegrafista. Frequentador de cursos online para empreendedores, regurgita chavões empresariais. Vai mostrando-se uma pessoa cada vez mais complexa, que aparenta um vazio avassalador por atrás de um olhar perturbador e um sorriso recorrente. Assim, a brilhante criação de Gyllenhaal vai despertando a curiosidade do público, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais incômodo e manipulador. Sua ambição é tanta que ele não se contenta mais apenas em forjar cenas -ele quer forjar situações.

Talvez maravilhado pelo excepcional personagem que criou, Gilroy, também autor do roteiro, deve ter pensado que bastaria seu Bloom-sol para sustentar o filme, mantendo todo o resto sob um desenvolvimento vago ou falho. Vide Nina, cuja inexplicável distância profissional é afastada de uma maneira internamente incoerente com o que é a personagem, pois só assim a história pode avançar. Vide Joe, que começa apenas como mais um cinegrafista noturno, chega a oferecer sociedade a Bloom, torna-se seu adversário e depois desaparece. Isso para não falar de Rick, com quem Bloom passa horas e horas, mas sem que a relação deles avance -o colega de trabalho também aparece apenas como mais uma escada para o personagem principal.

Em termos de discussão de ética jornalística também não há nenhuma novidade. A obra não acrescenta nada ao muito que já foi filmado sobre os limites da notícia e a maneira como muitas vezes ultrapassam-se as barreiras do aceitável em busca da tão perseguida audiência. Assim, é lamentável que se gaste um personagem tão bom, tão bem construído e tão bem interpretado em um filme que simplesmente não está a sua altura.

 

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