DRIVE, DE NICOLAS WINDING REFN

 

 

Quando o júri presidido por Robert De Niro deu a a Palma de Ouro ao diretor Nicolas Winding Refn, não foram poucos os que apontaram “Drive” como o “Taxi Driver” do século XXI. Não é. Mas ainda sim, o filme é ótimo.

Ryan Gosling interpreta brilhantemente um sujeito que, de dia, trabalha de mecânico e faz bicos como dublê em cenas de acidentes automobilísticos. De noite, ele faz outro bico: dirige para criminosos em fuga. Sua vida começa a mudar quando se afeiçoa a sua vizinha, Irene -Carey Mulligan, mandando bem mais uma vez- e ao filho dela. Mãe e filho conseguem mexer com o caladão motorista. Mas ela é casada com um presidiário que está prestes a sair. E, quando sai, o motorista acaba ajudando o marido em um roubo que dá errado. O que se segue é uma espiral de violência, na qual o motorista tenta a todo o custo salvar Irene e seu filho.

Refn justifica seu prêmio. A direção é um dos grandes pontos de “Drive”, alternando cenas filmadas do alto e que parecem saídas de um videogame com outras que são quase subjetivas. Afastamento e aproximação, assim como o motorista, sempre tão distante de todos, mas próximo de Irene. A trilha sonora com ares oitentista e o visual carregado no neon também são escolhas interessantes.

O diretor entrega, ainda, uma forma nova de se filmar a violência, ainda mais comparado com a maneira como isso é feito hoje em dia. A câmera não é nervosa, a inquietação não vem do movimento. Muito pelo contrário, é tudo muito sóbrio, mais uma vez, fazendo eco à personalidade do motorista. Gosling vai se firmando como um dos grandes de sua geração, e é peça fundamental no filme, pois consegue dar um ar desconectado ao personagem, mas sem que o torne alheio. O motorista está e não está, e, acima de tudo, age por um senso de dever profundo. Por isso, explode a violência, e a cena do elevador é antológica exatamente por isso. Ainda assim, as escolhas estéticas da violência lembram muitas vezes outro filme cult, o coreano “Old Boy”, no qual também a tranquilidade da câmera faz contraponto à vertiginosidade da ação.

O elenco de apoio também vai bem. Albert Brooks como um chefão do crime cresce no decorrer do filme; Ron Perlman também se dá bem como a face estourada e violenta do crime; Bryan Creston tamném se sai bem como o chefe estabanado, mas sincero, do motorista. Palmas para Refn, mais uma vez, que soube tirar o melhor do seu grupo.

Mas se há violência, motoristas e senso de proteção a uma mulher, o que falta para que “Drive” seja o “Taxi Driver” do século XXI? Falta política. O clássico de Scorcese é, acima de tudo, um retrato impressionante de Nova Iorque em um determinado período da história, e o fato de essa retrato conseguir sobreviver à passagem do tempo histórico no qual foi tirado só ressaltam as qualidades do filme. “Drive” não tem política, e nem é essa sua pretensão. Consegue, assim, não ser o “Taxi driver”, mas continuar sendo uma obra ótima dentro daquilo a que se propõe. Por isso mesmo, o fato de ter sido ignorado no Oscar de 2012 soa mais como um mérito do que um problema.

 

 

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