FRANCES HA, DE NOAH BAUMBACH

É praticamente impossível não se encantar com Frances Haliday (Greta Gerwig). Ela é espontânea, deliciosamente abobalhada, tem olhos expressivos, é linda, é dançarina e passa por uma grande crise em relação a seu lugar no mundo que nos faz ter vontade de abraçá-la e dizer que tudo vai ficar bem. Ou seja, é uma personagem perfeita, digna de emprestar parte de seu nome ao título do filme de Noah Baumbach, que ganhou fama com o ótimo “A lula e a baleia”. Então, por que “Frances Ha” não funciona?

O problema é que, apesar de todas as qualidade latentes, os personagens são unidimensionais e os diálogos -escritos por Baumbach e Gerwig- são vazios. E não vazios enquanto forma de mostrar alguma coisa em relação ao que se assiste na tela. Eles são apenas vazios, não levam a lugar algum, a não ser à banalidade. Isso só faz com que os espasmos de inteligência ou ironia de um ou outro personagem fiquem deslocados e caricaturais, e soem como um enorme esforço.

Para não dizer que está tudo perdido, o filme tem dois grandes momentos. Em uma festa, enquanto Frances conversa com pessoas que já estão com a vida resolvida, a nossa perdida personagem principal só faz se embananar com colocações deslocadas, que dão uma grande sensação de vergonha alheia. Isso cria o clima para o grande grito de socorro que ela dá, ao descrever o que, para ela, significa o amor. É uma bela descrição sobre a importância do olhar e de tudo aquilo que duas pessoas constroem juntas e que é ignorado pelo resto do mundo. Esse momento realiza-se de certa forma no final do filme, na longa troca de olhares que Frances tem com sua grande amiga Sophie -já sabemos de tudo entre elas.

Frances é uma personagem deslocada em sua própria vida, e isso nos atrai muito. Ela está no meio do caminho entre a adolescência e a vida adulta, perdida no limbo entre esses dois extremos. (E quem nunca se sentiu deslocado?) A “involução” da personagem é engenhosamente mostrada pelos “capítulos” em que o filme é dividido, sempre levando em conta as mudanças de lar de Frances. Ela começa morando com Sophie; passa a morar com dois desconhecidos, até chegar ao fundo do poço -o dormitório de sua antiga universidade. Ela toca um dos extremos, e de lá sai para alcançar o outro. Mas a chegada à, digamos, idade adulta é resolvida de maneira tão abrupta, que parece que ela sempre teve a opção de tomar o caminho que tomou. Assim, a vontade de abraçá-la e consolá-la que temos em vários momentos transforma-se apenas na vontade de dizer: porra, por que você não decidiu fazer isso 45 minutos antes?

Além disso, “Frances Ha” usa um certo vampirismo cinematográfico que pode incomodar. Nova Iorque filmada em preto e branco. Huum, “Manhattan”, do Woody Allen? Bastidores do mundo da dança. Que tal “De corpo e alma”, de Robert Altman? Mocinha dançando feliz e espontaneamente pela rua ao som de uma música legal. Acho que já vi isso em “Billy Elliot”… Pessoa deslocada na própria vida enquanto a melhor amiga vai resolvendo seu caminho. “Missão madrinha de casamento” -isso mesmo!-, que tratou muito melhor do assunto.

Por fim, “Frances Ha” é mais um daqueles filmes com aura indie, feito para ser apreciado mais pelo que parece ser do que pelo que efetivamente é. Se fosse colorido, seria muito menos incensado.

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Um Comentário

  1. Pensando friamente, concordo contigo com sua crítica.

    O que me pegou no filme foi uma certa leveza e um ritmo extremamente agradável, que me fez quase ignorar os “porquês” de muitas coisas no roteiro e na fotografia. Talvez o mérito dele seja um pouco esse (ritmo agradável etc etc).

    De qualquer modo, concordo com esses pontos em relação ao roteiro e o gratuito “preto e branco”.


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