VINICIUS DE MORAES, DE VINICIUS DE MORAES

O poetinha nasceu há 100 anos. Mais do que a obra, parece-me que é a vida de Vinicius de Moraes o que se celebra. Dele, já se disse que foi um dos poucos poetas que viveu efetivamente como poeta. Não é apenas isso, acho eu, que tanto atrai na figura dele, mas sim o fato de um dia não ter vivido como poeta. Ele não teve sempre a vida desvairada de um Rimbaud ou de um Leminski -ou de um maduro Vinicius. Muito pelo contrário, no começo da vida era um autor bem parnasiano, quase acadêmico, de um catolicismo arraigado -ainda que boêmio. Estava mais para a chatice cotidiana de um Carlos Drummond de Andrade -ainda que etílico.

A grande viagem de Vinicius -e que o torna uma figura tão atraente- é que, num determinado momento, ele começou a tomar totalmente as rédeas de sua vida. Foi assim que ele começou a deixar para trás certo ranço clássico de seus escritos, e passou a olhar para fora de seu gabinete de trabalho. E foi assim também que ele conseguiu se tornar o “homem que rasga o coração”, homenageado na ótima “Como dizia o poeta”.

Nesse arco de evolução e de tomada do comando, Vinicius empilhou amigos e mulheres. Conheço poucos que não gostariam de ter o privilégio de tomar umas com o poetinha. Conheço poucas que não gostariam de ter um tempinho com aquele que curtiu muitas paixões. Há mesmo quem gostaria simplesmente de ser Vinicius de Moraes.

Curioso que nesse caminho em que os sentimentos foram emergindo à flor da pele, muitos são os depoimentos dos amigos e amigas sobre o quão fiel ele foi. Muitos, também, são os elogios à coragem de um homem que se permitiu viver muitos amores -todos como se fossem únicos, últimos-, mas pouco se fala sobre o outro lado dessas paixões -as mulheres amadas e depois abandonadas. Fico sempre com a impressão de que o grande amigo e grande amante deve ter sido um ex intolerável, que deixou um rastro de rancor em corações alheios, até pelo tamanho que sua figura foi adquirindo.

Curiosamente, de todos os depoimentos que eu já li e ouvi, a única parente que se refere a Vinicius da maneira rasgadamente apaixonada que lhe seria típica é sua filha mais nova, Maria, cuja mãe é a única mulher que o poeta não abandonou -pois ele morreu antes. O depoimento dela está no especial do Estadão (aqui) sobre o artista, e contrasta notavelmente com certo mecanicismo emocional do texto de outra filha sua no mesmo caderno. Curiosamente, o Estadão também traz outro texto, de Sérgio Augusto (aqui), sobre a primeira esposa de Vinicius, e a sensação persiste -ser ex do poeta era árduo.

Com todos esses paradoxos de sua vida íntima -ser fiel como um cão para muitos, ser distante para poucos- o que fica é a impressão de que a maior obra de Vinicius de Moraes é Vinicius de Moraes. A arte e o viver cada vez mais malemolentes se desenvolveram simultaneamente, mas é o fato de tomar cada vez mais controle de seus desejos -talvez deixando-os justamente tão incontroláveis e à flor da pele- que permitiu ao poeta ser quem ele foi e fazer o que ele fez. E dele se pode dizer que morreu justamente de tanto viver -basta ver suas imagens no fim. E, ainda que muita gente tome de fato os rumos de suas vidas, são poucos que o fazem para viver de maneira tão…aventureira.

O Vinicius que começou de terno alinhado e cabelos bem cortados terminou a vida de bata, chinelos e cabelos desgrenhados. Essa é a grande obra dele, e por isso o admiramos tanto e celebramos os 100 anos de seu nascimento.

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