SHAME, DE STEVE McQUEEN

De uma perspectiva imediata, “Shame”, de Steve McQueen, parece um filme sobre um homem viciado em sexo, que tem sua rotina alterada quando sua irmã problemática chega para se hospedar em sua casa. Mas é muito mais do que isso, até porque viciados em sexo não brocham.

Brandon Sullivan -Michael Fassbender- é um profissional bem sucedido, que vive em um belo apartamento, em Nova Iorque. Está no topo do mundo, e transa com qualquer coisa que se mexa. Já sua irmã, Sissy Sullivan -Carey Mulligan- é uma problemática e errante cantora, que chega para bagunçar a rotina de trabalho, sexo e masturbação do irmão. Muito mais do que parentes, eles são opostos completos que usam o sexo de maneiras diferentes para suprir seu problemas.

Não à toa, na primeira aparição de ambos os personagens, eles estão nus. Brandon, caminhando confiante por sua casa, depois de mais uma noite de sexo; Sissy, frágil e assustada quando o irmão chega. São também fisicamente opostos. Ele é um homem grande, forte e moreno. Ela, uma mulher pequena, delicada e loira. Além disso, Brandon foge  da mínima possibilidade de estabelecer qualquer tipo de relação profunda com outro ser humano, e isso não apenas com as mulheres -ele não tem namorada, mas também não se pode dizer que tenha amigos. Sissy, por sua vez, grita por amor em todos os cantos, no telefone, com um possível ex-namorado, com o chefe do irmão, com quem transa uma noite e para quem passa a ligar, e, principalmente, com o irmão. Somos família, ela diz.

Brandon e Sissy são personagens “quebrados” que usam o sexo como forma de escape. Mas não há uma explicação para isso. São de Nova Jersey, que representa o horror para qualquer novaiorquino, mas ele nega as origens na única vez em que há uma proximidade maior com alguém, uma colega de trabalho, no caso. Ele diz que é da Irlanda. Sissy, por sua vez, afirma que eles não são pessoas ferradas, apenas vieram de um lugar ferrado. A falta de uma explicação para serem disfuncionais não permite saídas fáceis, psicologizantes.

Outra saída fácil seria dizer que a irritação extrema de Brandon com a presença da irmã vem do fato de que ela é interditada sexualmente a ele. Sissy desfila sexualidade, mas não é isso. Ou não apenas isso. É o fato de ela transpirar necessidade o que desagrada Brandon, o que dá pena nele.

Os sinais de que Brandon não é apenas um viciado em sexo ou um mero hedonista são claros. Em um determinado momento, Brandon reage ao modo como leva a sua vida, e  procura algo próximo de um pedaço de relacionamento, mas ele brocha. Um viciado em sexo não brocharia. E o chefe dele, um homem casado que se permite aventuras sexuais, seria a medida de uma relação “saudável” com o sexo enquanto “brincadeira” descompromissada. Por sinal, essa falha sexual inicia um turbilhão magistral de cenas.

Ponto para Steve McQueen. O diretor filma de maneira sublime e trabalha magistralmente a trilha sonora, produzindo cenas belíssimas, como a da corrida pelas ruas de Nova Iorque, o flerte do metrô e a antológica versão de “New York, New York”, cantada por Sissy. A parte final, no entanto, está entre as melhores coisas que o cinema produziu nos últimos anos. Partindo do momento em que Brando falha sexualmente, McQueen cria um mergulho no inferno e na autodestruição, que culmina em uma das cenas de sexo mais sensuais e mais agoniantes já vistas. Ao mesmo tempo em que a câmera em close nos joga dentro do mènage, sentimos a angustia de Brandon, em uma espécie de revelação, que vai culminar com o renascimento simbólico tanto dele quanto da irmão. Um renascimento, por sinal, banhado em sangue.

O filme também não poderia ser o que é sem Michael Fassbender e Carey Mulligan, dois artistas que têm feito coisas muito interessantes nos últimos tempos. A entrega deles é total, e criam personagens e cenas memoráveis. O rosto de Fassbender na cena do ménage é das melhores que o cinema teve nesses anos. O fato de ele não ter concorrido ao Oscar diz menos sobre ele do que sobre o prêmio. Fassbender, por sinal, empilhou prêmios pelo filme, inclusive o de melhor ator em Veneza.

“Shame” é um mergulho em close na vida de dois irmãos “quebrados”. É um filme angustiante, difícil de ver, mas que vale a experiencia. Ainda mais porque não oferece saída fáceis, como, por exemplo, no final, que nos deixa cheio de dúvidas.

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Um Comentário

  1. Gostei muito mesmo da sua análise, Fred. É mesmo um filme tão angustiante e denso que fica difícil definir em poucas palavras. Para mim, o filme tem muito mais a ver com solidão do que com sexo — vício que foi usado ali como componente das personalidades das personagens “quebradas”, como vc mesmo definiu.


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