O LOBO DE WALL STREET, DE MARTIN SCORSESE

“O lobo de Wall Street” se equilibra em estranhos paradoxos: é um péssimo Martin Scorsese, com um ótimo Leonardo DiCaprio e uma grande cena final. Para piorar a situação, no entanto, o filme se estende por longas e desnecessárias três horas.

O filme conta a história real de Jordan Belfort, que começa a ganhar destaque no mundo das finanças, até se tornar um milionário perdulário que joga literalmente dinheiro pela janela e se esbalda em festas regadas a prostitutas e drogas. No meio do caminho, perde, de certa forma, a alma, substituída por tudo aquilo que o dinheiro compra. Além disso, ganha uma legião de seguidores, que o idolatram quase como um deus por sua capacidade de fazer fortunas às custas de pobres otários iludidos com a bolsa de valores.

A face chocante do filme é a maneira como Belfort gasta dinheiro -muito dinheiro, toneladas de dinheiro, como se não houvesse amanhã. E tudo isso fazendo negócios lícitos e ilícitos -o que ressalta o primeiro tropeço do filme: a preguiça em explicar o esquema ilegal em um filme que gasta preciosos minutos com coisas infinitamente menos importantes.

No tom e nos diálogos dos primeiros 120 minutos, Scorsese parece estar emulando, de certa forma, o estilo de um Quentin Tarantino, cruzado com o estranho “Medo e delírio em Las Vegas”. Mas essa não é a praia do diretor. Só que ele parece ter percebido que o público gostaria mesmo é de se esbaldar em risadas com uma infinidade de cenas absurdas do cotidiano de Belfort. Funciona bem no começo. Mas, em algum momento, vai ficando cansativo e repetitivo, até beirar o quase insuportável.

Depois de jogar o tom lá em cima, “O lobo de Wall Street” vai lá para baixo ao abordar a parte jurídica da trama, na qual Belfort se complica com as autoridades. No terço final, o filme praticamente rasteja. E, como se não bastasse o erro grotesco de tom, há ainda o problema de o ótimo e multidimensional personagem de Leonardo Di Caprio estar cercado de figuras de papelão, com a profundidade de um pires, o torna ainda mais absurda todas as três horas gastas. Vejamos.

O filme esboça um antagonista no personagem do policial que investiga o investidor. Mas, depois de aparecer por alguns minutos, o homem da lei some das telas por um tempão. Ele não é desenvolvido, não sentimos nenhuma empatia com ele, nada. Da mesma forma com os colegas mais próximos de trabalho, que acabam se tornando mais tipos do que personagens, e isso vale até para Jonah Hill, que concorre a um inexplicável Oscar por fazer basicamente o que sempre faz. A esposa de Belfort, então, é encarnada pela belíssima e insossa Margot Robbie, e, lá pelas tantas, toma decisões que soam gratuitas e inexplicáveis no contexto do filme. O lado positivo -se é possível falar que haja algum- é que, único pilar do filme, Di Caprio se desdobra e consegue entregar uma grande atuação. O ator está de fato muito bem, e não será surpresa se levar sua tão esperada estatueta.

Para não dizer que “O lobo de Wall Street” é um desastre completo, a última cena é fantástica -ainda que não valha a espera. Ao espelhar a plateia na tela, é como se Scorsese cobrasse de nós o julgamento moral que o estupefato público dentro do filme não faz. Mas acaba logo o único momento brilhante da obra. Ainda assim, fica a sensação de que “O lobo de Wall Street” não se constrói nem como retrato da época em que se passa, nem como metáfora dos tempos atuais.

A questão que fica nem é por onde andará o ótimo cineasta de “Os bons companheiros” -que tem uma miríade de personagens muitíssimo bem criados- ou mesmo de filmes mais recentes e menos brilhantes, como “Ilha do medo”. “O lobo de Wall Street” não é ruim dentro do contexto da obra do cineasta -o que, afinal, poderia render algo até apreciável. É ruim no contexto do cinema como um todo.

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Um Comentário

  1. Ótimo post!

    Conseguiu descrever exatamente todos os meus pensamentos sobre o filme. A demora e o cansaço foram extremos e eu optei por pará-lo e assistir a cena final no youtube.

    Porém não consegui achar na internet (até chegar a esse post) uma pessoa que tivesse coragem de falar que na real o filme é ruim, independente das cenas de sexo e etc, ele é ruim por todo o contexto


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