A SEPARAÇÃO, DE ASGHAR FARHAD

Logo de início, não restam dúvidas: o filme iraniano “A separação” trata-se de um julgamento. De lados antagônicos, estarão formas ‘modernas’ e ‘tradicionais’ de vida. Os espectadores serão os jurados. E, por isso mesmo, não existirá uma ‘sentença’ definitiva. Permeando tudo isso, o diretor e roteirista Asghar Farhadi faz o retrato de uma sociedade bem mais heterogênea do que sonham aqueles que acham que os iranianos são um bando de árabes barbudos de turbante, rezando para Meca e planejando como explodir Israel. Até porque nem árabes os iranianos são.

“A separação” começa com o casal formado por Simin -a ótima Leila Hatami, premiada em Berlim- e Nader -o também ótimo Peyman Maadi- falando alternadamente as razões para quererem ou não se separar. Simin que ir embora do Irã e quer levar a filha junto -ela fala de maneira geral que quer uma vida melhor para a menina, que, por sinal, é uma dedicada estudante. Nader diz que não pode ir, pois tem que cuidar de seu pai, que tem Alzheimer. Eles falam para o juiz, que é uma câmera subjetiva. Ou seja, falam para os espectadores, que se estabelecem, então, como julgadores. Mas não será esse o caso principal.

Simin sai de casa e Nader fica sozinho com a filha. Ele contrata, então, uma ajudante para cuidar do pai doente. Ela é Razieh -Sareh Bayat-, uma mulher que segue rigidamente os preceitos do Corão, a ponto de ligar para perguntar se pode dar banho no pai de Nader quando aquele se urina. (Esse telefonema já traz em si o estranhamento entre o moderno e o tradicional) Um dia, Nader chega em casa, mas Razieh não está e, ainda por cima, deixou o velho doente amarrado. Ao chegar, Nader e Razieh brigam e ele acaba por cometer um ato de violência contra ela. Aí começa o verdadeiro julgamento. Razieh estava grávida e alega ter perdido o bebê depois da agressão. Nader alega que não sabia da gravidez.

Na primeira audiência, Razieh quer não apenas a punição de Nader pelo crime: também quer que ele retire a acusação de que ela teria roubado dinheiro. Na sua concepção de vida, a acusação de roubo é gravíssima, um ataque fundamental a sua pessoa. Para o marido de Razieh, Hodjat -Shahab Hosseini-, um homem desempregado, o problema maior é Nader ter aceitado que a mulher ficasse sozinha com ele e com seu pai sem a presença do marido. Para a justiça, por sua vez, é preciso estabelecer se Nader sabia ou não que Razieh estava grávida na hora da agressão. A violência contra a mulher torna-se um crime grave se ele soubesse da gravidez. Assim são estabelecidos os termos do julgamento.

Na tela, estão um Irã liberal e um conservador, filmados com rigor estético por Farhadi. Os preconceitos que o Ocidente tem em relação aos iranianos são compartilhados de certa maneira por essa porção liberal daquela sociedade. Por exemplo, quando perguntam a Razieh se seu marido não bate nela, se ela não poderia ter perdido o bebê depois de sofrer violência por parte dele. Razieh responde que o marido nunca lhe bateu e que era um absurdo que pensassem esse tipo de coisa sobre pessoas como eles. Pessoas que seguem rigidamente os preceitos do Corão, cuja submissão feminina ao marido é uma escolha religiosa, e que deve ter como contrapartida o respeito do marido à mulher. Tanto que no momento em que mais se espera um ato de violência de Hodjat contra a mulher, o marido se estapeia, mas não toca na esposa.

Esse é um exemplo de como os julgamentos tornam-se fluídos de acordo com os fatos e os julgadores. Os termos do debate estão mudando a todo tempo. Em um momento, a rigidez religiosa parece ser ‘culpada’. Em outro, a ‘flexibilidade’ moral dos que não seguem preceitos religiosos parece ter sua parcela no problema. Os julgadores também têm papel importante, podendo ignorar pecados de um lado, ao mesmo tempo em que ressaltam os pecados do outro. O governo do Irã, por exemplo, tachou o filme como contrário à sociedade iraniana, ainda que a família conservadora saia religiosamente intacta do episódio. Um pessoa de visão liberal pode, por outro lado, dizer que o filme é uma condenação ao conservadorismo, sem perceber que os representantes da vida ‘moderna’ também perdem coisas importantes pelo caminho.

A única certeza é que “A separação” mostra uma sociedade muito mais complexa do que aquela imaginada pelos preconceitos ocidentais. Há uma mistura de conservadorismo e liberalismo, tradicionalismo e modernidade. O filme foi premiado mundo afora, recebendo, inclusive, o aclamado Urso de Ouro em Berlim, em 2011. Concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original. A vitória nessas categorias, principalmente na última, poderia ser uma maneira de fazer o público norte-americano voltar sua atenção para o filme, ainda mais em um momento em que os tambores da guerra voltam a rufar contra os lados iranianos. A vitória teria méritos políticos, mas não deixaria a desejar no campo estético. É um grande filme.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s