O GAROTO DA BICICLETA, DE JEAN-PIERRE E LUC DARDENNE

Os irmãos e cineastas belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne ficaram conhecidos por fazerem um cinema de cunho social, com uma visão pessimista e usando atores não profissionais. “O garoto da bicicleta”, que tem uma mensagem, digamos, mais positiva e que conta com uma grande estrela do cinema francófono, Cécile de France, seria assim um ponto fora da curva na cinegrafia dos irmãos. Mera ilusão. O mundo duro, violento e cru dos Dardenne continua intacto, ainda que agora com uma saída mais otimista. Ou menos pessimista.

A história do garoto abandonado pelo pai, institucionalizado em um orfanato e salvo por uma mulher poderia render um daqueles filmes cheios de boas intenções, com pitadas açucaradas de emotividade e um final redentor. Ou seja, poderia ser mais um entre muitos filmes que são exatamente assim. O caminho da “redenção” do garoto Cyril Catoul é, no entanto, cheio de obstáculos, todos muito dolorosos seja fisicamente, seja mentalmente.

Quando tromba por acaso com a cabelereira Samantha, ela consegue perceber a necessidade de ajuda que o menino tem. Não existe uma justificativa muito racional para o fato de ela dar um primeiro passo em direção a ele, que vai se desdobrar em um pedido de Cyril para que ela seja sua guardiã nos fins de semana, pedido que ela aceita. Descrevendo assim, é impossível ter noção do quanto todo esse percurso é destituído de sentimentalismo. É apenas um garoto pedindo a uma mulher que demonstrou algum interesse em sua vida para que fique mais um pouco por perto. Nada de emoções à primeira vista.

A relação entre os dois vai se construindo às custas de muitos silêncios, ainda mais porque Cyril é obcecado em achar o pai que o abandonou. O garoto não se conforma com o abandono. Pode ser mera coincidência, mas o pai relapso desse filme é interpretado por Jérémie Renier, que interpretou também um pai em outro filme dos Dardenne, “A criança”, no qual faz o pai que quer vender seu filho recém nascido. Coincidência?

Por sinal, os dois protagonistas da história são excelentes. O menino Thomas Doret entrega mais uma das grandes interpretações que os irmãos Dardenne conseguem tirar de atores não profissionais. A mistura de muita resignação e arroubos de emoção que o jovem Doret conseguem entregar são fundamentais para construir esse Cyril meio perdido num mundo que não sabe muito bem o que fazer com ele. De France, por outro lado, coloca mais uma interpretação no seu rol de personagens excelentes, e que aos poucos começa a fazer dela um dos grandes nomes do cinema de língua francesa.

O abandono do pai leva à violência mental. Mas também, temos a física. Uma hora, são os ladrões que roubam a bicicleta de Cyril. Outra hora, são as consequências do envolvimento do garoto com a criminalidade. É, por sinal, depois do crime que o menino tem que fazer a decisão de manter funcionando a roda da violência ou dar um fim a seu movimento e buscar a integração com um mundo mais, digamos, normal. E é após essa decisão que o filme acaba. Ou seja, sem mostrar a redenção de Cyril, por isso mesmo, “redenção”. O que temos é apenas um apontamento de algo que pode ser um caminho melhor para o menino.

A música é outra forma -genial- de mostrar a evolução de Cyril. Os Dardenne usam o Quinto concerto para piano e orquestra de Beethoven, colocando apenas pequeniníssimos trechos, que mostram uma evolução dramática de notas. Esses pedaços soltos se juntam após o final, durante os créditos, com a entrada triunfante do piano, dando o toque de esperança tão incomum nos filmes desses cineastas belgas. Ainda assim, não é a certeza de um caminho feliz, apenas de um momento feliz.

“O garoto da bicicleta” é, por isso, um filme impregnado de humanismo. Mas não o humanismo piegas, sentimentalóide, mas sim aquele humanismo que sabe que a vida é dura, violenta, e que os obstáculos têm que ser vencidos a todo o momento. É o humanismo que sabe o perigo que corre a cada instante, e que por isso é urgente, está sempre alerta, mas sempre pronto a aproveitar migalhas de felicidade. Talvez, o verdadeiro humanismo.

Anúncios

Um Comentário


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s