DUAS VIOLÊNCIAS

O filme “Tropa de elite 2”, de José Padilha, e o livro “Desonra”, de J.M Coetzee, têm duas das mais perturbadoras representações artísticas da violência dos últimos tempos. Em comum, além de serem contra mulheres, há o fato de que Padilha não filmou e Coetzee não escreveu seus respectivos atos.

No filme, a jornalista interpretada por Tainá Miller descobre em uma casa evidências que ligariam um político a milicianos. Ela está feliz com a descoberta. Corta. Os bandidos estão na casa, com armas em punho, a dona do local e o fotógrafo que acompanha a jornalista estão mortos, Tainá está no sofá, chorando e abraçando as pernas. Um miliciano pergunta se eles não poderiam aproveitar a moça, pois ela é bonita. Corta. Dois homens em um campo aberto arrancam dentes de crânios carbonizados.

No livro, a casa em que estão o professor David Lurie e sua filha, Lucy, é atacada por dois homens e um garoto. David é trancado em um banheiro, recebe pontapés e, finalmente, jogam nele um líquido inflamável e tacam-lhe fogo. O professor consegue apagar as chamas, mas ele fica preso no banheiro. A porta é destrancada. Ao abri-la, vê sua filha, de costas, trajando um roupão.

Sabemos obviamente o que aconteceu em ambos os casos. Mas não sabemos como. A perturbação decorre exatamente disso. Não temos um parâmetro visual no qual nos apoiarmos para imaginar o ato. Mais ainda: a forma como os atos refletem-se nas obras aumenta a perturbação. No filme, um deputado lamenta, um editor lava as mãos, mas a história segue. O crime –mais um- é abandonado pela trama. No livro, a violência passa a permear tudo que se segue, mas de maneira inominada. O pai insiste em falar, a mulher resiste, e, apenas perto do final, a palavra vem à tona: estupro. Mas o estrago já esta indelevelmente feito.

Pode-se pensar que, por trás da aparente relutância em mostrar a crueza da violência, há um ato de machismo. Escritor e diretor não expõem suas mulheres. O contraponto óbvio é o filme “Irreversível”, de Gaspar Noé, e sua longuíssima e crua cena de estupro, protagonizada por Monica Bellucci. Basta ver, no entanto que a cena em questão não é unanimidade em termos de repulsa. O público feminino, por uma questão de identificação, não tem como deixar de se enojar com a cena. Já em conversas com homens, parece haver uma divisão entre essa cena e a do assassinato, logo no começo. Alguns dizem, até, considerar a cena do assassinato mais repulsiva. Há mesmo aqueles que confessam certo prazer em ver Monica Bellucci submetida, afinal, não seria um desejo de parte dos homens submeter sexualmente uma mulher incrivelmente linda e inalcançável como Bellucci? Não é disso, no fundo, que se trata a cena? Não haveria nisso, portanto, uma boa dose de machismo transvestido de cinema-realidade, ou algo que o valha?

Como toda cena incrivelmente forte, a de “Irreversível” volta de vez em quando para assombrar –ou não- a mente de quem viu o filme. Mas nada se compara ao total desconhecimento que temos das outras duas cenas de violência. No filme de Noé temos parâmetros sonoros, imagéticos e temporais. Nas obras de Coetzee e Padilha, não há nada para limitar nossa lembrança dos atos, e eles aparecem da forma como imaginamos, invariavelmente diferentes a cada vez que retornam. Noé nos coloca na frente de um quadro, e da imagem fazemos o que bem entendermos. Padilha e Coetzee, por sua vez, nos colocam na frente de um espelho no qual vemos a nossa capacidade de conceber ações profundamente violentas e repulsivas. A violência será seguidamente perpetrada, e somos nós que a estaremos praticando.

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    • Pois é, sou meio relapso!
      Gostei bastante do texto desse blog! Vou começar a acompanhar mais de perto!
      Beijos e n!ao desista daqui! hehe


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