PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN, DE LYNNE RAMSAY

“Precisamos falar sobre o Kevin”, de Lynne Ramsay, é como aquelas viagens nas quais não importa o destino, mas sim o caminho. Até porque o destino já sabemos qual é: o massacre em uma escola perpetrado pelo adolescente Kevin. O foco do filme, baseado num livro de Lionel Shriver, está no antes e no depois, e ambos aparecem em uma grande colcha de retalhos que vão sendo costurados até formar o todo, tendo no centro um acontecimento absolutamente traumático.

Shriver escreveu o livro sob a influência dos massacres em escolas que volta e meia acontecem nos Estados Unidos. Ela partiu de um questionamento: sempre perguntam os motivos e tentam localizá-los na vida social dos assassinos, mas e os pais? A escritora adotou o ponto de vista da mãe. E o que temos é uma mãe absolutamente desconfortável com o papel materno, e que de certa forma coloca no primogênito o peso da perda da liberdade. Eva Katchadourian é uma mulher que gostava de viajar o mundo, mas que de repente se vê presa a esse pequeno ser, que tudo pede e nada dá. A cena em que ela para ao lado de uma britadeira para abafar o som do choro do filho é exemplar do tipo de relação estabelecida entre ambos. Enquanto isso, o pai, Franklin, vive em total ignorância da guerra surda que começa a ser criada entre mãe e filho, e por isso é incapaz de perceber a gestação da tragédia.

A análise que se faz do trauma após um episódio dessa magnitude é muito interessante. Sempre nos compadecemos das vítimas e de seus familiares, mas nunca nos perguntamos: e a família? Eva carrega as marcas do crime do filho e torna-se uma pária na comunidade em que vive. É insultada, toma sopapos na cara, tem sua casa e seu carro vandalizados, e ainda assim aceita tudo isso com uma resignação que talvez só uma mãe conseguiria ter. Ou seja, ela, que nunca conseguiu assumir plenamente o papel de mãe antes do massacre -só com o filho maior, pois com a filha menor já há uma relação diferente-, torna-se a típica mãe sofredora depois, carregando a cruz que Kevin criou.

Pela centralidade que o papel materno tem no filme, é possível dizer que tudo daria errado se não fosse pela atriz Tilda Swinton. Ela é perfeita como Eva, conseguindo transparecer todas as nuances emocionais pelas quais a personagem passa durante o filme. É incompreensível que Swinton não tenha nem ao menos sido indicada ao papel de melhor atriz no Oscar. O resto do elenco também está afinado. Os atores que interpretam Kevin em suas diferentes idades conseguem ir criando uma personalidade assustadora, um processo que depende muito do físico de cada um deles e que culmina em um adolescente ao mesmo tempo atraente e maligno, encarnado pelo jovem Ezra Miller. John C. Reilly, por sua vez, constrói um pai atencioso, mas alheio ao que acontece.

Méritos também para a escocesa Ramsay, diretora, roteirista e produtora do filme, e cujo momento mais marcante foi um prêmio secundário de direção em Cannes pelo filme Morvern Callar, de 2002, seu último filme, por sinal. A montagem e as alternâncias temporais são fundamentais para a construção do filme. Ela constrói algumas cenas fantásticas, como a do Halloween, e não pesa a mão na história, que poderia facilmente debandar para um dramalhão, e ainda utiliza a música de uma maneira inteligentemente irônica.  Palmas também por ter fugido da facilidade de filmar o banho de sangue. E o sangue é uma ausência notável -e saudável- em um filme sobre um massacre. A violência nunca é explicita, e é isso que torna a obra tão inquietante.

O único ponto fraco é que, ao adotar outro ponto de vista -aquele que leva em conta apenas o ambiente familiar-, deixa-se de lado o resto do ambiente social do assassino. Isso cria uma sensação de estranheza, ainda mais pela extensão dos crimes que ele comete. A carta-vídeo à qual a mãe assiste em certo momento deixa transparecer que há algo mais além de uma revolta com a família. A criação pode ser responsável por criar parte do monstro, mas fica no ar a ideia de que existem outras fontes. Ainda que isso não tire os muitos méritos do filme, não deixa de existir uma situação de desconforto com o fato de a obra estar pretendendo mostrar um quadro completo, um outro lado, ao mesmo tempo em que parece sugerir que há outras coisas. Isso soa mais como uma falha do que como um artifício.

“Precisamos falar sobre o Kevin” é, assim, um filme no qual as qualidades superam de longe os problemas. Quando chegamos ao destino final e entendemos toda a extensão do fardo que Eva carrega, aí sim sentimos completamente a potência da viagem que fizemos.

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  1. Oi Fred,
    Eu vi seu comentário no face sobre esse filme e vim aqui ler o seu post… Eu ando tão culturalmente alienada esses tempos que nem sabia desse filme. Não vou no cinema há MESES, rs!
    Lendo o que vc escreveu me deu muita vontade de ver o filme. Depois eu conto o que eu achei!
    Bjoss

  2. Fred. O filme é ótimo.

    Teria uma leve crítica. Absolveria ele da crítica que você comentou (do contexto social) e colocaria outra.

    O recorte é a narrativa da mãe. Uma mãe buscando entender o que se passou e, principalmente, qual o papel nela nisso tudo. A conclusão dela é que ela é a grande responsável. Um mito na onipotência materna (não que ela não tivesse responsabilidade, mas por ser ela a narradora o negócio ficou mais pesado ainda).

    O “problema” é que com esse recorte (da culpa) você acaba chapando o desenvolvimento do filho. O personagem do Kevin me pareceu reto, chapado. Não é um personagem “interessante”, pq a mãe não estava com o intuito de pensar nele, mas em elementos dele que justificassem o crime e a culpa dela.

    Mas. De fato, ótimo filme.


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