VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

“Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” é um bom filme, mas não é um bom Woody Allen, e isso faz toda a diferença. Para fazer uma análise da obra, não se deve ter como medida a mediocridade do cinema de hoje em dia, mas sim a genialidade de Allen. Não dá pra negar que no filme se destacam os diálogos tipicamente afiados do diretor e roteirista, mas falta aquele algo mais que faz a riqueza dos pontos altos dele.

Em “Você vai conhecer”, somos apresentados, rapidamente, a uma galeria de personagens. Helen -uma recém divorciada obcecada por uma vidente, na qual acredita piamente- serve de linha condutora da narrativa, em torno da qual são apresentados Alfie -seu ex-marido viciado em esportes e que se casa com uma prostituta para lá de exótica-, o casal formado por Sally -sua filha insatisfeita- e Roy -um ex-médico e escritor fracassado-, Dia -a vizinha violonista pela qual Roy cai de amores- e Greg -dono de galeria e chefe de Sally, pelo qual ela cai de amores.

Alguns dos elementos clássicos de Allen estão presentes aqui. Personagens neurotizados, deslocados e insatisfeitos, perfeitos para que o diretor possa desenvolver seus diálogos rápidos, incisivos, irônicos e inteligentes. O problema é que todos esses elementos somados não dão um filme, pelo menos não um que se espere de Allen.

O que se constrói parece um grande apanhado de sketches -quase todos muito bons, diga-se de passagem-, mas sem capacidade de criar um todo em torno de uma linha mestra. Allen muitas vezes fez filmes em que havia uma linha mestra, em torno da qual construia uma série de outras pequenas tramas paralelas que davam sabor ao principal, mas que não eram mero artifício. O título do filme parece sugerir que a linha mestra será em torno do destino, ou ao menos na crença -representada por Hellen- ou não -representada, principalmente, por Alfie e Sally- nele. Mas o que parece um eixo é apenas mais uma passagem do filme. É como se não houvesse uma espinha dorsal.

Para piorar, Allen ainda desperdiça aquela que se anuncia como uma ótima premissa -a do escritor fracassado que corre obsessivamente atrás do sucesso do passado, enquanto sua vida afunda em torno dele. Por alguns momentos, dá para pensar que essa trama iria se desenvolver na mesma linhagem de crime sem castigo de “Crimes e pecados” e “Matchpoint”, o que deixa até um certo gosto de mais do mesmo -ainda que os outros dois filmes sejam quase rigorosamente e aparentemente sobre a mesma coisa, mas ambos magníficos-: promessa não cumprida. É apenas isso: uma trama bolada para diálogos inteligentes, mas sem consistência maior. Um apanhado de gags.

O alívio é saber que Allen é um autor pra lá de prolífico, que faz um filme por ano. Sempre se pode esperar que o próximo seja do alto nível de “Matchpoint” e “Tudo pode dar certo”, ainda que se possa temer algo do baixo nível de “Scoop” ou “Melinda e Melinda”, que são bom cinema, mas mal Allen.

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