INTERIORES, DE WOODY ALLEN


Não é nenhum segredo a grande admiração de Woody Allen por Ingmar Bergman. O norte-americano chegou até a contar com o lendário diretor de fotografia Sven Nykvist -o gênio por trás de “Persona”, “Gritos e sussurros” e muitas outras obras primas do cineasta sueco- em alguns de seus filmes, como “A outra” e “Crimes e pecados”. A admiração é tanta que, quando Woody Allen foi fazer seu primeiro filme “sério”, tentou criar um clima bem bergmaniano. E o grande pecado de “Interiores” é tentar ser justamente mais Bergman do que o próprio Bergman.

O filme narra a história de três irmãs. Renata -Diane Keaton- é a escritora genial e autocentrada; Joey -Mary Beth Hurt- é a irmã perdida, que ainda não encontrou seu caminho; Flyn -Kristin Griffith- é uma sexy atriz que espera a grande chance enquanto faz pequenos papéis. As três se veem às voltas com a surpreendente separação dos pais já maduros, processo que acaba por jogar a mãe delas, Eve -Geraldine Page-, em um crescente processo de loucura. É nesse cenário de instabilidade que as irmãs são obrigadas a restaurar uma convivência que nunca foi boa entre elas.

Não é a toa que o filme se chama “Interiores”. Por um lado, Eve foi, em seu auge, uma grande decoradora de interiores de residências, função que ela exercia tanto com muito esmero quanto com um autoritarismo quase militar. Suas escolhas não deveria ser contestadas, ela era a maestrina da ordem -tanto em seu trabalho, quanto em sua família. Paradoxalmente, o processo demencial faz com que ela entre em contato agudo com seu próprio interior, criando um processo obsessivo em relação a seu ex-marido, cuja volta ela espera. Ele precisa voltar, pois só isso restabelecerá a ordem na família.

O que Eve não percebe é que essa família é desconjuntada, e isso se reflete justamente nas filhas. Cada uma a seu modo, nenhuma delas está em paz com seu interior. E isso se reflete não só na relação delas com a mãe, mas na convivência de umas com as outras. É como se elas servissem de espelhos de seus problemas e de seus fracassos. Não há como surgir uma convivência saudável disso, mas ela precisa existir, por causa da nova situação familiar.

O que Woody Allen cria é uma verdadeira roda viva de ressentimentos e coisas não ditas, sempre com um tom muito filosófico, quando não professoral. É Allen tentando ser Bergman. Os ecos estão por todos os lados. Relacionamentos complicados entre irmãs, como em “Gritos e sussurros”. O tema da loucura, como em “Através de um espelho”-por sinal, assim como nesse filme sueco, o grande surto de Eve acontece na praia. Enfim, esse é um momento em que Woody Allen pegou emprestada uma outra voz para falar -o que nunca dá muito certo.

Vale dizer que ele pegou emprestada uma voz porque, na verdade, a leveza por trás de muitos filmes do diretor “esconde” a seriedade com que ele aborda diversos assuntos. E essa é a sua voz. Ou alguém vai dizer que não existe muita seriedade por baixo da aparente leveza de filmes como “Annie Hall” e “Manhattan”?

Mas nem tudo está perdido, e Woody Allen reutilizou muitas coisas de “Interiores” em seus filmes posteriores, sendo a mais óbvia delas a estrutura dividida entre irmãs problemáticas que depois apareceu em “Hannah e suas irmãs”. Sem falar que, depois desse breve desvio bergmaniano, o diretor soube filtrar de maneira mais sutil a influência do grande diretor -veja ecos em filmes como “Crimes e pecados”, ou “Matchpoint”-, e Woody Allen voltou ao que melhor ele sabe fazer: ser Woody Allen.

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