MELANCOLIA, DE LARS VON TRIER

Uma das formas mais interessantes de produzir uma obra de arte é pegar uma premissa totalmente batida e construir algo vertiginoso. O dinamarquês Lars Von Trier seguiu a trilha dos disaster movies -sob cuja rubrica muita porcaria já foi feita- e fez “Melancolia”, uma das coisas mais instigantes que o cinema produziu nos últimos tempos, com significados múltiplos que podem ir da interpretação mais linear até as mais metafísicas.

O filme divide-se em três, sendo que já de início, no prólogo, o diretor nos apresenta uma série de imagens em câmera lentíssima, quase quadros em movimento, apontando cenas que virão. Assim como no começo de seu filme anterior, “Anticristo“,Von Trier apela para a hiperestilização, mas ao contrário daquela vez, na qual o efeito é um afastamento em relação a uma história que exige proximidade, em “Melancolia” alcança-se o efeito inicial de estupefação, completada pelo uso certeiro de música de Wagner, que, por sinal, também vai permear todo o filme. O espectador já está ganho; basta mantê-lo.

A segunda parte leva o nome de Justine, personagem interpretada por Kirsten Dunst, e mostra sua festa de casamento. As coisas já saem dos eixos com a limousine que não consegue vencer os tortuosos caminhos que levam ao castelo, cujo dono, seu cunhado Jonh (Kiefer Sutherland), também pagou o festejo. A encenação remete diretamente a um dos filmes mais contundentes do movimento Dogma, do qual fazia parte, além de Von Trier, o também dinamarquês Thomas Vinterberg, que dirigu “Festa em família”. Assim como nesse filme, em “Melancolia” a festa com amigos e família serve de espaço para o conflito, em um verdadeiro trabalho de desconstrução de Justine, que, um a um, vai perdendo os pontos fixos de sua vida normal, pais, trabalho, marido, tomada por algo que pode ser descrito como um profundo processo de depressão. Ou melancolia.

A terceira parte leva o nome de Claire (Charlotte Gainsbourg), e mostra, depois de um tempo indeterminado, a volta de Justine ao castelo, dessa vez já totalmente desconstruída, até mesmo incapaz de comer. Enquanto Claire cuida de Justine, brilha no céu Melancolia, um planeta em rota de colisão com a terra, que deperta o fascínio de John, o terror de Claire e a indiferença de Justine. Dando crédito a quem deve ser dado, o crítico Luiz Zanin, do Estadão pareceu captar com precisão o sentido da terceira parte: ela metaforiza a segunda.

Não à toa, uma das primeiras falas da terceira parte é de John, que diz que Melancolia vai passar perto, mas não vai atingí-los. É o que dizem os cálculos dos cientistas, e John surge como o racionalista por excelência. A segunda parte também se passa sob a ameaça do iminente desastre da melancolia que ameaça Justine durante toda a festa de casamento. Lá, a melancolia faz seu estrago. Outro fato que parece comprovar a tese da metaforização é que Claire repete, em dois momentos capitais de cada uma das partes, uma frase de profundo rancor em relação a Justine. A diferença é quem está subjulgada em cada uma das partes.

Da mesma forma, os papeis se invertem. Se na segunda parte Claire é o esteio de razão para uma Justine que vai se esvaindo no desespero de seu processo de desmontagem, na terceira é Claire quem vai cedendo ao temor em relação a Melancolia, enquanto Justine é aquela que vai oferecer o apoio. Isso ocorre pois Justine , desmontada enquanto personagem na segunda parte, na sua reconstrução, durante a terceira parte, não é a mesma Claire de antes. Não é como alguém que chega ao fundo do poço e simplesmente volta à superfície, com uma outra forma de ver a vida. É mais como se Justine tivesse cruzado uma porta para alguma outra parte. Sua indiferença ao fim iminente é fruto de algum tipo de sabedoria adquirida no processo? É cinismo? É conformismo? Fatalismo? Fato é que Justine se “entrega” nua a Melancolia, enquanto na segunda parte ela luta vestida contra a melancolia.

John, por sua vez, surge como a crítica ao racionalismo excessivo da parte masculina da humanidade. Na segunda parte, ele apenas reclama sobre os gastos que fez -justo ele que é riquíssimo- e sobre como a festa não deveria acabar, não se importando com o estado de Justine. Já na terceira, aferra-se com afinco aos dados científicos que afirmam que Melancolia vai passar perto, mas não vai atingir a Terra. Ele chega a condenar o plano suicída que Claire arma caso o pior venha a ocorrer. Quando as coisas saem do eixo, ele é justamente o primeiro a tomar a mais egoísta das atitudes. Não por acaso, não é o cálculo dos cientistas que mostra a verdade, mas sim um tosco instrumento construído por seu filho.

Durante todo o filme, Lars Von Trier cria o clima que vai crescendo até desembocar nos momentos finais do filme, que são simplesmente brilhantes. O barulho incessante da aproximação de Melancolia, o desespero de Claire, a paz de Justine, a recriação de uma célula familiar básica, a escolha de um refúgio imaginário em lugar da espera em estilo tipicamente burguês e racionalista, e, então, o fim abrupto, que é o fim perfeito, pois não nos permite o próximo momento de respiro, à inspiração não se segue a expiração. Um artifício, diga-se de passagem, que o diretor já havia usado em “Dançando no escuro”.

Somente um filme forte como “Melancolia” poderia sobreviver às asneiras que Von Trier falou -e pelas quais se desculpou depois- sobre o nazismo no Festival de Cannes. Banido do Festival, a premiação de Kirsten como melhor atriz soou como um prêmio de consolação, ainda que ela esteja muito bem -o diretor é especialista em levar para altos patamares atrizes medianas ou não-atrizes-, assim como Charlotte Gainsbourg, que, por sinal, levou o mesmo prêmio por “Anticristo” -mas essa sempre esteve nos altos patamares.

Por fim, “Melancolia” é uma experiência intelectual e sensorial que não se esgota no fim da sessão; ela fica ressoando muito tempo depois, mostrando todas as suas diversas faces. Acho que Von Trier trouxe de volta aquela sensação que os mais saudosos diziam existir em relação a mestres como Fellini, Truffaut e Kurosawa: a ansiosa espera pelo próximo filme.

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