A VISITA CRUEL DO TEMPO, DE JENNIFER EGAN

Em um primeiro momento, pode-se pensar que o mote de “A cruel visita do tempo, de Jennifer Egan, é: o tempo destrói tudo. Mas, na verdade, o mote é mesmo: o tempo age sobre tudo. E o tempo é o grande personagem desse livro vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011.

A obra é um trunfo formal. Seus capítulos são quase contos que poderiam existir de maneira independente. O protagonista de um torna-se o coadjuvante do seguinte, ou nem mesmo aparece. As histórias vão da década de 1970 até algum momento da década de 2020. Há narrativas em primeira, terceira e até segunda pessoa. Existem trechos escritos como mensagens de texto e um muito improvável capítulo escrito todo como uma apresentação de slides. Mas a forma não serve para revestir um vazio. Muito pelo contrário, o conteúdo é muito importante.

Outra maneira apressada de abordar o livro é dizer que se trata de uma obra sobre música. De fato, ela é importante e todos os personagens têm alguma relação com essa arte. Mas é por meio das mudanças no panorama musical que Egan constrói sua história multifacetada sobre o tempo agindo na vida de um grupo de pessoas. E se o cenário musical é limitado, pois referente basicamente ao movimento punk norte-americano, os sentimentos dos personagens são incrivelmente universais. O abismo entre o que pensávamos que seríamos e aquilo que nos tornamos. O esquecimento. O medo de envelhecer. A falta de vontade de viver. O sucesso. O fracasso. A falta de comunicação. Tudo isso e muito mais emerge das páginas de “A visita cruel do tempo”.

Nessa viagem pelo tempo que vai e volta, Egan consegue fazer com que sintamos empatia por cada um dos personagens que visitamos. Considerando que eles são muitos, isso é uma façanha. Assim como também é uma façanha que ela consiga algo extremamente difícil: dar a todos eles uma voz própria e crível. O ápice dessa vitória estilística é o capítulo realizado todo na forma de slides. Ele é o diário escrito por uma adolescente, que vive com seus pais e irmão em algum momento da década de 2020, no deserto da Califórnia. Na verdade, não é um diário escrito, pois quando a mãe lhe pergunta porque ela não escreve, ela questiona: mas quem faz isso nos dias de hoje? Por isso ela faz slides com frases diretas digitadas e muitos recursos visuais E o que poderia ser uma aventura formal muito mal sucedida termina como um dos capítulos mais bonitos do livro, que transborda emoção em suas linhas contidas e observações certeiras.

O único ponto negativo de “A visita cruel do tempo” é o nome que recebeu em português. Ele entrega grande parte da temática do livro. Em inglês, chama-se “A visit from the goon squad”. O ‘goon’ que atormenta a todos nós, que vence alguns mas que é vencido por outros -o tempo; essa bela matéria prima do livro de Egan, que fica martelando na cabeça muito depois de finalizada a leitura.

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