ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Se a vida não é o que a gente vive, mas o que a gente lembra, aí vai uma lembrança: quando criança, arrastava pela casa uma grande e pesada caixa cheia de gibis da Turma da Mônica e de personagens da Disney. O meu destino predileto era a sala na qual meus pais ficavam vendo televisão ou lendo. Nesse cômodo, há uma estante com muitos livros. Entre os livros, há uma edição de “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Exupéry. E existe, então, o momento decisivo em que meu pai colocou esse livro nas minhas mãos e, sobre ele, venho erguendo uma infinita torre com tudo o que eu li desde então. Isso é o que eu lembro.

Claro que “O pequeno príncipe” não foi o primeiro livro que eu li, mas foi o primeiro a me tratar de maneira adulta. Foi como se uma porta tivesse sido aberta, algo que só uma obra no limite da ingenuidade, como aquela, poderia fazer. Sim, sejamos sinceros, a história do pequeno príncipe é de uma ingenuidade incrível e, passado algum tempo, vemos como algumas de suas frases mais famosas -“tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”- podem ter até algo de profundamente perturbador. Por outro lado, o fato de Saint-Exupéry entregar frases desse tipo, e que podem ser lidas e parcialmente entendidas por uma -ainda ingênua- criança é o grande feito do escritor-aviador. No livro, é o garoto quem tem muito a ensinar ao adulto, uma reversão absoluta daquilo que toda criança achava ser uma verdade até então.

Por outro lado, o livro também atrai adultos por essa característica. A obra -que já foi pejorativamente chamada de literatura de miss- atrai muitos adultos exatamente por essa ingenuidade primordial. É como se, ao lê-lo, retomássemos contato com um outro tempo, no qual acreditávamos piamente naquelas frases -“tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”-, como um mantra. E, se agora as repetimos, isso se deve muito à saudade de algo que ficou irremediavelmente para trás. Primeiro lemos “O pequeno príncipe” como um presente para o adulto que seremos; depois, como um tributo à criança que um dia fomos.

O que mais atrai na literatura de Saint-Exupéry é que ele faz aquilo que Vinicius de Moraes recomendou na música “Como dizia o poeta”: ele rasga o coração. O francês sempre anda na corda bamba entre o sentimental e o sentimentalismo. A qualidade dele vem justamente do fato de ele nunca perder o equilíbrio. Há sempre muita emoção, mas sempre no limite, e é até surpreendente que não tenha ainda surgido algum livro de auto-ajuda no estilo “o que eu aprendi com o pequeno príncipe”. Saint-Exupéry está a milhares de quilômetros de distância da fina flor das letras francesas da época, marcada por um intelectualismo exacerbado que, se tinha muito público naquela época, hoje encontra espaço bem reduzido na planície -ainda que ocupe lugar de honra no Olimpo. Já “O pequeno príncipe” volta e meia ronda as listas dos mais vendidos -o que não significa nada de importante, diga-se a verdade.

Foi pelas mãos do príncipe, por sinal, que eu cheguei a outros escritos de Saint-Exupéry, como “Correio sul” e “Terra dos homens”, igualmente marcados por um sentimentalismo exacerbado. Na última obra, por exemplo, há alguns momentos maravilhosos, como o velho piloto que passa dicas subjetivas, mas necessárias, ao novato, ou a queda de avião sobrea montanha africana nunca explorada, na qual uns poucos homens formam uma espécie de comunidade primeva sob um céu de estrelas. Esses livros ainda tinham uma característica marcante para a pré-adolescência ainda marcada pelos devaneios -são grandes histórias de aventura.

Saint-Exupéry foi um daqueles pioneiros da aviação, que faziam voos às cegas sobre os Andes, que lamentavam a sorte dos amigos que não voltavam, que cruzavam continentes em frágeis máquinas voadoras. Até que ele mesmo nunca mais voltou de uma expedição de reconhecimento durante a 2ª Guerra Mundial -da qual participou, por sinal, como voluntário, pois era considerado velho demais -44 anos- para pilotar aviões de combate.

Assim, “O pequeno príncipe” é uma ótima porta de entrada para o mundo da literatura -bela história, por um venturoso homem. Não sei ao certo se meu pai agiu intencionalmente ao me colocar em contato com o livro. Só sei que ele sempre expressou grande admiração pela obra -até mesmo com um certo brilho nos olhos, que eu dificilmente via -e vejo- nele. E nunca houve uma imposição. É quase difícil até falar em uma sugestão. Ocorreu sim um cuidadoso -pensado?- trabalho de propaganda da parte dele, até que eu finalmente pegasse o livro e começasse a me tornar o leitor que eu sou hoje.

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