AZUL É A COR MAIS QUENTE, DE ABDELLATIF KECHICHE

“Azul é a cor mais quente” é um filme sobre a ascensão e queda do amor entre duas pessoas, o que havia antes e o que restou depois. Mais ainda, é também sobre a educação sentimental de uma das partes do casal, a jovem Adèle (magistralmente interpretada pela novata Adèle Exarchopoulos), que, no começo da história, é uma colegial, e termina professora anos depois. Não à toa, o título original é “A história de Adèle – capítulos 1 e 2”, o que, por sinal, marca seu afastamento do quadrinho com o mesmo nome em português, da francesa Julie Maroh, do qual foi tirado o esqueleto de sua história, mas não a carne e a alma.

Ainda assim, a grande discussão acabou girando em torno das cenas de sexo -uma delas dura 7 explícitos minutos -, e das críticas que as atrizes fizeram depois ao diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechice. Adèle voltou atrás em suas palavras, mas Léa Seydoux -também fantástica como Emma- não arredou o pé do debate. Pena, pois é uma obra incrível que vai muito além das -muito necessárias, diga-se de passagem- cenas de sexo.

O filme começa em uma sala de aula, onde alunos discutem um romance do século XVIII, falando justamente sobre o significado da troca de olhares entre duas pessoas que se desejam e o que isso significa. O clima, portanto, já vai sendo preparado para o primeiro encontro entre a colegial Adèle e a universitária Emma. Quando se cruzam em uma rua, trocam olhares tão magnéticos que é como se uma força maior atraísse subitamente as duas jovens uma para a outra. Mas, se Emma demora a aparecer no filme, ela também demora para reaparecer. Enquanto isso, Adèle vai avançando sua educação sentimental.

Primeiro, começa a se relacionar com um colega mais velho da escola, com quem vai para a cama -basta ver o olhar de Adèle para perceber a decepção com a experiência. Depois, uma outra colega a beija, mas quando Adèle procura a amiga para beijá-la novamente, ela se nega, pois tudo não passou de uma experiência inocente. Enquanto isso, a jovem estudante conserva na memória o brevíssimo, mas impactante, encontro com Emma, a universitária de cabelos curtos e revoltosamente pintados de azul. Por fim, Adèle cede ao desejo e vai atrás de Emma em um bar gay -por sinal, a ousadia deste passo contrasta com o evidente desconforto que a jovem estudante sente num ambiente ao qual não está acostumada. E isto é Adèle -impulsos e recuos.

Adèle e Emma se encontram, mas deixam que o tempo haja sobre elas. Muita conversa e muito flerte antes que algo ocorra. Kechiche vai criando, assim, o clima para o momento pelo qual todos esperamos cada vez mais: o tão desejado beijo entre ambas. Até por isso, é tão impactante um momento anterior em que o tal beijo não acontece. O clima que o cineasta cria é totalmente familiar para qualquer um que já tenha se apaixonado -a espera, a vontade, o frio na barriga, a alegria do ato. O golpe de mestre é fazer com que nós, do outro lado da tela, embarquemos na mesma expectativa das duas jovens, a ponto de que, quando elas se beijam, é possível viver, qual uma memória retomada, todos os sentimentos de um primeiro beijo. E corta-se direto para a tão falada cena de sexo.

Admito: não faço ideia de como é o sexo entre duas mulheres. Mas, com certeza absoluta, o que Kechiche filma não é pornografia, como acusaram alguns. Para começar, porque a cena não é excitante de maneira pornográfica. Ela é, isso sim, lindíssima, urgente e, principalmente, catártica. Tendo o tempo a seu lado -e não custa lembrar que estamos falando de um filme de quase três horas-, o diretor vai represando entre as duas mulheres todo um desejo e toda uma paixão que explode na tela naquela cena crua de sexo. E a sacada é justamente não colocar nada entre o beijo esperado e o sexo desejado, nem mesmo carícias ou o despir. Passa-se do flerte intelectual para a ação puramente emocional. Ali não está só o sexo, mas sim um oceano de coisas inomináveis que elas foram erguendo entre e para si. Daí o caráter catártico da cena, que tem lá seus momentos eróticos e até cômicos, mas que termina em um lindíssimo e silencioso abraço, que não nega o que está acontecendo -e o que está acontecendo é amor.

Kechiche, por sinal, escapa da discussão sobre relacionamentos homoafetivos. Ainda que tenha cá e lá seus momentos militantes -uma participação na parada gay, o questionamento de Emma sobre a relutância de Adèle em assumi-la para seus colegas de trabalho- , como o diretor mesmo disse, não quis fazer um filme sobre um amor homossexual, mas sim um filme de amor. E pode-se dizer que ele conseguiu. Com a mesma intensidade que filma a ascensão, ele também filma a queda.

Existe um abismo a separar a duas jovens: Emma, artista, frequenta um mundo intelectualizado e seus pais liberais comem ostras e bebem bons vinhos. Já Adèle quer ser professora primária, e a pièce de résistance culinária de seu pai é macarrão à bolonhesa, prato que sua família devora hipnotizada por uma televisão.

Dando um salto na história, o filme apresenta as duas já morando juntas, e Adèle prepara um banquete para conhecer os amigos de Emma. A jovem faz, justamente, macarrão à bolonhesa, e não esconde o seu enfado com o papo pretensioso dos amigos de sua mulher, que, por sua vez, tenta mostrar o lado artista da companheira, insistindo em como ela escreve bem e que deveria mostrar sua “arte” para os outros. Paradoxalmente, Adèle, que não hesita em posar nua para Emma, diz que seus escritos são particulares. Dessa tensão entre expectativas sociais e intelectuais começam a surgir as fissuras que vão levar ao fim.

Assim como na subida, a descida também é reconhecível. A intensidade da dor, as esperanças frustradas de resolução, o sentimento de que nada mais importa. A principal característica do filme é sua franqueza em relação a tudo isso, nada é disfarçado, o choro é alto, cheio de lágrimas e mucos.

Por ser focado em Adèle, vemos apenas a sua parte no fracasso da relação. Kechiche nos nega o papel de Emma em tudo isso. No entanto, podemos deduzir que ela também tem lá sua parcela de culpa no que aconteceu. No entanto, mesmo que vejamos de muito perto toda a dor de Adèle, não conseguimos culpar uma ou outra pelo sofrimento.

Durante o caminho tortuoso, Kechiche vai criando passagens incríveis. O longo e delicado flerte no parque; as cenas de sexo; o fim; a tentativa desesperada de reconciliação; o olhar surpreso de Emma quando uma pessoa elogia o trabalho como educadora de Adèle -a primeira vez em que a artista reconhece a arte da ex-amante. O tom é naturalista, a música só existe quando é ambiental.

E, se a crueza é a marca do filme, ela não seria possível sem o par certo de atrizes. Adèle e Léa são pura beleza e entrega. A primeira, especialmente, faz de maneira magnífica a transição entre a confusa adolescente e a mais experiente -ainda que relutante- professora, uma mudança que é também física e feita nos detalhes. A cena em que ela participa de uma festa escolar é particularmente tocante. A jovem professora quer desmoronar, nós sabemos disso, mas lá dentro, ninguém sabe. É quase um alívio quando ela finalmente está sozinha e se entrega a um choro convulsivo.

Kechice filme suas atrizes de muito, muito perto. Este é um dos pontos mais criticados no diretor, junto com as cenas de sexo. Alguns o acusaram de puro voyerismo, um homem expondo suas atrizes ao desejo seu e alheio. Vejo de forma diferente: um diretor que tem uma ternura enorme pelas duas personagens de seu filme. Até porque, se na proximidade filma a bela boca semiaberta de uma adormecida Adèle, ele também filma essa mesma boca devorando avidamente alimentos, e seu rosto coberto de lágrimas e seu nariz escorrendo.

A proximidade faz com que o público crie com elas uma intimidade. Por vezes, a vontade é entrar na tela e dizer a Adèle que tudo vai ficar bem -ainda que saibamos que isso não necessariamente é uma verdade. Por isso, há algo de doloroso com a forma como o filme termina, com a jovem se afastando, sozinha, de costas para o público.

O filme não é de Kechiche. É, também, de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Cannes soube reconhecer isso em 2013, ao conceder ao trio a Palma de Ouro, que, pela primeira vez, foi dividida pelo diretor e seu elenco. E, de fato, o que eles entregam é um filme à flor da pele, que faz valer cada um de seus muitíssimos minutos, que passam sem percebermos. É impossível passar incólume por “Azul é a cor mais quente”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s