TABU, DE MIGUEL GOMES

 

Descrição direta de “Tabu”, filme do diretor português Miguel Gomes: a primeira parte é narrada em off e conta a mítica história de um suicídio cerimonial; a segunda parte é centrada em uma senhora católica e sozinha e suas duas vizinhas, uma idosa senil e sua monossilábica empregada; a terceira parte também é totalmente narrada em off, sem diálogos. Ah, e o filme é em preto-e-branco. O que pode parecer uma imensa cilada à primeira vista é, na verdade, um grande filme poético salpicado de simbolismos e ousadias estéticas nem um pouco entediantes.

A tal primeira parte mitológica é narrada pelo próprio diretor. Conta, rapidamente, a história de um explorador português perdido em algum canto de alguma colônia africana de Portugal. Após perder a mulher amada, ele vaga pelo mato na companhia de uma tribo. O olhar do homem, sempre encarando a câmera, é triste e profundo. Ele encena uma cerimônia e se joga em um rio para ser devorado por um jacaré. O primeiro som direto do filme é justamente a dança que os nativos fazem após o sacrifício. Começam a circular, então, histórias de uma mulher que aparece do nada acompanhada de um jacaré. Essa espécie de prólogo estabelece algumas premissas importantes para o filme. O amor vai ser importante. O jacaré vai reaparecer em vários outros momentos, seja presencialmente, seja como alusão. O que veremos vai estar muito carregado de simbolismo.

Essa ideia de simbólico é reforçada na segunda parte, chamada “Paraíso perdido”, e que começa com um corte brusco da floresta para, justamente, uma sala de cinema, onde vemos a figura solitária de Pilar (Teresa Madruga), como se, de certa forma, ela também estivesse assistindo ao prólogo. Não estamos mais em um lugar não-identificado durante um tempo não-determinado. Agora estamos na Lisboa contemporânea -e em crise- nas vésperas da virada do ano. Aqui, o tempo será contado dia a dia. E, no seu transcorrer, vamos conhecer a relação da solitária e católica Pilar com sua vizinha idosa e senil Aurora (Laura Soveral) e sua rígida e pouco falante empregada, Santa (Isabel Cardoso).

É muito curiosa a dinâmica de aproximação e afastamento entre elas. Aurora sente-se cercada por sua empregada, a quem acusa de fazer rituais de magia contra ela. Pilar, por sua vez, solidariza-se com a senil senhora, e tenta ajudá-la a superar suas limitações e seu vício no jogo. Já Santa é uma espécie de bastião de sua patroa, de quem cuida como se isso fosse o maior dos deveres. De certa forma, é Santa quem media a relação de Aurora com o mundo, inclusive com sua filha ausente, que mora no Canadá. Muitas podem ser as referências ao “Paraíso perdido”. Portugal está em decadência. A própria Aurora, em paradoxo a seu nome, está no fim de sua vida. E, quando esse final se aproxima, uma delirante Aurora fala num jacaré e pede que encontrem um certo Gianluca Ventura (Henrique Espírito Santo). Pilar encontra o tal homem, mas não a tempo: a idosa morre antes de encontrar o misteriosos homem. Em uma floresta significativamente artificial dentro de um shopping, Ventura revela quem é e qual sua relação com Aurora.

Começa, então, a parte lírica da história, e que é chamada “Paraíso”. Narrada em off por Ventura, conta a história da jovem Aurora (Ana Moreira), que vivia uma vida confortável em uma grande propriedade aos pés do monte Tabu, na Moçambique ainda sob o julgo português. A África era a terra do recomeço, e é para lá que se dirige o jovem Ventura (Carloto Cotta). O jacaré reaparece, e é por causa dele que Ventura e Aurora se conhecem e passam a viver um ardente romance. Ela, no entanto, é casada, e, ainda por cima, está grávida. O tempo, que se desloca agora em meses, vai encaminhar o desfecho para uma tragédia.

Se a primeira parte tem reflexos no resto do filme, a terceira não deixa de explicar a segunda. Entendemos muito mais a postura de Aurora e sua relação com a empregada e com a filha. Ao mesmo tempo, o “Paraíso” ser localizado na África colonial poderia denotar certo saudosismo do diretor em relação ao império português decaído. O paraíso, no entanto, não é tão paradisíaco assim, e a história se encaminha para uma tragédia, apesar de muitas vezes parecer um sonho. A ausência do negro nessa parte também dá uma ilusão de saudosismo colonialista, mas, na verdade, os africanos estão no fundo da história, apenas esperando para tomar de assalto a primeira cena. E aproveitam justamente a tragédia do amor para pegar a direção de sua história.

Gomes também se mostra um grande esteta. A fotografia em preto e branco é lindíssima. O tempo é brilhantemente desdobrado entre a não existência da primeira parte, a aproximação diária da segunda e a contagem mensal da terceira. Além disso, o cinema mudo do “Paraíso”, junto com a voz em off, dá a ideia de que estamos assistindo à imaginação visual de Pilar, ao mesmo tempo que ouvimos a história contada por Ventura. Não por acaso, há som direto também nessa parte muda, mas é sempre de uma banda que toca: Pilar conhece a música e pode colocá-la em sua imaginação visual. E, até nessa parte, Gomes oferece uma visão crítica do colonialismo português, sendo feito por um povo ele mesmo colonizado, como mostra o rock ´n´ roll tocado em plena África. O império já estava em decadência.

“Tabu” é, de fato, um grande filme, daqueles que enchem os olhos. Não por acaso, levou o prêmio da crítica no Festival de Berlim de 2012. Vale o tempo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s