DJANGO LIVRE, DE QUENTIN TARANTINO

As primeiras reações à história de “Django livre”, de Quentin Tarantino, foram de que o filme seria um “Bastardos inglórios” da escravidão. De fato, é uma obra sobre a escravidão -talvez, a mais contundente feita sobre o tema nos últimos tempos-, mas está longe de ser uma cópia do filme anterior de Tarantino. “Bastardos inglórios” tinha o próprio cinema como um de seus eixos principais, e era fundamentalmente catártico -vide as risadas dos nazistas ao ver o filme que celebra um de seus soldados, e a reação do público na sala ao ver o massacre desses mesmos nazistas. “Django livre”, por sua vez, é a obra mais política do diretor, e nunca a violência -um dos destaques de sua filmografia- foi tão bem usada para passar uma mensagem: a escravidão é um horror.

O filme conta a história de como Django -muito bem interpretado por Jamie Foxx- vai atrás de sua esposa, também escrava, com a ajuda do dr. King Schultz -o fora de série Christoph Waltz-, um alemão caçador de recompensas disfarçado de dentista. Em um primeiro momento, o negro é libertado pelo branco, que odeia a escravidão, e passa a ajudá-lo em sua caçada a criminosos procurados. Em um segundo momento, é o branco quem vai ajudar o negro a achar sua esposa, vendida ao desprezível Calvin Candie (Leonardo Di Caprio, igualmente bom), que se especializou em comprar escravos especialmente para usá-los em lutas que vão até a morte de um deles.

Os habituais diálogos afiados de Tarantino estão lá. A trilha sonora apurada também, assim como a pilha de referências cinematográficas (Django foi personagem de um spaghetti western da década de 1960). Já a violência, outra das marcas do diretor, é diferente de tudo que ele já filmou, mais estilizada, mais bruta, mais sangrenta, mais explícita. Ou seja, sempre muito perto do inaceitável para o espectador. Mas isso se justifica: ele mostra uns Estados Unidos pré-Guerra Civil e a situação brutal da escravidão. Nesse cenário, algumas cenas se destacam, como a do escravo que é devorado pelos cachorros e a dos dois negros lutando até a morte para o deleite dos que veem. Dessa maneira, Tarantino mostra um país que tem a violência em sua raiz. Tanto é assim que Schultz percorre os Estados Unidos matando, mas sempre sob a proteção da lei. Ele mata criminosos, procurados vivos ou mortos: e o alemão os prefere mortos -e ele é um agente do Estado.

Por sinal, utilizar Waltz no filme, ainda mais como um alemão -ainda que não houvesse propriamente Alemanha na época em que o filme se passa- foi um risco, mas que se mostrou acertado. O ator havia encarnado o terrível oficial nazista Hans Landa em “Bastardos inglórios”, papel que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante. Colocá-lo de novo em cena, e ainda num personagem com trejeitos muitas vezes tão parecidos com o anterior, não deve ser, no entanto, um mero acaso. Tarantino parece comentar: o alemão, tão desprezível em meu filme anterior, é um farol de luz neste. Ou seja, os bárbaros de hoje eram os iluministas de ontem, e vice-versa. Mais uma vez, um cometário que vai ao âmago do espírito norte-americano. E, ao lado de Schultz, a personagem mais culta é a mulher da Django, Broomhilda von Shaft -Kerry Washington- (Shaft como o popular herói negro dos filmes da década de 1970, depois reencarnado por Samuel L. Jackson), que, criada por um casal de origem germânica, é ela mesma uma falante fluente do alemão, o que o nome não esconde. Mesmo Django vai adquirindo uma aura de sofisticação com suas roupas e o processo autodidata de alfabetização. Aos brancos, apenas a ignorância e o obscurantismo.

A crítica mais contundente que o filme recebeu veio justamente de um dos grandes militantes vivos da causa afro-americana, o cineasta Spike Lee. Basicamente, ele ficou chocado com o uso da palavra “nigger”, pejorativa em inglês. “Não vi e não gostei” foi a posição do diretor, que nem assistiu ao filme. Pois é justamente essa palavra que ajuda a dar contundência a “Django livre”. Proibida hoje pelos manuais da correção política, era usada sem freios no passado. Não faria sentido fingir que ela não existia. Assim como não faria sentido Tarantino não colocar uma série de outras situações, algumas tragicamente cômicas, como aquela em que os brancos assistem embasbacados ao negro montando um cavalo -eles nunca tinham visto um negro montando um cavalo.

É uma pena, pois Spike Lee perde a oportunidade de ver passagens metafóricas sensacionais, como, por exemplo, o sangue branco, derrubado por um negro, “lavando” o algodão e a casa grande, dois grandes símbolos do que os brancos construíram derramando justamente o sangue negro. Mas talvez o diretor e militante ficasse incomodado com a verdadeira libertação final -também metafórica- não só de Django, mas de todos os escravos: o momento em que o negro livre mata o negro cativo e subserviente (Samuel L. Jackson, habitué dos filmes de Tarantino). É aí que o personagem de Foxx vai contra a teoria de Candie, de que os africanos seriam biologicamente submissos e incapazes de se rebelar -vale dizer, uma teoria que realmente existia na época.

É muito bonito, por sinal, como Django vai crescendo na história. Ele, que no primeiro momento caminha acorrentado, quase nu, no frio e no escuro, que fala pouco e baixinho, vai se transformando. Escolhe suas roupas, alfabetiza-se, cria um “negócio” -o de caçar bandidos por dinheiro-, passa a ser confiante. Ele toma seu destino em suas mãos. É o protótipo do mitológico “self made man” norte-americano. Já Schultz, tão confiante no início, vai se enfraquecendo, tomado pelo nojo da escravidão conforme vai se afundando nos confins das terras de Candie -a Candyland.

Tarantino tinha uma missão muito difícil: fazer o sucessor do ótimo “Bastardos inglórios”. E em tudo o diretor conseguiu ser bem sucedido. Não utilizou a mesma estrutura narrativa -“Django livre” é mais linear sem necessariamente ser mais convencional-, nem o mesmo mote -em último caso, a vingança. E, ainda por cima, fez um belo líbelo político. Tarantino chegou ao topo e lá se manteve.

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