ATAQUE AO CUME

Livros são inescapavelmente físicos. Sentimos seu cheiro ao abri-los, carregamos seu peso -aqui o real, não o metafórico-, nós os seguramos das mais inimagináveis maneiras, assistimos às páginas lidas aumentarem e às páginas a ler diminuírem, vemos sua estrutura ganhar as marcas do tempo, passamos até arderem os olhos por suas letras. Ler um livro é intelectual, mas também físico, inescapavelmente físico.

Escalar também é físico. Nunca escalei e nada entendo desse esporte. No entanto, um dia li sobre o ataque ao cume. O ataque ao cume é o momento em que o alpinista faz sua última parada e planeja com cuidado a subida final ao topo da montanha. Ler é físico e, para mim, assemelha-se muito a escalar, com ataque ao cume e tudo.

Começamos da base, meio sem ver o que há muito à frente. Enxergamos apenas as coisas mais imediatas. Vamos subindo, deixando para trás uma trilha de lembranças que carregamos conosco -um aprendizado que nos ajuda a seguir em frente. Pé ante pé, folha após folha, vamos subindo. Alguns livros são como pequenos morros; uns parecem mais uma leve ladeira; outros são como um Everest, um K2. Passei por muitos morretes, mas tive meu Everest. Coincidências à parte, ele se chamava “A montanha mágica”.

Nunca na vida demorei tanto para escalar um livro, e nem foi o mais longo que eu li. Mas algo nele, talvez o próprio fluxo interno do tempo, fazia com que o tempo também passasse lento do lado de cá das páginas. Galguei com calma as letras, até que cheguei em um momento em que soube: era hora do ataque ao cume.

Este momento não é medido em páginas. É um sensação: daqui não há mais volta, ou se vai até o fim, ou se fica no meio do caminho. E bem sabemos o que ocorre com quem fica no meio do caminho em uma escalada. Não me lembro de já ter ficado no meio do caminho, de ter falhado em um ataque ao cume. Quando abandono a subida, é sempre logo no começo, para não sofrer um esforço que não vale a pena. Mas ali estava eu, já vendo o topo. Preparei-me e fiz meu ataque ao cume. Finquei minha bandeira ao chegar e vi Hans Castorp desaparecendo em meio à convulsão da guerra.

É isso o que vemos quando chegamos no topo. O fim. Mas também o meio e o começo, pois, ao contrário do alpinista, sempre podemos olhar para trás e ter uma visão completa do caminho percorrido. No cume, no entanto, faço como o escalador. Respiro fundo, olho em volta, vejo a vista, penso na escalada. Mas, ao contrário dele, não sou obrigado a descer. Muito ao contrário, o pico desta montanha é a base daquela.

Novos caminhos, outros esforços e sempre um novo cume à frente para atacar, pois é para o alto que se vai.

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