CIDADE ABERTA, DE TEJU COLE

Em “Cidade aberta”, seu romance de estreia, Teju Cole trafega na seara aberta pelo escritor alemão W.G. Sebald. Por um lado, as caminhadas do nigeriano Julius por Nova Iorque, cidade na qual faz estágio em psiquiatria, remetem àquelas que o narrador de “Os anéis de Saturno” faz por Norwich, na Inglaterra. Além disso, a questão da identidade, muito presente em Cole, nos faz lembrar de “Austerlitz”, de Sebald. O nigeriano também usa com alguma maestria uma pilha de pequenas citações intelectuais -quase ensaios-, de maneira quase semelhante a como faz o alemão. Ainda assim, Cole não é uma mera cópia de Sebald, e consegue encontrar uma voz própria em sua promissora estreia.

A identidade, por sinal, é uma das coisas mais importantes de “Cidade aberta”. No entanto, ela não aparece como concretude, mas sim enquanto incerteza. Julius nasceu na Nigéria, filho de pai nigeriano e mãe alemã. Seu pai morreu e ele perdeu o contato com a mãe, que sempre foi distante. Sua avó mora na Bélgica, e ele suspeita que ela, alemã e jovem durante a Segunda Guerra, tenha sido estuprada ainda grávida quando da invasão soviética. Africano, Julius identifica-se muito mais com a cultura europeia, desfilando referências e gostos intelectuais. Ainda assim, os afrodescendentes que ele encontra nos Estados Unidos insistem em tê-lo imediatamente como filho da Mãe África, posição na qual  Julius não se reconhece. Mestiço numa terra de negros, sabe, no entanto, que é negro numa terra de poder branco.

Narrado em primeira pessoa, num estilo confessional, “Cidade aberta” é a trajetória desse personagem que faz menos do que andar por Nova Iorque -e por outros lugares do mundo. É quase como se ele flutuasse, em um movimento pendular entre saber quem é e onde está e perder totalmente a noção de localização identitária e espacial. Em sua busca por algo que é incerto tanto para ele quanto para nós, Julius vai parar até mesmo na Bélgica atrás de sua avó, a quem não vê faz anos, mas de quem tem poucas, mas boas, memórias.

Assim como faz em Nova Iorque, Julius se deixa levar pelo tempo e espaço também na Europa. Ele, que é por si uma indefinição identitária, encontra mais um personagem para o qual escapam tentativas de enquadramento. Farouq é um jovem marroquino, que saiu da miséria de seu país para seguir sua formação intelectual na Europa. No entanto, ele fracassa, e culpa o 11 de setembro e a onda de desconfiança contra árabes por seu destino. Torna-se atendente de uma lan house. Farouq escapa às definições porque, apesar de marroquino -e africano, vale lembrar-, ele também desfila uma miríade de referências intelectuais europeias. Farouq e Julius acabam travando diversas -e ótimas- conversas.

Por sinal, a fluidez da escrita de Cole é impressionante. Ainda eu dividido em capítulos inominados, trata-se, na verdade, de um longo monólogo para o qual somos tragados e pelo qual somos carregados com muita facilidade. Durante o percurso -que, pelas andanças ricamente mapeadas, é literalmente um percurso-, Julius, o homem pós-identitário, vai revelando a identidade de Nova Iorque, soterrada em construções, histórias e esquecimento. O encadeamento de ideias, por vezes, parece seguir o fluxo aleatório do pensamento, até que chegamos, então, em algum lugar que nos mostra o artifício literário por trás da aparente aleatoriedade.

Paradoxalmente, é no fluxo livre de ideias que também está o ponto mais fraco do livro. Em certos momentos, as referências intelectuais deixam de ser as pedras que pavimentam o caminho para se tornarem meros recursos de afirmação cultural. O excesso por vezes cansa o  leitor. Parece ser uma vontade extremada de mostrar a adesão a certa agenda intelectual e, ainda que isso possa ser verdade em relação a Julius -e fazer parte de suas construção-, não deixa de também parecer um recurso talvez um pouco desesperado de Cole para marcar sua posição no cenário cultural.

As, digamos, “suspeitas” tornam-se ainda mais reais quando sabemos a biografia de Cole. Nascido nos Estados Unidos de pais nigerianos, cresceu na Nigéria, ama gora vive em Nova Iorque. As semelhanças com Julius não são nem um pouco negligenciáveis.

Mas as ressalvas são apenas ressalvas. “Cidade aberta” não deixa de ser um livro impressionante, ainda mais como primeira incursão de um autor novo. Faz com que queiramos ler mais textos de Teju Cole.

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