NINF()MANÍACA – VOLUME 1, DE LARS VON TRIER

É estranho escrever sobre um filme do qual se viu apenas metade, ainda mais quando se sabe que ele foi feito para ser uma coisa só, mas acabou dividido porque, bem, quem aguenta mais de quatro horas dentro de uma sala de cinema nos dias de hoje. De qualquer forma, há sim coisas a se dizer sobre a primeira parte de “Ninf()maníaca”, de Lars Von Trier, que tem a ingrata missão de suceder a obra prima anterior do diretor, o maravilhoso “Melancolia”. E deve-se dizer que, por enquanto, a atual obra do dinamarquês sai perdendo feio na comparação.

O filme começa com o solitário Seligman (Stellan Skarsgad) encontrando uma mulher, Joe (Charlotte Gainsbourg), arrebentada em um beco. Ele quer chamar ajuda, ela se nega e diz que mereceu o que lhe ocorreu. O homem a leva para casa e a mulher passa a contar sua história, que começa com ela afirmando que descobriu sua buceta aos dois anos de idade. O que se segue é uma espécie de educação sexual de Joe, passando por diversos episódios. E a grande falha do filme vem exatamente da maneira como ele desenvolve sua estrutura episódica.

Enquanto Joe vai contando o o desenvolvimento de sua vida sexual, Seligman vai oferecendo metáforas intelectuais às quais os acontecimentos são ajustados. Aqui, aparecem os números de Fibonacci; ali, a música de Bach; em outro momento, técnicas de pesca. O problema nem é tanto a ideia de se tentar colocar ordem no caos contado pela mulher. O caos, por sinal, tem sido bem presente na obra de Von Trier -o fim do mundo em “Melancolia”, a raposa que proclama “Chaos reigns” em “Anticristo”. A questão é a forma mecânica como o diretor mostra o homem tentando domar a impulsividade da mulher. O recurso se repete e se repete até se tornar cansativo e previsível, e a escolha formal de contar a história desta maneira enfraquece a obra ao torná-la demasiado esquemática.

A grande qualidade da obra, por sua vez, é não entregar aquilo que vem sendo prometido desde que o diretor afirmou, em Cannes, que seu próximo filme seria pornográfico. Os primeiros trailers e imagens reforçaram a ideia de muito sexo e perversão. O que temos, no entanto, é uma obra na qual o sexo é incrivelmente frio. Joe não transa para si e/ou para o outro, mas contra si. Basta ver o rosto da mulher durante os atos -e sua face é sempre focalizada. A expressão dela é algo que vai além do blasé -é como se ela não estivesse ali. O que só torna mais perturbado o fato de tantos homens se esbaldarem de prazer com ela, gozando tantas vezes. Habitualmente acusado de misantropia, Von Trier faz, isso sim, um comentário muito incisivo sobre como os homens podem ser absolutamente alheios ao que acontece à mulher durante o sexo.

Não sabemos porque Joe é assim, ainda que no começo ela se declare uma pessoa má. Nesse sentido, ela se assemelha muito ao personagem do filme “Shame”, que também, à primeira vista, nos parece um ninfomaníaco, mas que, na verdade, usa o sexo como um tipo de válvula de escape para algo que não sabemos ao certo o que é. E ele também é descrito como “broken”. Pela narrativa de “Ninf()maníaca”, no entanto, aprendemos que a relação de Joe com a mãe era fria, e que ela tinha grande admiração pelo pai. Ela chega a ficar molhada ao vê-lo no leito de morte -é fácil, portanto, recorrer a Freud. Von Trier, no entanto, trabalha muito mais na chave do simbolismo do que do realismo, e tal interpretação seria uma saída muito fácil.

Fato é que a frieza de Joe se reflete no filme, todo construído em tons mais escuros e opacos, sem brilho. O ápice da postura distante de Joe é quando a esposa de um de seus amantes praticamente invade sua casa com os dois filhos do casal, para mostrar às crianças onde o pai delas transa com a jovem. A traída é feita por uma quase irreconhecível e excelente Uma Thurman, e a cena é antológica. Enquanto a emoção transborda por todos os lados, uma impassível Joe assiste a tudo com um toque de enfado. Nada disso seria possível sem uma ótima atriz interpretando a jovem Joe, e a novata Stacy Martin equilibra com perfeição um ar de inocência, com toques de enfado, sensualidade e um distanciamento gélido no olhar.

A verdade é que não é possível ainda avaliar o que é de fato “Ninf()maníaca”. A primeira parte termina com “cenas dos próximos capítulos”, dando a impressão de que Joe vai mergulhar profundamente em seus experimentos sexuais. A esperança é que Von Trier supere o esquematismo da primeira parte para que aquilo que foi apenas bom corresponda ao brilhantismo da obra do diretor dinamarquês.

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