ALÉM DA VIDA, DE CLINT EASTWOOD

“Além da vida” parece ser um filme totalmente fora da cinematografia de Clint Eastwood devido a seu tema espírita, ainda que pareça estar enquadrado em uma certa onda espiritualizante, pelo menos nas telas brasileiras. Mas essa impressão se dilui ao fim, pois o tema da obra é dos mais caros ao diretor: o homem solitário e afastado da sociedade que acaba buscando algum contato humano, e, nesse percurso, salva uma ou duas pessoas igualmente perdidas. É esse o tema de “Os imperdoáveis”, de “Menina de ouro”, de “Gran Torino” e de “Além da vida”.

O filme narra três histórias, ainda que o eixo principal gire em torno de George Lonegan -Matt Damon-, um vidente que um dia foi muito famoso e ganhou dinheiro com seu dom, mas que agora considera seu poder uma maldição que lhe impede de ter uma vida normal. Ele é o típico personagem solitário de Eastwood. As outras duas histórias envolvem a francesa Marie Lelay -Cécile de France-, famosa jornalista que tem uma espécie de revelação espiritual ao passar por uma experiência de quase morte, e o garoto inglês Jason -Frankie e George McLaren-, que, após a morte de seu irmão gêmeo, tenta desesperadamente contatá-lo. Lonegan, em busca de salvação, vai salvar também Lelay e Jason.

O começo do filme é uma das cenas mais antológicas dos últimos tempos: uma reprodução assustadora, realística e pessoal do Tsunami, que já coloca o filme em uma velocidade impressionante. Claro que Eastwood não está querendo fazer um disaster movie, e logo vem a esperada diminuição do ritmo, e com ele o grande problema do filme: uma lentidão que quase beira o insuportável. O grande problema de “Além da vida” é exatamente essa pesada de mão que Eastwood dá ao tentar dar um ritmo desacelerado à narrativa, artifício na qual ele -grande ator de filmes de ação- tornou-se mestre. Aqui, ele erra feio. Mas há seus lampejos de genialidade.

Além da cena inicial, Eastwood demonstra todo seu traquejo na cena da aula de culinária, entre Damon e Bryce Dallas Howard. É um momento absolutamente encantador, digno da obra do diretor, mas solitário em relação ao filme, que também peca, mas por problema de roteiro, no velho e surrado artifício dos encontros por coincidência. É preciso ser muito bom para escrever esse tipo de encontro sem que a coisa soe forçada, e aqui, soa.

De qualquer forma, vale para Eastwood o que vale para todo grande autor: mesmo um filme ruim dele é um bom filme, e não deixa de ser emocionante acompanhar o arco de transformação de Lonegan de homem solitário em homem social novamente, passando pelo heroísmo com o garoto e pelo toque redentor com Marie. Mas Eastwood definitivamente pode mais.

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