A GRANDE BELEZA, DE PAOLO SORRENTINO

Em 1960, parte do mundo ocidental vivia a euforia do pós-guerra. Era tempo de economia galopante e de consumo desenfreado de produtos, pessoas e cultura. A festa estava à toda. Naquele mesmo ano, o italiano Federico Fellini lançou “A doce vida”, obra visionária que preconizava a crise que viria no decorrer da década, e deixava um recado: aproveitem ao máximo, pois a festa está para acabar. Mais de 50 anos depois, o também italiano Paolo Sorrentino conta o que aconteceu depois que a festa terminou. “A grande beleza” é ao mesmo tempo pulsante e melancólico, belo e repulsivo, lírico e convulsivo. Um filme que se constrói em cima de uma decadência profunda e das pessoas que ainda querem prolongar um tempo que se foi.

A história gira em torno do escritor Jep Gambardella (encarnado por um magistral Toni Servillo), que escreveu um livro de grande sucesso décadas atrás e, depois, não fez mais nada. Ainda vivendo dos louros de sua obra solitária, Gambardella passa seus dias entre o trabalho -escrever matérias meio ridículas para uma revista editada por uma anã- e as noitadas. É um jornalista que vive em Roma e frequenta festas, exatamente como Marcello Rubini, personagem principal de “A doce vida”. Esta não é a única coincidência: as duas obras também se constroem de maneira episódica.

Apesar de tantas coisas em comum, existe uma diferença fundamental entre elas. Rubini sente a decadência que se avizinha, mas não consegue expressar de fato o que acontece. Encontra-se num estado cada vez mais melancólico por saber que vive num tempo em vias de extinção. Gambardella, por outro lado, tem uma posição muito mais realista sobre o seu redor. Sabe que vive num mundo decadente, cercado de pessoas vazias, e não perde a oportunidade para mostrar isso seja para seus colegas de vida social -como na magistral cena em que ele detona uma mulher que se considera intelectualmente superior por ser engajada e ter publicado mais livros-, seja diretamente para o público. Apesar de percebido pelos amigos como feliz, Gambardella é também um melancólico, mas não pelo que sente, mas sim pelo que sabe. A morte de sua ex-esposa o coloca, enfim, em uma espiral de questionamento. O que ele fez de si mesmo? Ele, que veio à Roma sorver a grande beleza, acabou sorvido pela cidade.

Os nossos também são tempos mais cínicos. Em “A doce vida”, pode-se dizer que todos viviam na ilusão, e Marcello apenas pressentia o que estava acontecendo. Já no filme de Sorrentino, os estranhos personagens que desfilam pela tela parecem saber que vivem num mundo decadente, mas não se importam. Se não, o que dizer da militante que, como dissemos, Gambardella humilha durante uma festa? No filme de Fellini, há um filósofo, Steiner, que consegue racionalizar o que está por vir. E se mata. Já a militante é desancada pelo escritor naquilo que ela tem de mais essencial: sua política sua família. Por um instante, achamos que ela também vai se matar. Ledo engano. O que restou da festa tem de continuar, e ela até vai aparecer dançando com Gambardella mais para frente.

“A grande beleza” é, por sinal, um enorme desfile de figuras estranhas -fellinianas, até.E aí começam a surgir os problemas do filme. Ocorre que, afora Gambardella, todo mundo que aparece na tela é plano ou profundo como um pires -tipos. Apenas o escritor tem essência. Além disso, o formato episódico mostra-se, por vezes, cansativo. Sente-se que há coisas que poderiam ser suprimidas sem prejuízo, como toda a parte em que Gambardella se envolve com uma striper de 40 anos, filha de um antigo amigo seu de boemia.

Por outro lado, Sorrentino empilha imagens de uma Roma maravilhosamente noturna. Ele enche o filme de passeios surpreendentes por obras de arte, tudo embrulhado por uma trilha sonora de cair o queixo. É impactante o contraste da cidade com o interior do apartamento em que sua ex-esposa -a qual ele descobriu que nunca havia deixado de lhe amar- passou seus dias. Enquanto lá fora pulsa a beleza da história, lá dentro o viúvo dela está cercado de móveis horríveis e decoração kitsch. Mas ele está feliz ao lado de uma nova companheira, ao contrário de Gambardella e seu olhar que transita entre a excitação e o descontentamento.

Se há uns 30 minutos de filme que poderiam ser suprimidos, os 30 minutos finais são redentores. O filme vai em um crescendo lento e empolgante na parte final. Paradoxalmente, é da boca de uma velhíssima missionária -santificadamente isolada em um filme onde sobram pauladas também para o clero- que vão sair pouquíssimas, mas belas, palavras. São quase uma ordem para Gambardella, que se volta a uma espécie de fugere urbem contemporâneo. Mais do que sair da cidade, no entanto, ele precisa é se voltar para si mesmo, ele, que carrega o mar. Neste sentido, “A grande beleza” é um mergulho mais depressivo do que “A doce vida”, mas acaba com uma nota mais otimista do que seu antecessor.

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