O SOM AO REDOR, DE KLEBER MENDONÇA FILHO

Uma das grandes aventuras sociais do século XX foi o acelerado processo de urbanização. Ao transportar enormes contingentes populacionais do campo para a cidade, ele teria desestruturado modos arcaicos de vida, que seriam substituídos por modos, digamos, mais modernos. O que “O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, mostra é que essa não foi necessariamente a regra. E o brilhantismo do filme é fazê-lo de forma tão inteligente e sútil. A sutileza é tanta que é preciso esforço para descrever o enredo do filme. Parece mais haver uma série de acontecimentos aparentemente banais, mas o que importa está de fato no fundo. E o que está no fundo é que, por vezes, o arcaísmo foi simplesmente transplantado inteiramente para o ambiente urbano.

Não se engane com as descrições que se leem por aí, e que resumidamente falam algo como “o filme mostra o que acontece quando um grupo de seguranças chega a uma rua”. A obra é bem mais do que isso, ainda que de fato a questão da segurança esteja lá, nas grades onipresentes, nos muros dos prédios e nos pequenos delitos que ocorrem.

Pode-se dizer que há outras duas histórias em paralelo à da equipe de segurança. Em uma, vemos a relação entre João (Gustavo Jahn) e Sofia (Irma Brown). Em outra, temos o dia-a-dia de Bia (Maeve Jenkings), uma entediada dona de casa. Mas, se há um enredo de fato, ele conta mesmo a história do constante embate entre o arcaico e o moderno. João, por exemplo, faz parte de uma família comandada por seu avó, Francisco (Waldemar José Solha), um homem com saudades de seu tempo de engenho, onde fez dinheiro, mas que age como um verdadeiro patriarca ao modo antigo na cidade. Ele é dono de grande parte dos imóveis da rua, e a família gira toda em torno desse homem e de suas posses. João representa em si essa luta. Viveu em Berlim -o moderno-, mas voltou para o Recife e para o seio familiar -o arcaico-, para viver uma vida confortável, mas que odeia. Ele é corretor dos imóveis da família.

Nada é tão exemplar sobre o que é a rua quanto o primo de João, neto de Francisco. Ele é o trombadinha da via, e quando a equipe de segurança liderada por Clodoaldo (Irandhir Santos) chega aparentemente para botar alguma ordem no local, o patriarca logo avisa que o neto é intocável. Mais ainda, o próprio jovem vai até os seguranças e diz: a rua é da minha família. O público está privatizado.

Já a família de Bia aparece como uma espécie de tentativa de fuga para o moderno. Ela fica em casa, passando horas de tédio, aliviadas com maconha e uma máquina de lavar. Mas seus filhos fazem aulas de inglês e chinês, seu marido assiste a programas franceses. Enquanto isso, ela se irrita com o cachorro do vizinho que insiste em uivar durante a noite, o animal. Muitas outras passagens representam o embate principal, como a mulher que vai ver um apartamento, mas usa um argumento tradicional -a má energia do prédio por conta de um suicídio- para um ato moderno -pedir desconto no aluguel.

O filme é povoado de grandes cenas metafóricas. Os passos de Francisco na casa do engenho -apenas ouvido, mas não visto- ressaltam a presença fantasmagórica do passado. Mas o passado não é apenas atraso – também pode ser bom, e, por isso mesmo, digno de ser lembrado com alguma melancolia na medida em que vai sendo destruído. É isso o que ocorre quando Sofia visita a antiga casa em que morava e que vai ser demolida -e ela toca o céu de estrelas de suas infância. E é isso o que acontece quando o tio de João -mais um preso na teia de poder familiar- olha com melancolia para a “rua da família” e a imagem é substituída por uma foto em preto-e-branco, de tempos, talvez, mais simples.

No fim, o passado é mesmo trágico, como o banho de sangue que João toma no engenho. E é essa tragédia que vai se abater sobre Francisco no final, quando ele é visitado pela violência dos tempos idos que, longe de ter ficado lá pelas bandas rurais, o perseguiu até a cidade. O sentimento de vingança não foi aplacado pelo movimento modernizador.

Por sinal, o final é o ponto mais fraco do filme. “O som ao redor” é um oásis de sutileza em uma linha de cinema de autor brasileira muito marcada pelo impacto. Aqui não há impacto, e tudo ocorre dentro de seu tempo -o que, por vezes, pode ser confundido com lentidão. Mais ainda, ninguém grita. E, como se sabe, as interpretações viscerais -Fátima Toledo- dão aqui lugar para interpretações muito contidas, e, por isso mesmo, excelentes e fora do padrão do cinema nacional, mas de total acordo com o tom do filme. Por isso mesmo, destoa o fim abrupto e um tanto quanto mecânico em uma obra que é tão orgânica e pautada.

Mas esse pequeno problema não tira a consideração final: “O som ao redor” é um grande filme, talvez um dos melhores da retomada, e que, se tudo der certo, poderá fazer sua própria linhagem no cinema nacional, tão marcado pelo antagonismo entre o padrão Globo e a marca do cinema de autor.

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