PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO, DE MATT REEVES

Aparentemente, “Planeta dos macacos: o confronto”, de Matt Reeves, é sobre a batalha entre seres humanos e símios. No entanto, o filme é muito mais sobre a disputa entre dois tipos de liderança: uma baseada na retórica, outra, baseada na força. Até por isso, os símios são o que o filme tem de melhor, pois é neles que se dá esse confronto interno -quase ético-, enquanto os personagens humanos são arquétipos, que servem apenas como espelho para a sociedade dos macacos, e acabam sendo o ponto fraco da obra.

O filme é uma continuação direta de “Planeta dos macacos: a origem”, de Rupert Wyatt, no qual vemos como o macaco Caesar começa a ter um superdesenvolvimento cerebral ao ser exposto a drogas para tratamento de Alzheimer. No processo, ele acaba liderando uma fuga de outros macacos, e uma das cenas mais impressionantes, no final, é quando Caesar fala. Já o novo filme apresenta um mundo em que grande parte da humanidade foi dizimada por um vírus criado em laboratório e transmitido justamente por macacos. Por outro lado, vemos um grupo de símios vivendo numa floresta nos arredores de São Francisco. Um diálogo dá o contexto: faz três anos que eles não veem humanos.

Até para ressaltar a sensação de que o homo sapiens foi extinto da Terra, o filme passa um bom tempo de seu início focado na sociedade que os símios construíram no mato. Caesar, o primeiro macaco a falar, acaba assumindo a liderança do grupo. Ele é o ser do discurso, seja pelas poucas palavras com as quais se comunica, seja pelos inúmeros sinais -devidamente legendados- com os quais se comunica. Os outros símios reconhecem a liderança exatamente pela capacidade de retórica que Caesar tem. É dele, por sinal, a lei de ouro da pequena sociedade primeva à qual assistimos: símios não matam símios. Ou seja, a violência dentro do grupo é interditada.

A beleza das abundantes cenas dos macacos é ressaltada pelo nível quase absoluto de realismo com que eles aparecem na tela. Tudo parece incrivelmente verdadeiro, desde o movimento de seus pelos ao vento até as faces incrivelmente expressivas que vemos na tela. Há vida nos olhos dos símios e há verdade nos sentimentos que eles mostram. Assim, acabamos nos afeiçoando à sociedade que eles criaram num recanto de mata, apartados da pretensa civilização.

Até por isso, o contraste com os humanos acaba sendo desfavorável a estes em todos os sentidos. Os personagens são chapados, sem profundidade. Na verdade, aparecem mais como tipos, para provar uma tese. Há o bondoso que quer resolver as coisas pela retórica. Há o ignorante que apela à violência por qualquer coisa. Dreyfus (Gary Oldman), líder de uma resistente comunidade humana, acaba sendo o personagem mais interessante, até por encarnar internamente tanto a liderança pela retórica quanto pela violência. É por ele que entendemos que a humanidade acabou por adotar ambas as formas, o que, de certa forma, contribuiu para sua queda. O embate com os macacos, portanto, acaba sendo inevitável.

Mais uma vez, no entanto, os símios saem em vantagem, pois há o personagem Koba, que foi usado como cobaia de experimentos e, por isso, guarda imensa raiva dos seres humanos. É entre avanços e recuos que ele vai levando a pacífica sociedade símia para a guerra. Mas Koba não é chapado. Ele tem profundidade, alterna-se entre o ódio aos humanos e o respeito à liderança de Caesar, a quem sempre pede perdão a cada ação excessiva que prática. Por sinal, protagonizam uma das grandes cenas do filme, em que se inverte a comum identificação segundo a qual nós sempre falamos de macacos em atos sociais: parecem humanos. Agora, é um macaco quem diz ao outro que, por causa da violência, parecem humanos.

Koba também protagoniza a mais reveladora cena do filme: aquela em que coloca uma arma nas mãos do jovem filho de Caesar. A expressão no rosto do herdeiro é fantástica. Por ela, vemos cair o paraíso idílico em que viviam antes os macacos. Não haverá retorno. Eles conhecerão a violência sem limites.

Os macacos do filme acabam sendo, portanto, tão cativantes que acabamos por torcer por eles. Até porque, em contraste, os seres humanos são personagens bem medíocres. Por sinal, a metafórica cena final espelha lindamente a, digamos, passagem de bastão sobre quem irá reinar na Terra, ainda que isso não esteja definido.

 

P.S: O crítico mineiro Pablo Vilaça tem uma posição muito interessante sobre o uso de 3-D. A crítica dele encontra um exemplo retumbante em “Planeta dos macacos: o confronto”, no qual praticamente não há uma cena na qual o recurso seja de fato utilizado. Para se ter uma ideia, fiz um teste e tirei os óculos: não havia nem mesmo aquela distorção básica das imagens em 3-D. Uma vergonha. Não assistam ao filme nesse formato.

 

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