NO, DE PABLO LARRAÍN

“No”, do chileno de Pablo Larraín, é uma obra política despolitizada sobre um personagem despolitizado cercado de política. Se os paradoxos parecem irreconciliáveis, é justamente deles que vem a força do filme, que se passa em um dos momentos mais dramáticos da história do Chile: o plebiscito que acabou botando fim à sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, que subiu ao poder em 1973, depois de um sangrento golpe, instaurando um regime marcado pela tortura e morte de oposicionistas.

Sob pressão internacional, o ditador chamou o plebiscito para legitimar seu governo. Os votantes deveria votar “sim”, para a continuação do regime, e “não”, para seu encerramento. A confiança de Pinochet na vitória era tão grande que, pela primeira vez desde o golpe, a oposição teve direito a, por 15 minutos por dia, ter um tempo na televisão para falar o que quisesse. O filme mostra justamente a campanha pelo “não” e o envolvimento nela de René Saavedra (encarnado na medida por Gael García Bernal), um jovem e bem sucedido publicitário. E, exatamente por ser tão bom, é chamado por um dos coordenadores da campanha para dar uma consultoria em relação ao material até ali produzido.

Atendendo ao clichê básico de quem trabalha com publicidade, Saavedra é muito bom para vender produtos, mas não quer saber de política. O mais interessante, no entanto, é que a política o cerca. Sua ex-mulher, oposicionista ferrenha, vive tomando borrachadas e sendo presa em manifestações. Mais ainda, sabemos, de passagem, que o pai de Saavedra participou também da oposição a Pinochet. Isto o legitima a propor uma linha de campanha que vai na direção contrária  daquilo que queriam os organizadores: com mais alegria, com menos raiva. Ou seja, para vencer a batalha política, seria preciso despolitizar a primeira aparição pública da oposição desde 1973, pois era necessário enfrentar não só o lado contrário, mas também a descrença geral com o plebiscito. Antes de querer vencer a eleição, era preciso fazer as pessoas votarem. Ou melhor, fazer as pessoas consumirem uma ideia. Ele escapa do tom confrontacionista que a oposição queria dar e cria uma campanha alegre -cujo lema é “la alegria ya viene”- para convencer os eleitores sobre os novos tempos que virão. O jingle é tão contagiante que é realmente difícil não sair da sala cantarolando.

Saavedra tem, ainda, um “inimigo íntimo”: Lucho Guzmán (Alfredo Castro) seu chefe, o dono da agência de publicidade para a qual trabalha e que coordena a campanha pró-regime. Ele sim um homem político, tanto que fica espantado com o envolvimento de Saavedra no plebiscito e dá uma baile no jovem ao falar das disputas políticas em jogo. Guzmán, no entanto, sabe que seu pupilo é muito bom, e passa o filme inteiro tentando fazê-lo abandonar a campanha. Chega até a propor sociedade na agência. Mas Saavedra resiste. Não porque seja político, mas porque quer superar o mestre na concorrência.

O caminho mais óbvio seria o despolitizado Saavedra ir ganhando consciência política no decorrer do filme. Mas Larraín escapa desta armadilha. Não existe nenhum momento de epifania no qual o jovem publicitário bate no peito, veste a camisa da campanha e desfila em praça pública. E uma passagem verbal, repetida três vezes, é o indicador perfeito do que acontece com o publicitário. No começo, ele faz um discurso sobre como a sociedade chilena se modernizou, e está demandando coisas novas: Saavedra está apresentando uma campanha de refrigerante. Depois, usa o mesmo discurso para apresentar o conceito que quer aplicar à campanha do plebiscito. Por fim, novamente o mesmo discurso para apresentar a campanha de outro produto. O “no” já havia ganho, e Saavedra pouco havia comemorado. Mas aqui, algo mudou. Há uma hesitação no publicitário que não existia na primeira vez em que ouvimos aquelas mesmas palavras. Não é preciso jogar na cara do espectador o que aconteceu, pois ele sabe.

Uma grande sacada de Larraín para acentuar o ar documental do filme é usar uma textura de imagem praticamente igual àquela dos programas noticiosos da época. Em dado momento, chegamos a perder a noção sobre o que é novo e o que é de época. Desta forma, o diretor consegue encaixar as propagandas originais do período sem dar um ar de estranheza em quem assiste. Parece de fato que estamos vendo as campanhas como se elas fossem novas. Assim, é como se Larraín passasse um espanador, tirando o pó do tempo de cima daqueles período, para nos mostrar o quão importante foram aqueles dias.

As opções estéticas e a história muito bem contada convenceram os jurados em Cannes, e o filme ganhou o prêmio da “Quinzena dos Realizadores” em 2012. Agora, a obra tenta voos maiores: é o representante chileno no Oscar. Ganhando ou não, o que importa é que “No” é um belo filme sobre um período conturbado do Chile, e, sem dúvida, nós aqui, que também tivemos nossa ditadura, deveríamos aprender uma ou duas coisas sobre como lidar artisticamente com nosso -terrível- passado político.

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