O LADO BOM DA VIDA, DE DAVID O. RUSSEL

Quando lançou “Três reis”, em 1999, o diretor David O. Russel se tornou um dos nomes mais interessantes de Hollywood. O também muito bom “O vencedor”, de 2010, parecia justificar essa fama. “O lado bom da vida”, no entanto, é um filme bem abaixo daquilo que se poderia esperar de alguém como ele. É basicamente uma comédia muito convencional, e com uma abordagem de problemas psicológicos para lá de questionável.

O filme começa com Pat -Bradley Cooper, mostrando que pode ir um pouco além de “Se beber, não case”- saindo de um hospital psiquiátrico. Ele só sai porque sua mãe, Dolores -Jacki Weaver-, assinou um termo se responsabilizando judicialmente pelo filho. Ele estava internado por surrar quase até a morte o amante de sua mulher. Pat é bipolar. Tentando retomar sua vida na casa da família no subúrbio, ele só pensa em reconquistar a ex-mulher, tentando fazer de tudo para provar a ela que ele é um novo homem. Enquanto isso, Pat ainda tem que lidar com o pai, Pat Sr. -Robert De Niro, que parece ter tentado relembrar vagamente o que é interpretar em um filme-, um excêntrico bookmaker, com fixação em futebol americano e cheio de manias. Paira, em casa, uma não-explicada doença que seu pai talvez tenha e da qual se trata, até por isso ele seria um sujeito com tantas manias.

Na estrada para retomar a vida, Pat tromba com Tiffany -Jennifer Lawrence, linda, muito boa e séria candidata ao Oscar-, uma jovem viúva que pirou ao perder o marido. Ela dormiu com todo mundo no trabalho após a tragédia, e agora usa a dança como forma de superar a perda. E assim forma-se um dos mais típicos núcleos dos filmes “independentes” norte-americanos: o casal disfuncional. Juntos, claro, eles vão superar seus problemas, não sem antes passarem por uma série de situações cômicas e dramáticas, afinal, trata-se de uma comédia dramática.

A questão é que o problema de Pat vai um pouco mais além do que um mero trauma. Ele é bipolar, ele é doente e deveria tomar seus remédios para poder conseguir ficar de fora do hospital. E ele não toma. E Tiffany, claro, ajuda ele a se “curar” sem a ajuda de remédios, com o poder do amor. Clichê, clichê, clichê, acompanhado até do clichê dos coadjuvantes politicamente corretos: um negro, um latino e um indiano. E, nesse caso, os clichês são até perigosos, pela mensagem subliminar por trás: o amor pode até mesmo superar uma doença grave.

O filme é incrivelmente esquemático em sua evolução e, por isso mesmo, vai perdendo força conforme vai chegando o final. O esquema, claro, faria com que a competição final de de dança, que antes tinha um significado apenas para Pat e Tiffany, ganhe dimensões épicas. E o que se segue é de um obviedade gritante, só superada pela cena final mais do que esperada. Enfim, um caminho muito pobre para quem um dia já comandou um filme como “Três reis”, que se destacava, entre outras coisas, pela trama muito bem feita.

No fim, “O lado bom da vida” é apenas um feel good movie, mas com o problema moral da forma como encara a bipolaridade. Sai-se dele com o coração cheio de bons sentimentos, mas que logo passam. O ponto alto, no máximo, são as interpretações. Cooper surpreende saindo de sua zona de conforto habitual, que são as comédias escrachadas -mas nem saindo tanto assim, pois aqui há também comicidade-, e Jennifer Lawrence crava seu nome como uma das artizes a se observar, desfilando beleza e alguma competência interpretativa. Longe, muito longe, no entanto, de Emanuelle Riva, cuja interpretação em “Amour” está acima de qualquer crítica. Por isso, há grandes possibilidades de Lawrence repetir o Globo de Ouro e levar o Oscar.

E que venha um novo filme de Russel para limpar essa pequena mancha em seu currículo.

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