TROPA DE ELITE 2

“Tropa de elite”, de José Padilha, foi um dos filmes mais polêmicos da retomada. Muitos o chamaram de fascista, outros aplaudiram o capitão Nascimento, encarnado por Wagner Moura, o policial que tratava bandido como bandido teria que ser tratado. O que aqueles que o chamaram de fascista e que aplaudiram a violência não perceberam é que, enquanto distribuia sopapos na cara dos recrutas gritando “pede pra sair!”, ele mesmo estava pedindo pra sair, afundando em uma espiral de neurose e violência. Mas o capitão Nascimento falhou em sair, apenas para ser bicado do BOPE, o esquadrão de elite da polícia do Rio de Janeiro, no segundo filme.

“Tropa de elite 2” começa no melhor estilo do primeiro, tom que será mantido durante o segundo filme: a mais didática das narrativas. Enquanto Nascimento comanda a invasão de um presídio em motim, o então professor e militante dos direitos humanos Diogo Fraga, interpretado por Irandhir Santos, faz uma palestra sobre a falência do sistema prisional – Nascimento e Fraga são inimigos fidagais, ainda mais porque o segundo é casado com a ex-mulher do capitão. A operação é um desastre, e Nascimento transforma-se em problema político, mas acaba levado à secretaria de segurança pública do estado nos braços do povo, que aprova o massacre; do outro lado, Fraga torna-se deputado estadual. Parece que essa será a dupla que se enfrentará durante o filme.

Se mantém o didatismo do primeiro “Tropa de elite”, Padilha consegue escapar do maniqueísmo nesse segundo filme. Nascimento cumpre com eficiência sua missão, consegue chutar a bandidagem pra fora dos morros, mas a criminalidade continua em alta. Ele está mais perdido do que nunca, ao mesmo tempo em que também vai se distanciando do filho, cada vez mais influenciado pelas ideias do padrasto militante dos direitos humanos.

No primeiro teve gente que não percebeu, mas, no segundo, não restam dúvidas: Nascimento é um homem destruído. O elenco é um dos destaques do filme -os corruptos têm a cara que pensamos que eles têm; Irandhir está excepcional; Maria Ribeiro dá o tom certo à ex-mulher do capitão; André Ramiro retoma com desencanto o antes idealista Matias. Nada, no entanto, se compara ao que Wagner Moura entrega em sua segunda encarnação como Nascimento.

A epígrafe do filme é “o inimigo agora é outro”, e é mesmo. Não adianta Nascimento sair distribuindo sopapos, saco de plástico, a violência que quiser. O que fica estranho, no entanto, é o discurso do sistema, pois, com ele, assume-se que há um dentro e um fora do sistema. O que o primeiro filme mostrou é exatamente que somos todos o sistema, e que a corrupção tem raízes em diversos setores da sociedade. No segundo, fica a impressão de que há esse sistema corrupto e, portanto, há outra coisa além dele, mais puro. O que consegue embaçar um pouco o maniqueísmo que ameaça se desenhar entre o sistema e os homens de bem -Nascimento e Fraga- é exatamente o fato de que esses dois últimos não podem ser identificados como os típicos homens de bem que certos setores sociais -como o apresentador de TV e deputado estadual Fortunato- idealizam: Nascimento é incorruptível, mas violento e estourado; Fraga é esquerdista, militante dos direitos humanos e defensor de criminoso. Ponto para Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani, que conseguem construir um maniqueísmo final que não resiste à prova do que o brasileiro conservador -essa espécie que tanto deu o que falar nas últimas eleições brasileiras- entendem por pessoas de bem.

O filme é sim aquela porrada na barriga que todo mundo diz. Consegue ser, inclusive, melhor que o primeiro, mais sofisticado em sua elaboração. E Padilha consegue se cacifar, com a cena final, a ser o futuro cineasta de um filme sobre bastidores da política brasileira -até aqui, ele, que já tinha feito o mais polêmico dos filmes -premiado em Berlim por um júri presidido pelo papa do cinema político, Costa-Gravas- faz, agora, o mais político dos filmes da retomada. Nascimento toma baile do sistema, mas recupera sua vida pessoal.

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  1. Como havia conversado contigo, concordo com a evolução. Meu único porém é o tratamento infantilizado dado a “esquerda”. No primeiro, ela é a classe média acéfala, que discute Foucault como se debatesse o último Datena. Já no segundo, mostra uma palestra e um debate raso entre polícia e (versus) Direitos Humanos.

    Vejo duas alternativas.

    Uma é da construção do Nascimento. Ele se faz herói pela falência da “prudência”, da “racionalidade” do código penal e seus constrangimentos. Mas fico na dúvida se não se constrói um espantalho muito simples de se contrapor (se contrapor e se constituir “solução” frente a essa esquerda montada nos dois filmes, não me parece complexo).

    A outra coisa é que essa fragilidade pode de fato existir. Temo que a “esquerda” guarde muitos traços frágeis quando lida com a violência. Aí não seria a facilidade para a construção, mas sim a debilidade (exagerada, talvez) de um discurso que não consegue lidar com traficantes, milícias. O Nascimento surge não só como falhas “da ordem”, mas também de outras alternativas. Talvez a “esquerda” se mostre de fato patética em suas alternativas.

    Pensemos…

  2. Duas coisas.
    Acho o Nascimento um dos mais bem construídos personagens do cinema nacional recente. Ele faz um arco que vai da certeza da ação, no primeiro filme, até o descrédito total, no segundo. Na verdade, ele é o único personagem não-raso do filme.

    Concordo com a crítica em relação à posição da esquerda. O problema, no entanto, é que não há espaço no filme para construir um discurso elaborado à esquerda,e aquele tipo de discussão foucaultiana do primeiro ocorre sim.
    Já no segundo, a palestra vai bem na linha do didatismo de toda a obra, e não deixa de ser uma oposição válida. De certa forma, ela justifica o discurso do “sistema”, só que agora a esquerda coloca a polícia no sistema, coisa que Nascimento não faz -até por isso ele agora vai combater o sistema por dentro. O discurso do Fraga é raso por não ir além, mas nãoa cho que comprometa muito o filme.

  3. Confesso que ainda não vi o 2. Fiquei meio chocado com o primeiro, não porque ache o filme fascista – apesar da reação de algumas pessoas até merecer essa classificação – mas por algumas coisas que passaram desapercebidas (?) da grande mídia.

    Eu me lembro de ter baixado o filme logo que ele vazou e, assistindo aqui em casa, ver o Padilha matar a Katia Lundi (ou Roberta Lundi, como ela se chamava). Depois de uma ameaça de processo, o Padilha mudou o nome pra Roberta Fonseca nos cinemas. Bem, a Katia Lund era uma das principais incentivadoras do Nós do Morro (a Roberta tinha uma ong). Ela também namorou o Marcinho VP (no Abusado, do Caco Barcelos ela é a Luana, acho que é esse nome). E o capitão Nascimento é o Rodrigo Pimentel, que era comandante do Bope em 199x, negociando clipe do Michael Jackson com o VP, sendo entrevistado pelo João Moreira Salles e pela Katia Lundi no “Notícias de uma Guerra Particular” – a frase que dá nome ao documentário é dele ou de algum outro soldado do Bope, inclusive…

    O que eu quero dizer é que a franquia Tropa de Elite é bem política desde o início. Já existia um posicionamento claro ali. Existe uma guerra e todo mundo está de um lado (sejam os estudantes da PUC ou esses cineastas que apóiam os traficantes).

    Tudo isso pra falar que vou ali um dia desses ver o 2 e volto aqui pra descer o pau (ou não…). Porque se, como diz o Capitão Nascimento, isso é uma guerra, eu escolho o outro lado…

    abraço

    • Uau, tenho que admitir que não conhecia essa história da Katia Lundi/Roberta, e é mesmo impressionante isso não ter vazado!

      É interessante você ter puxado o “Abusado” para cá, até porque ele, o livro “A elite da tropa” e o “Notícias de uma guerra particular” já davam, em tom de documentação, o que seria colocado na tela em tom de ficção. Parece que a realidade precisa sempre ser filtrada pela ficção, por nós, público brasileiro, para que ela fique real.

      Quantoà guerra, nem sei se ela existe de verdade, o quanto isso não é sensacionalismo jornalístico, até porque, se há uma guerra, a franquia do Tropa de Elite mostra que não dá pra dizer qual o lado do “bem” e qual o lado do “mau”. É a história do sistema. Quando você diz que está lutando contra o sistema de dentro, supõe que há um fora do sistema. A questão é: há mesmo um fora do sistema?

      Abraço e volte depois de ver!

  4. não tenho nada de muito aprofundado pra dizer sobre o filme. não vi o 1, vi o 2 empurrada, mas achei muito bom.
    mas só tô comentando aqui pra dizer que adorei seu texto. e que adoro teu blog, fred.
    beijo


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