REVOLUTIONARY ROAD, DE RICHARD YATES

“Life is what happens to you while you’re busy making other plans.” A famosa frase que Jonh Lennon cunhou na canção “Beatiful Boy”, de 1980, descreve com perfeição o enredo do livro “Revolutionary Road”, de Richard Yates. Nele, acompanhamos a derrocada do jovem casal formado por April e Frank Wheeler, presos na armadilha entre o que desejariam ser e aquilo que de fato são.

O livro abre com a apresentação de uma peça por um grupo comunitário, do qual April faz parte. De certa forma, esse começo metaforiza o resto da obra. Os ensaios são todos em um tom menor, sem empolgação; quando a apresentação começa, a peça parece que vai ser um retumbante sucesso, com uma interpretação inicialmente sublime de April; depois, vêm a longa, triste e pública queda, quando a realidade surge para mostrar que aquilo ainda é teatro amador e destrambelhado. E assim chegamos ao primeiro dos muitos desentendimentos entre April e Frank que vamos acompanhar no decorrer do livro.

Os Wheelers moram no subúrbio, mas se consideram excepcionais, por aparentemente conseguirem ver toda a hipocrisia e pequenez que há naquela vida. Uma série de eventos inesperados -a gravidez de April, a necessidade de trabalhar- acabaram empurrando o casal para onde eles se encontram. Eles compartilham essa posição auto-indulgente com o casal formado por Milly e Shep Campbell, ele de origem rica, e que também se considera digno de algo melhor do que a vida suburbana. Esse elo entre os casais amigos começa a ser quebrado quando a relação entre April e Frank vai se dissolvendo, ao mesmo tempo em que se dissolve a percepção dessa excepcionalidade. April dá então a ideia para salvar a relação: mudar a família toda para Paris, onde ela sustentaria a todos e Frank poderia ter o tempo que quisesse para se encontrar. A sugestão surge exatamente porque April considera que sua primeira gravidez inesperada foi responsável por fazer o marido tomar decisões ruins, mas necessárias para o bem da família, levando-o a um estado de infelicidade. Ou seja, April se culpa por teoricamente fazer Frank infeliz.

O curioso é que a forma narrativa adotada por Yates parece inicialmente corroborar essa tese. O foco fica quase sempre em Frank. Sabemos o que ele pensa, o que deseja, o que sente. Mesmo April nós vamos conhecer inicialmente pela visão de Frank. O que poderia redundar em misoginia logo se mostra um brilhante artifício retórico, na medida em que April vai se afastando cada vez mais da maneira como Frank a percebe. Essa é uma técnica, por sinal, muito usada no decorrer do livro. Muitas vezes sabemos aquilo que os personagens imaginam, para então sermos confrontados com o que de fato existe. É a vida atropelando os planos.

Nesse ambiente de desconfianças e hipocrisias, é justamente o personagem maluco quem aparece para cuspir algumas verdades. John Givings é filho de Helen, a mulher suburbana por excelência, uma corretora de imóveis bem sucedida que vendeu aos Wheelers seu pequeno refúgio suburbano. John um dia foi um promissor matemático, mas acabou internado em um hospital psiquiátrico depois de um surto. Helen acha que a convivência com os joviais e inteligentes Wheelers pode ser um bom caminho para a reinserção de John no mundo fora do hospital. E, inicialmente, John fica muito impressionado com a atitude dos Wheelers em relação ao mundo que os cerca. Quando April fica novamente grávida, adiando os planos europeus do casal, é John quem faz a crítica mais feroz à decisão dos Wheelers de ficarem por ali. Aos malucos sempre é dado o direito de falarem o que quiserem, pois, afinal, são loucos. Mas é John quem vai desmascarar definitivamente a hipocrisia da vida que os Wheelers levam, justo eles que se consideram tão excpcionais e alertas em relação à hipocrisia dos outros, ao mesmo tempo que incapazes de perceberem sua própria derrocada.

April chega a sugerir abortar para manter os planos de viagem. Frank -que, depois do entusiasmo inicial, mostrou-se receoso sobre ir a Paris- nega veementemente essa possibilidade. Acordam o adiamento do plano. Mas é claro que Paris era apenas uma válvula de escape que estancou, momentaneamente, o longo processo de decadência da vida a dois de ambos. Com a viagem de lado, o processo retoma seu rumo normal e trágico e a vida aparece com todas as suas imperfeições para vitimar a relação. Depois do sonhado, vem o real.

Obras críticas à vida no subúrbio -livros, filmes, seriados e até discos inteiros- hoje se tornaram quase um gênero próprio na cultura dos Estados Unidos. Yates, no entanto, escreve em 1961, quando os norte-americanos ainda viviam o torpor da mistura de crescimento acelerado e conservadorismo da década de 1950. A década de 1960, todos agora sabemos, mudou tudo. Por isso Yates é brilhante. Ele já vê a névoa do mal estar que existe por baixo de toda a tranquilidade. Como escreve em certa parte do livro, o subúrbio no qual se passa o livro não estava preparado para a trágica histórica dos Wheeler. E Yates mostra isso da maneira mais cruel, pois após o momento que poderia ser o fim -terrível- do livro, segue-se uma espécie de epílogo que serve para mostrar como toda aquela desgraça acaba se tornando justamente uma história exótica que os vizinhos agora contam uns aos outros. A cena final, que representa a escolha do silêncio, o afastamento do diálogo, a solidão eleita, é a pedra de sal que Yates joga em cima de todas as feridas abertas durante o livro. O torpor continua. E Yates vai aos poucos voltando e conquistando seu lugar no panteão dos grandes escritores do século passado, de onde esteve afastado enquanto em vida.

P.S: Para me proteger dos grandes fuçadores da internet, a citação da frase de Lennon começou a surgir na minha cabeça antes da primeira metade do livro. No texto do grande crítico de cinema norte-americano Roger Ebert  sobre a adaptação do livro para o cinema, que no Brasil se chamou “Foi apenas um sonho”, ele também começa com a mesma citação. Vi depois de ter acabado o livro e de ter resolvido usar a frase. Juro que tudo foi pura afinidade eletiva!

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