AUSTERLITZ, DE W.G. SEBALD

Austerlitz é o nome de uma das mais famosas estações de trem do mundo, em Paris. Austerlitz é o nome de uma batalha, ocorrida na região que foi a Tchecoslováquia, vencida por Napoleão. Austerlitz é o sobrenome de Jaques, cuja história é contada pelo autor alemão W.G. Sebald, no livro “Austerlitz”. A palavra “austerlitz” finca, portanto, três bandeiras que indicam: em “Austerlitz”, arquitetura, história e biografia são importantes.

A primeira vez em que o narrador -não identificado, apenas vagamente delineado- encontra Austerlitz -então um jovem historiador da arquitetura-, eles estão em uma estação de trem na Antuérpia, Bélgica, em algum momento indeterminado da segunda metade da década de 1960. Pelos próximos anos, o narrador e Jaques vão se encontrar em diversas cidades europeias, travando conversas que beiram o ensaísmo, discorrendo sobre assuntos tão diversos quanto fortalezas antigas, pombos-correio e mariposas. Em alguns desses encontros, Austerlitz ilumina passagens de sua vida, contando sobre a relação com seus pais adotivos, no Reino Unido, e sua passagem por um colégio interno. O que o autor faz, na verdade, é jogar pequenas bóias dispersas em um oceano vazio, de forma aparentemente aleatória, para que possamos nos guiar depois.

O livro dá, então, um pulo de trinta anos, e Austerlitz e o narrador voltam a se encontrar, dessa vez, em Londres. Agora, Jaques conhece sua história, e é isso o que ele vai contar ao narrador, e é isso o que o narrador vai nos contar. Austerlitz foi uma das crianças evacuadas pelos Kindertransport, trens que saiam de várias regiões da Europa, durante a Segunda Guerra, levando crianças para outros países, para que elas ficassem em segurança durante o conflito. Austerlitz, após um momento de profunda crise existencial, vai atrás desse passado obscuro, e chega a Praga, capital da República Tcheca, onde uma antiga vizinha de seus pais, Vera, revela-lhe a esquecida história desse período, antes do Reino Unido, antes dos nazistas, antes da Guerra.

Sebald escreve de maneira caudalosa, existem apenas três enormes parágrafos -o que acentua o ar de relato. Ele usa apenas um “disse” para passar de um narrador a outro, existindo construções como “Vera disse, Austerlitz disse”, acentuando o tom de relato direto. Sebald também usa fotografias para ilustrar muitas de suas passagens e -supremo crime para os puristas do romance- coloca duas fotos de Austerlitz -o que nos remete à ideia de que não lemos uma ficção, mas uma história real.

Sebald não está interessado em fazer um romance normal. Em “Austerlitz”, ele faz uma mistura muito particular e bem sucedida de ensaísmo, historiografia, biografia e memorialismo, nunca de maneira gratuíta, mas, sim, de maneira muito cuidadosa. É quando Jaques conta a sua história que muito do que foi dito na primeira parte deixa de ser um aparente exercício de virtuosismo estilístico para se mostrar como peças de um quebra-cabeças da memória, destinado a estar sempre incompleto, ainda que seja possível perceber a figura no geral.

Lendo a história de Jaques e sua busca pelo passado perdido é impossível não pensar em uma ideia do historiador Tony Judt, para quem a Europa do pós-guerra foi reconstruída em cima do esquecimento. A náusea que começa a atacar Austerlitz impede que ele continue em seu esquecimento do próprio passado, que é, na verdade, a história de um momento de fracasso europeu e, porque não, de toda a humanidade. Um recado para nós, hoje tão preocupados em ignorar o passado para viver ilimitadamente o presente? 

O fato de a narrativa contruir-se sobre camadas de discursos diretos, apoiados, em sua maioria, pelo relato -e o passado mais longínquo de Jaques é contado por uma senhora bem idosa- apenas aumenta a sensação de enuviamento do que se conta. Por mais certa que seja a narrativa, não é possível acreditar que as coisas tenham sido daquele jeito. Por mais que se queira lembrar, contar, algo sempre vai escapar. O quebra-cabeças incompleto.

A parte final do livro é especialmente brilhante, pois Austerlitz vai procurar informações de seu pai na recém fundada Biblioteca Nacional, em Paris, um prédio que é um acontecimento arquitetônico. Ali, Austerlitz descobre que o cofre da memória pode, na verdade, ser sua tumba. Ele se perde no emaranhado arquitetônico e burocrático da biblioteca, o mesmo emaranhado e a mesma burocracia que possibilitou, em algum outro lugar, que os nazistas fizessem muito bem o trabalho que se propuseram.

O futuro de Sebald, enquanto escritor, parecia brilhante. Essa foi sua grande obra de arte, após publicar outros três livros incríveis. Mas nunca saberemos quais fronteiras Sebald ultrapassaria, pois ele morreu apenas algumas semanas depois de lançar “Austerlitz”, em um acidente de carro. Só nos resta reverenciar o que deixou.

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