ALABAMA MONROE, DE FELIX VAN GROENINGEN

“Alabama Monroe” é triste e tocante. Tão profundamente triste e tão agudamente tocante que a tristeza e a empatia que sentimos acabam funcionado como uma cortina de fumaça a encobrir os problemas do filme belga, dirigido por Felix Van Groeningen, com base em uma peça escrita por Johan Heldenbergh, que, por sinal, interpreta Didier Bontick. Veerle Baetens, no papel de Elise Vandevelde, completa o casal de protagonistas desta que é uma verdadeira montanha russa emocional.

Ambos têm características muito marcantes. Ele é um grandalhão fascinado pelos Estados Unidos e tem uma banda de blue grass, estilo derivado do country -cujo estilo de vida adota ao viver em uma fazenda caindo aos pedaços . Ela é uma pequena e bela tatuadora com o corpo cheio de desenhos. Ao se conhecerem, a atração é instantânea e, deve-se elogiar, a química entre os protagonistas é realmente magnífica, sendo um dos pilares que sustentam o filme. Quando ela fica grávida, Didier, a princípio, não aceita a ideia de ser pai. Logo, no entanto, ele embarca na aventura e eles se tornam pais da adorável Maybelle. Ainda criança, ela fica doente, e -vale dizer, a informação não é um spoiler- acaba morrendo. O filme então acompanha a maneira como o casal sobrevive -ou não- à desgraça que se abateu sobre eles.

Além do ótimo casal central, outro forte pilar de sustentação do filme é sua montagem. A história não é narrada de forma cronológica. Em vez disso, os tempos se alternam, mostrando hora os novos e felizes amantes, depois indo para as cenas de hospital, retornando então para mais momentos felizes, avançando depois para outra cena pesada. desta forma, Groeningen vai envolvendo os espectadores, hora tomados pela alegria, depois consumidos pela tristeza; num momento, encantados pela ternura, noutro, assustados pelo rancor.

O terceiro pilar é a trilha sonora e seu uso preciso nas cenas em que a banda toca, e que, de certa forma, metaforizam os sentimentos pelos quais os personagens centrais passam. O encantamento, a conquista, o amor, a dor, o desespero. Estas são apenas algumas das coisas que as tais cenas mostram com precisão invejável. Mais ainda, foi uma escolha para lá de certeira não encerrar o filme -e a mais dolorosa de todas as apresentações que vemos- com uma trilha triste, e sim com uma música agitada, quase épica, fugindo, assim, da manipulação fácil de sentimentos. É como se a mensagem final fosse uma celebração de tudo que houve de bom, e não um arrependimento por tudo que houve de ruim.

Se os três pilares ajudam a manter o filme de pé, algumas falhas causam incômodo. Por exemplo, a adesão entusiasmada de Didier à cultura norte-americana nunca é explicada. Até podemos conviver com isso, mas não com a total alienação do grandalhão com o ataque às Torres Gêmeas, um dos momentos mais traumáticos da história do país. Ainda mais quando, mais na frente, vemos que Didier acompanha a política norte-americana e sua guinada conservadora, com George Bush vetando pesquisas com células tronco, o que leva a um inflamado e disruptivo discurso do músico. Isso para não dizer que as pesquisas continuaram fortes na Europa. A adesão à cultura dos Estados Unidos, portanto, surge como algo acessório, apesar de ser tão importante.

Pior ainda é a falha do filme em explorar um de seus pontos mais interessantes. Didier é cético e Elise é espiritualizada, o que faz com que experimentem o luto de maneiras diferentes, até antagônicas, colocando-os por vezes em rota de colisão. Colocados os pressupostos de que há duas maneiras de ver o mundo em combate, as duas maneiras nunca são aprofundadas como poderiam ser, o que acaba levando a conflitos um tanto quanto mecânicos entre eles. É realmente uma pena que este ponto seja tão mal explorado.

O terceiro ponto fraco é os dois fortíssimos personagens centrais viverem cercados de outras pessoas nada aprofundadas. Isso fica patente principalmente com os membros da banda, que, em dado momento, parecem que vão ganhar vida, mas acabam sendo usados apenas como manequins para ilustrar cenas, não merecendo nem mesmo um risco de personalidade.

Três pilares, três pontos fracos. O saldo de “Alabama Monroe”, no entanto, é positivo. Não há como negar que é um filme pelo qual não se passa sem se carregar algo. A obra marca e, por isso, vale.

 

 

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