INTOCÁVEIS, DE OLIVIER NAKACHE E ERIC TOLEDANO

 

Ao chegar ao Brasil, “Intocáveis”, de Olivier Nakache e Eric Toledano, já havia feito 20 milhões de espectadores na França. Agora, é o filme francês mais visto no exterior em todos os tempos. Com 23 milhões de espectadores pelo mundo, superou o sucesso de “O fabuloso destino de Amélie Poulain”. Além disso, é o candidato do país ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Todo esse sucesso vem de uma história baseada em fatos reais, temperada com muita espontaneidade e destituída de traços melosos de sentimentalismo. E sentimentalismo é uma armadilha fácil para uma história como a que é contada.

Philippe (François Cluzet) é um milionário que ficou tetraplégico em um acidente de parapente. Ele precisa de alguém que o ajude o tempo todo. Driss (Omar Sy e seu sorriso enorme) é um desempregado de origem senegalesa, que quer apenas um carimbo em seus documentos para provar que buscou emprego e, assim, ganhar ajuda do estado. Mas ele acaba contratado por Philippe.

A primeira cena do filme é um resumo do que será o resto. Driss dirige à toda um carrão pelas ruas de Paris, com Philippe a seu lado curtindo a viagem. Os dois agem como colegas. Quando a polícia os para e age com violência em relação a Driss, Philippe simula uma convulsão. Como é tetraplégico, os policiais acreditam e escoltam o carro até o hospital. Está tudo ali: a camaradagem entre os dois, a complacência de quem está de fora, a marginalidade social de Driss.

O que Philippe não quer é a pena dos outros. O que Driss lhe oferece é uma espontaneidade à flor da pele. O sentimentalismo fica do lado de fora, sem que se evite o sentimento, que é coisa bem diferente. O filme bota para rir com as tiradas de Driss, como o momento em que ele derruba água quente no milionário, que nada sente. E a risada nunca é de canto de boca, mas sempre alta, até mesmo com algumas observações pouco politicamente corretas em relação à tetraplegia de Philippe. Mas é exatamente isso que torna o filme tão humano e atraente. Driss não vê um tetraplégico, e Philippe não fica se amargurando.

Como nem tudo são flores, o roteiro tem lá seus problemas. Um deles é a trama fraca que afasta Driss de Philippe, um lance que fica solto na história. Outro, é a relação pouco profunda entre o milionário, a filha e o ajudante, ainda que renda algumas passagens hilárias. Por outro lado, a cena em que Driss dança no aniversário de Philippe -o momento em que ele rompe de vez a casca de sisudez daquela casa milionária- é antológica. A química entre os dois atores é a grande joia do filme.

Outra sacada interessante dos diretores é alternar a câmera aberta na casa gigante com a câmera fechada no lar superpovoado em que vive a família de Driss, dando um pouco da dimensão claustrofóbica de um pequeno apartamento habitado por muita gente.

Apesar de todo o sucesso e de escapar de algumas armadilhas fáceis, “Intocáveis” não é exatamente um grande filme, como alguns dizem por aí, daqueles que ficam conosco muito depois de assisti-lo. Além disso, fica a sensação de que em nenhum momento a obra toca fundo no nervo exposto da presença do imigrante na sociedade francesa. Há algo aqui, outro ali, mas o problema mesmo nunca é enfrentado de frente. O filme é, assim, muito agradável de ver, compensa o tempo na sala, mas sem causar nenhum tipo de sensação maior. É bom entretenimento, o que, por sinal, parece bem de acordo com suas ambições.

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