SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, DE MANOEL DE OLIVEIRA

Meros 64 minutos bastam para que Manoel de Oliveira construa, do alto de seus então 102 anos de idade, uma obra prima. Partindo de um conto de mesmo nome escrito por Eça de Queiroz, “Singularidades de uma rapariga loura” é um triunfo de concisão e aparente simplicidade, sob a qual se esconde uma história incrivelmente atual, como vemos no fim.

O filme começa com uma relativamente longa cena que mostra apenas um fiscal de trem checando as passagens dos viajantes. Poderia ser um desperdício, considerando o tempo para lá de exíguo, mas ela serve para que entremos naquele trem, no qual se encontra Macário -Ricardo Trêpa-, que, angustiado, começa a contar à desconhecida que está ao lado o seu caso. Logo no primeiro dia de trabalho na loja de seu severo tio -Diogo Doria-, Macário descobre a sua vizinha de janela: a estonteantemente bela Luísa -Catarina Wallenstein-, que carrega sempre um lindo leque japonês, que ajuda a criar o mistério em torno dela. Macário, como não poderia deixar de ser, apaixona-se. Por sinal, a cena da primeira troca de olhares de ambos é antológica. Obcecado, acaba por conhecê-la e decide casar-se com ela. Seu tio, no entanto, não concorda e diz que ele deve escolher entre o amor ou a mulher. Macário escolhe o amor e parte ao Cabo Verde, para ganhar o dinheiro que lhe dê a independência financeira para o casamento. Uma história aparentemente banal, mas não nas mãos de Manoel de Oliveira.

O diretor constrói o filme com cenas milimetricamente criadas, inclusive em seu tempo de duração. Ele não precisa de mais nem de menos. Assim, o filme é ágil quando precisa, e contemplativo quando se exige. O roteiro coloca em contato, inclusive, dois bastiões da literatura portuguesa. Se a história é de Eça, é sob uma declamação de Alberto Caeiro -um dos heterônimos de Fernando Pessoa- que Manoel de Oliveira filma uma das cenas-chaves do filme, em dois planos que interagem. E essa é apenas uma das geniais cenas da obra, que incluem também cortinas misteriosas, sinos epifânicos e olhares oblíquos.

Outra característica é que, apesar do aparente rigor do tema, ele é tratado com a leveza das plumas que enfeitam o leque japonês de Luísa. Não é sem um sorriso cúmplice que vemos Macário contar sua história à estranha a seu lado, que ouve com um misto de sorriso e curiosidade: nosso sorriso e nossa curiosidade. São vários os momentos não cômicos de risada aberta, mas aqueles que botam um arco nos lábios, aqueles que só a inteligência é capaz de criar.

O final deixa muita gente com um ponto de interrogação na testa, ainda mais por ser tão irreal, após uma condução tão realista. Basta dizer que o filme todo é um artifício e lembrar a já citada cena-chave para entender. E o que Manoel nos diz ao fim de pouco mais de uma hora é algo muito importante, ainda mais nessa época tão superficial. O fato de o diretor conseguir dizer algo tão profundo de maneira tão leve é o que possibilita a constatação inequívoca: o pequeno “Singularidades” é um filme gigantesco.

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