O NÁUFRAGO, DE THOMAS BERNHARD

O canadense Glenn Gould foi um dos maiores pianistas da história. Sua gravação das Variações Godlberg, de Bach, em 1955, (aqui na versão que ele regravou em 1981) mudou a face da interpretação pianística. O intérprete, no entanto, foi se afastando cada vez mais dos concertos ao vivo -e da humanidade como um todo-, e morreu vítima de um derrame em 1982. Era um privilégio inesquecível ter assistido a uma de suas apresentações. Menos para dois ex-colegas de Gould num curso com o também grande pianista russo Vladimir Horowitz. Para eles, ouvir Gould ensaiando as Variações Goldberg teve consequências nefastas -e até trágicas: Wertheimer se matou pouco depois da morte do canadense. É o inominado sobrevivente do trio quem conta, na obra do austríaco Thomas Bernhard, a história desse encontro e as consequências posteriores do contato com um gênio incontestável.

No epílogo, o escritor-narrador registra: “Um suicídio calculado com grande antecedência, pensei, e não um ato espontâneo de desespero”. Três breves parágrafos, então, colocam alguns parâmetros da obra: Glenn Gould era um amigo; era também “o mais importante virtuose do piano deste século”; cria-se um espelho invertido entre Gould -que “morreu uma morte natural”- e Wertheimer -que se matou; coloca o piano no centro do texto. Segue-se, então, um quarto, último e longuíssimo parágrafo. O impressionante é como esse longo discurso do inominado narrador consegue ser totalmente tortuoso, mas absolutamente fluido. Os tempos se alternam, fatos misturam-se com digressões, os lugares vêm e vão. Seria muito fácil se perder, e a metáfora do labirinto vem fácil à cabeça.

Na verdade, “O náufrago” é uma montanha russa: subimos, descemos, viramos para cá e para lá, mas nunca saímos dos trilhos. O carro dessa montanha russa nos leva pelas percepções subjetivas de um narrador inominado sobre os 28 anos de amizade entre ele, Wertheimer -nunca sabemos seu primeiro nome- e Glenn Gould, único personagem totalmente nomeado -e real, muito real. Os três eram jovens estudantes de piano quando se conhecem em um curso no conceituado instituto Mozarteum. O narrador deixa bem claro que Wertheimer era muito bom, e afirma que ele mesmo era muito bom -poderiam ambos ser virtuoses. Mas não gênios. Gênio era apenas Gould. E eles souberam reconhecer isso de imediato, e esse fato faz com que, anos depois, ambos larguem o piano para se dedicarem a preocupações mais etéreas.

Em sua visão subjetiva, o narrador mostra Wertheimer como uma espécie de anti-Gould. Até mesmo no piano que tocam: o primeiro usa um Bösendorfer, já o segundo, um Steinway -como o narrador, por sinal. O texto chega a ter linhas e linhas com uma listagem enorme mostrando as diferenças entre o pianista-que-não-foi e o pianista-que-foi. No entanto, o narrador também nos mostra como eles eram parecidos. Ambos de famílias ricas, não conseguiam viver longe de cidades, mas foram se afastando cada vez mais das pessoas, indo parar em idílicas propriedades rurais por questões de saúde. É quase como se Wertheimer fosse um Gould de uma realidade paralela.

É curioso ver o lugar em que o próprio narrador se coloca. Como contador da história -e ele fala de um projeto que tem há muito de escrever um livro chamado “Sobre Glenn Gould”; seria “O náufrago”?-, a visão do narrador é, claro, totalmente subjetiva. Assim, ele diz que Wertheimer só pode reconhecer a genialidade de Gould -o que foi sua ruína- por ser ele mesmo muito bom. O narrador, no entanto, também se descreve como excelente ao piano, mas não se coloca como fatalmente afetado por reconhecer a genialidade do canadense, ainda que também tenha largado o instrumento depois.

Assim como Wertheimer, o narrador também se afasta do lar; assim como Wertheimer, ele também tinha uma relação conflituosa com os pais, e usou o piano como uma espécie de arma contra eles; assim como Wertheimer, o narrador também era um solitário, pois, apesar de ressaltar isso no amigo, ele mesmo nunca fala sobre alguma relação com outro ser. Se despeja, portanto, muitas palavras afiadas e abrasivas sobre Wertheimer -a quem, no entanto, reconhece sempre como um amigo-, o narrador é sempre muito condescendente consigo.  

A solidão dos personagens -e as problemáticas relações humanas que eles estabelecem- também parece ligar os três. Wertheimer e Gould se afastaram de todos, refugiando-se no campo. O narrador, por sua vez, foge para uma ensolarada Madrid. Em comum, a quase total ausência de relações deles com outras pessoas. Quase porque o narrador descreve com detalhes excruciantes a relação tirânica que Wertheimer tinha com sua irmã, a quem tratava quase como uma escrava, até que ela consegue “fugir”, casando-se com um odioso suíço. A fuga desestabiliza de vez Wertheimer, que, não só pela saúde, acaba buscando abrigo na distante casa de caça de sua rica família. O ex-pianista retira-se da sociedade, mas, naquela distância, mantém relações esporádicas e mecânicas com a dona de uma pousada. Não por acaso, o narrador, já morto Wertheimer, também vai se encontra com essa mulher -que, assim como a irmã, a outra mulher do livro, é pintada com tintas muito pouco lisonjeiras.

“O náufrago”, pelo que narra e pela maneira como narra, poderia muito bem ser um livro repulsivo. Suas palavras são, de fato, muito fortes, ásperas, quase cortantes. Uma permanente névoa de rancor paira sobre o discurso do inominado narrador. Ainda assim, o difícil é mesmo largar o livro. Ler “O náufrago” é uma experiência deliciosamente exasperante, pois sabe-se que ali há muita inteligência na rudeza das palavras.

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